IV.
O meu amigo chegou á janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de 1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica laryngéa. Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a cara do meu amigo Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou depressa os olhos, mas depressa obedeceu com elles ao magnetismo das olhadellas do visinho. Eu cá da minha alcova, por entre os farrapões das cortinas amarellas, estava presenceando o introito comico do acto mais solemne da vida dos povos, que era o casamento então, e hoje são as eleições.
O meu amigo não se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e vinha; olhava-o, como a disfarce, lá do fundo da sala, e trazia sempre um terço do olho esquerdo compromettido.
Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O nariz, considerado porta-voz do coração, ecco da poesia intima, interprete da linguagem{27} muda da ternura, exerce a mais nobre das missões corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de simonte.
Fui almoçar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle radioso de gloria.
«Então?—disse-lhe eu—quantos graus acima de zero marca o thermometro da visinha?
—Está pegado o namoro.
«Eu vi tudo.
—Mas não viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse que não...
«Que não sabia lêr?
—Não, homem: disse que não acceitava. Instei, e, por fim, deu signal affirmativo com a cabeça, e fugiu da janella.
«Oh! é tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina não pôde mostrar a fronte á luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixão a compelliu!
—Tu estás caçoando!
«Forte scisma a tua! Não póde a gente vestir as suas idéas com as pompas da linguagem! Ora vamos, Bento. É preciso escrever á pequena.
—É um grande embaraço. Não sei como se escreve a esta mulher. Será muito estupida?
«Parece-me que é, e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola. Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu coração e fallo por ti.
—Valeu! nota lá a carta.
«Senta-te, e escreve.
Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei em espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que offereço como norma aos amadores das Hermenigildas:{28}
«Meu adorado Bem.
«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á vossa compaixão o triste sudario da minha alma.
«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem a vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as melodias do rouxinol do salgueiro.
«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo para a chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.
«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á dôr, os olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse peito de alabastro, ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da ingratidão!
«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade, que, ha muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o trilho aerio da sua patria, e ficou erma e só na região das neves...»
—Ella não entende isto!—exclamou o meu amigo!
«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta dous papelotes, e mandava-te á fava. Continúa:
«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede, pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos raios do sol oriental!
—Isto parece-me asneira!—replicou o amanuense—Bebendo candeias! Viu-se já um similhante disparate!
«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?
—Quero que entenda: é boa a pergunta!
«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar de candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella perfeitamente o que são; e{29} linguas, em quanto a mim, só conhece a de porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a inspiração, e deixo-te nas trevas. Escreve lá:
«Nos meus sonhos...
Entre parenthesis. Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro o escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres achas de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario ter um talento creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu fui um dos apostolos deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla. Vieram depois os imitadores, sem critica nem gosto, e asnearam de modo que venceram o passo que vai do sublime ao ridiculo.
«Escreve lá, Bento de Castro.
«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada na lua, com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés. Ereis vós, Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso reconhece o dono, e a rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a acolheita.
«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem vêr-vos, só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?
—Acaba depressa com isto!—interrompeu o meu amigo—Vêr-vos, não vêr-vos, amar-vos, e vêr-vos, e não amar-vos... que diabo de embrulhada é esta!?
«Tu és um tolo!—redargui eu—Está explicado o segredo da tua nullidade perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas reduzem-se á filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em Portugal, se ao teu patrimonio, quasi dissipado, e á tua excellente figura, quasi em decadencia, juntasses um pouco de estylo. Todo a conquistador deve ter um arsenal bem fornecido de bombas phraseologicas. A idéa não é que persuade{30} uma mulher, é a palavra. O que tu chamas embrulhada, meu patavina, é o melhor que se póde dizer quando não ha nada que se diga.
—Suppomos—-replicou elle—que esta mulher não me entende?
«Certo disso estou eu.
—O que se segue é não me responder, porque receia que eu me ria da sua ignorancia.
«É justamente o que te convem, tolo.
—Que me convem!
«Sim; convem-te que não responda, porque não respondendo, falla-te. Que lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?
—Parece-me que pensas bem!... Tu és um grande homem! Ora anda lá, diz mais alguma asneira.
«Onde estavamos nós?
—Estavamos no vêr-vos e não vêr-vos, amar-vos e não amar-vos...
«Ah! já sei... põe lá:
«Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!
«Mas é tão dôce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vós ser a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor; subjeitai-a aos decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei esta monarchia com o absolutismo despotico da vossa augusta vontade.
«Se não quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de que acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,
Bento de Castro da Gama.»
O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em coração, e postou-se na janella. Hermenigilda appareceu. A{31} carta foi-lhe mostrada; ella fez menção de recebel-a. Castro sahiu, roçou-se pela porta, lançou-a no pateo, e tornou para a minha janella.
Hermenigilda não apparecia: estava naturalmente estudando os jeroglificos druidicos da carta.
O preto, porém, veio á sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.{32}