XVIII
N'aurez-vous point pitié, jeune homme?...
Non, non, j'en ai le pressentiment,
une ère nouvelle commence...
R. de LORGUES. (L. das Communas.)
Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre, mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á herdeira.
Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema, encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:
—Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o deixou a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe, economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.
O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.
Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.
De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.
A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados, arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante. Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa, Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos empuxões de fóra.
Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:
«A minha tia Maria da Gloria.
«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu perfeito juizo.
Leonor de Brito.»
Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.
Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das vidraças, por onde saltou dentro.
Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com pannos adhesivados e compressas.
De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro Teixeira.
Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de mortal espasmo.
—Leonor! minha prima!—exclamou elle—passando-lhe a mão na fronte—Que sangue é este?!—bradou, vendo as compressas tingidas.
—É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma tesoura...—disse o feitor.
—A minha carruagem depressa aqui!—bradou Alvaro—Ajudem-me a transportal-a.
Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para Lisboa, a passo.
A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:
—Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre, quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei sempre...
Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se um sorriso, e murmurou:
—Um cadaver...
Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.
E contemplou-a.
Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não guardou lembrança.
A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas, chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar Leonor, e leval-a a um leito.
—Creio que vem morta...—disse Alvaro—e sahiu para logo voltar com dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram elles.
—A vida da alma—dizia Alvaro com assombro dos medicos—deem-lhe a vida da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da razão!
E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:
—Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.
E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.
Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha, que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em Deus o salvamento da prima.
Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro, e balbuciou:
—Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que tu tens penado!...
Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade, excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.
Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas não para ella.
É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.
Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...
O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos rancorosos do velho odio civil.
Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua residencia para a quinta do valle de Santarem.
Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia d'elle e de sua mãe.
—Se não podes dar-me vida, Alvaro—dizia ella—que vem aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora feliz!...
—Feliz!...—atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.
—Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?
Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:
—Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade que mereces?
—Dá, minha Leonor...—balbuciou o internecido moço—Dá... é a tua amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão... N'aquelle tempo...
—Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...—atalhou Leonor, afogada de soluços...—Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de compaixão...