VI.

O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos treguas dava á minha ancia.

Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance, Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para cortejal-a; mas ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças d'aquelle sitio, até alta noite; e só depois das onze horas pude vencer a resistencia magnetica que me lá prendia.

Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um vulto n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando eu estava em frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim. Muitas cousas imaginára eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me todas. Parecera-me facil e até natural perguntar-lhe a causa de me ser prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.{136}

A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu caminho, e confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...

O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho, e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada. Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse. Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o coração do peito. Não podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me, causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé d'ella estivesse um amante.

Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei, e ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da Luz, se os ladrões não tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella: «Se não fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos nós feitas em pedaços, sem confissão, nem sacramentos.»

Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»

Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que de dia compozera o{137} meu exordio; porém, atido ao improviso do coração, iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.

Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle instante. Um tal Estevão, em presença d'uma tal Magdalena, não podendo vencer o susto do primeiro encontro, faz um esforço como um homem que fecha os olhos para saltar um fôsso. É bem dito isto; não se diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a certeza da minha ida.

«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia dizer, depois d'uma investida tão vehemente.

—Boas noites—murmurou ella com voz abafada e tremula.

«V. exc.ª conhece-me?—tornei eu, querendo dar á pergunta um tom melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.

—Parece-me que é a pessoa que hontem...

«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...

—Devo-lhe um grande favor—atalhou ella, não menos agitada que eu—e por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...

«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª me diga se eu devo pedir-lhe perdão...

—De que?!{138}

«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...

—A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros... Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...

Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina acabava de apagar a luz, e estava já na janella.

Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr sulphurea e phantasticamente prosaica.

Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse, logo que eu voltei de espionar o quinteiro:

—O senhor de certo me não conhece...

«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse dizer como eu a conheço...

—Queira dizer...

«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina; como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o nas alturas do céo.»{139}

Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no Renegado de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella me não interrompesse com vehemencia:

—Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...

«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!

Felismina! (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a caseira, não é verdade?

«Sim, minha senhora.

—Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...

«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...

—Não me surprehende...—tornou ella vivamente commovida—Eu sei que me ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa saudade como as eu chorava então...

«Que faria a esse homem?

—Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho sobre o meu coração para jámais se alliviarem...

«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?{140}

—Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão, dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina fatal enganar-me.

«Enganal-a...—interrompi eu, com exaltado resentimento.

—Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não voltar aqui?

«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com que a pergunta me era feita.

—Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz; eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso. Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero habituar-me á sua voz.

«Só por compaixão de si mesma?—atalhei eu, sinceramente commovido—Não será antes pena de mim?

—De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.

«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer irmãos?

—Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo...{141} quantas vezes eu lhe peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo... Creia-me, se poder.

«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D. Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe acudir.

—Não póde, não póde...—interrompeu ella soluçando—O mais que póde é compadecer-se.

«E não é a compaixão um lenitivo?

—É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o melindre da minha infelicidade...

«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?

—Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.

«Como?!—interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e metade de D. Quixote de la Mancha.—Como?! pois ha, para vergonha da minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma victima tão resignada!

—Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja luz n'uma casa que está ao fundo do{142} quinteirão. Quem sabe se os caseiros estão comprados? Veja, veja.

Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na averiguação, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem estabelecer ao menos uma hypothese ácerca da extraordinaria bulha. Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de observação, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio sobre-modo poetico para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas são.

A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã. Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas e sustenidos, e as outras garatujas tão necessarias a quem imprime romances cuja linguagem é a pura e genuina do coração. Foram estas as suas palavras:

—É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me deixa saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas vezes; mas não posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não me sacrifique, por quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as colloque{143} em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não sacrifique, é porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á pena d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo deve parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que muita gente quer armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais préza, nunca, em quanto eu viva fôr, proferir uma só palavra das que eu lhe confiar. Não sei que sentimento de irmã é este que V. me inspira! Nunca esperei encontrar uma amiga a quem dissesse «aprende a soffrer commigo.» Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse, sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... Ámanhã, depois da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me julga incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.—Ora aqui têem como a cousa se passou, tal e qual.

Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a baixo, por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande, extraordinario, e fadado para grandes lances.

Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia estremar a confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma alma forte, á opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não obstante as interrupções da minha Poncia, que vendo{144} o meu fastio ao jantar, obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o estomago.

Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão. Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um tyranno, escondendo as lagrimas para não irritar a colera do seu verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:

«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás almas, e prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e o snr. João deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que é o mais acertado.

Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.{145}