V.
A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.
Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao pundonoroso Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes caretas que a natureza patusca ensinava aos macacos. Convencido zoologicamente da aproximação das duas especies, visto que a careta era de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda prometteu levantar de sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles, mas a bota de montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.
Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com cara de paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais significativa de que não entendêra palavra da carta arripiada.
Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.{33}
«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.
O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na palma da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá respondeu que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os hombros em ar de paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem melancolicamente sandia.
«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.
—Podeis fallar-me?—disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo porta-voz.
Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:
—Se podeis fallar-me...
Hermenigilda não respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com toda a franqueza dos seus pulmões, quando viu, lá ao fundo da salêta, reluzirem os olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se não podesse supportar o magnetismo hediondo d'aquelles olhos, recolheu-se para dentro, murmurando:
—Eu quebro a cara ao preto! La está o patife a espreitar-me.
Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo. Fiz-lhe vêr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de paciencia. Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo jogando o sopapo com a tripulação; Bonaparte comendo farinha de pau no deserto das piramides, etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da historia, e resolveu tolerar com paciencia todas as caretas do preto.
«A ti o que te convem—disse-lhe eu—é relacionares-te com o Pantaleão. Tu não conheces o Miguel das Infuzas?
—Quem é o Miguel das Infuzas?{34}
«É um fidalgo do Porto, grande genealogico.
—Não conheço na nobliarchia portugueza esse appellido Infuzas.
«Tambem eu não; mas o appellido é acquisição feita pelo tal Miguel. Chamam-lhe o das Infuzas, porque elle, amador das artes, viu duas pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do Porto, e quando a occasião lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que pôde nas algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das infelizes lobrigou-as em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito genealogico as pozera no prego, divulgou o feito do illustre neto dos Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em diante, a classe media associou as infuzas aos appellidos deslumbrantes do fidalgo, que continua a esmerilhar na genealogia do proximo um casamento desigual de quinto ou sexto avô, para, nos seus momentos de soberba aristocratica, mostrar aos primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que ousa chamar-lhe primo.
«Aqui tens o maior amigo de Pantaleão. Eu não posso apresentar-te porque não pertenço á roda, como sabes; mas tu que és irmão de morgado, procura-o com o fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo avô. Logo que fallares em oitavo avô, o homem manda-te sentar, e pergunta-te onde estás hospedado.
—E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo avô?!
«Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo avô instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo avô casou com a segunda ou terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu oitavo avô foi casado com a tua oitava avó. Ha trinta mil cousas a saber d'um oitavo avô, pois não ha!
—Mas eu sei cá quem foi o meu oitavo avô?
«Isso elle t'o dirá. É capaz de te descobrir um joanete{35} que elle tinha no pé esquerdo. Conseguido o primeiro passo, pergunta-lhe se uma senhora da tua familia é exacto ter casado, ha 327 annos, na casa de Villar de Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente. Consegue que elle te chame primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu não casares com Hermenigilda, apesar de todas as caretas do preto.
—Tu nunca fallas serio, João! Devéras entendes que eu falle ao homem?
«Hoje, se é possivel. Isto são favas contadas. O Miguel das Infuzas vem jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleão, e tu és apresentado no proximo domingo.
Castro foi á janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.
Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar, disse, affectando muito receio de ser ouvida:
«Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mãi estiverem deitados.
—A que horas?
«Ás nove.
—Ás nove!?—replicou elle maravilhado.
«Sim, sim,» tornou ella, e desappareceu.
—Isto vai bem!—exclamou Castro—Mas ás nove horas! tão cedo!
«Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares gretados, come o seu caldo requentado ás sete horas, arrota até ás oito, deita-se ás oito e um quarto, adormece ás oito e meia, e ás nove é uma massa bruta, inerte, inamovivel. Bom é que vás sabendo o programa do teu futuro em casa do fidalgo d'Amarante. Ás oito horas has-de estar no thalamo conjugal com o barrete de retroz por cima das orelhas, e ás nove has-de resonar o mais estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua mulher.{36}
—Estás enganado!—replicou elle—Se eu casasse com ella, pensas que me ia degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar á custa de minha mulher, e dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que póde viver a mãi de Hermenigilda? Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate da gotta, está a filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella virá quando vier, e virá sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres tu viajar comnosco?
«Oh! pois não hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por largo, iremos a Vianna, á Senhora da Agonia! Que bello futuro!
—És um pateta!—redarguiu lisongeiramente o meu amigo.—Não se póde fallar serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla ás nove horas, é escusado procurar a protecção do Miguel das Infuzas.
«Pateta és tu! Sem o Miguel das Infuzas não fazes nada. Se o teu fim fosse seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro clandestinamente, evitando relações com o pai. Mas tu queres casar, e casar com brevidade; precisas ser admittido ao gremio da familia; dar ao teu namoro um ar de honestidade boçal; cabecear com somno todos os dias, meia hora ao pé da noiva; jogar a bisca de nove com tua sogra, e representares, em fim, de palerma até ao dia em que se cruzarem definitivamente as raças. Não deixes, portanto, de procurar o Miguel das Infuzas. Vê o que ella te diz hoje, e ámanhã vai ao Porto saber alguma cousa do teu oitavo avô.»
Castro foi á janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares, como são todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.{37}