VII.

Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella ha-de fazer tregeitos de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos por nos adaptarmos ás formulas vulgares d'uma rotineira paixão das que morrem no inverno, se nascem no verão ao pé d'um pinhal, cuja poesia não resiste ás primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem fôlego que o periodo é uma especie de machina pneumatica.

Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina; mas a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas imaginarias victimas—esse, que a maior parte das vezes é um pobre homem, não leia isto porque de certo não aprenderá aqui a receita com que se fascinam as mulheres.{146}

Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.

Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a reputação desta senhora.

D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no seio d'ella coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume continuo d'uma adoração, que não podia deixar cahir neste chão maldito um só bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror de ter tentado disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno, cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos o seu nome.

Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi sempre, e ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de mim o ermo do desterro, a insulação medonha do estrangeiro em solo de barbaros—essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu cuidava agora que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que virão algum dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou de grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre os meus herdeiros.{147}

Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar aviso é necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu promettido a ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então, pensava eu ir primeiro a descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella rodeada d'anjos lá, cortando a immensidão do céo, no dia do seu resgate. Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu, velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, vestida a alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu tive, e toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu, finalmente, fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar com a intenção providencial que por aqui me traz entregue aos baldões d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.

Ahi vai agora o conto:

Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança passára para Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha de nove annos já sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até aos dezenove annos. Sahiu para a companhia de seu pai reformado em coronel, e completou a sua educação na convivencia de algumas poucas familias exemplares.

Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o instincto ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a esconder-se entre as murtas e as tilias do jardim, graças á experiencia,{148} entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos dezenove annos.

Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de pessoas bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas, e conversavam sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous sexos causou-lhe uma estranheza em que as faces davam o signal, rosando-se, pintando-se da mimosa purpura que, rara, em nossos dias, reçuma em rosto de dezenove annos, por uma razão que o leitor sabe, e mais eu.

O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!) era, quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava nas suas contemplações, sósinha.

Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos palavras lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do moço, e tão frivolas eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle, Leocadia julgar-se-hia entre todas a mais indifferente ao timido Vasco—chamava-se elle Vasco, se bem me recordo.

Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como... deixemo-nos de metaphoras—amou-a como hão-de vêr que elle o prova, depois.

O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não obstante, como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o meu pobre Vasco andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé se elle entrava ou sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista dos olhos, e da outra vista do coração, de maior alcance ainda, se o coração não é myope, ou zarolho, peior mil vezes.

Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até pelo cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para elles. É infallivel, nas mulheres{149} que vieram com esse aleijão a este mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta edificativa obra.

Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando no segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o amor astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina que o rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de haveres não tinha nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de gastar o seu tempo mal, porque a mocidade anda a galope, e quando a gente mal se precata, deixou perder a occasião de arranjar noivo conveniente, e acha-se velha.»

Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez córar Leocadia.

Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão linda como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um rosto innocente.

Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu liberdade ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não se consegue aos dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se reciprocamente uma edição diaria do seu amor em duas ou mais folhas de papel, e, depois da vigesima carta, escreviam o prospecto do seu futuro, com a riquesa de imaginação usual de todos os prospectos.

Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas almas, ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do mesmo som o primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz, especie de bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na{150} infancia, e o despertar desse terrivel dom na adolescencia! Bellas deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos era sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem ambos n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de arvores, onde os passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus ninhos, e os seus filhinhos pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma fonte, derivando em fios de prata por sobre a relva as suas aguas, e nessa relva havia de pastar um cordeirinho branco, malhado de preto, com um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho andaria sempre atraz de Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia de ser um cão do Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua ama, lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.

Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos musicos do bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia, espriguiçando-se ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar livre, sorveriam abraçados o primeiro halito da atmosphera, perfumado de alecrim e rosmaninho, revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar burrifadores de limpida agua, regariam os canteiros, as balsas, os vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas, enxotariam a gata que se encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um passarito que ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o cordeirinho, iriam para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas italianos, o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal recompensado amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas, exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não acharam cá em baixo o nosso paraizo.»

Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.{151}

Em quanto ao almoço, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (cá estou ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no periodo anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por força vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que ainda estoirou de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres amantes projectavam estes grandes melhoramentos na sua vida como por cá se projectam os melhoramentos materiaes do paiz, isto é: não cuidavam da receita, nem do orçamento, nem do deficit, nem... eu sei cá como se chamam essas cousas que por ahi dizem os que sabem lá da salvação do paiz! O que eu sei é que este par de creaturas bemaventuradas, com quanto fossem muito anteriores ás importantes applicações do magnetismo, attribuiram ao magnetismo propriedades que os modernos ainda não sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice sub-lunar. Entenderam elles, pois, que o magnetismo era uma substancia nutritiva como vacca e arroz, como roast-beef e almondegas, como esparregado e pudim de batata! Que parece esta sandice ao leitor circumspecto, que tem o seu estomago na devida consideração, e crê que isto de poesia e poetas, de idealismo e espiritualismo, são o que realmente são: indróminas? Pois é verdade, como lhe vinha contando, amigo, senhor meu, cuidavam elles que o trivial e velhissimo facto de se amarem os separaria dessa lei commum, lei estupida por isso mesmo que é para todos, praxe, tão velha como o amor, de attender ás justas reclamações deste ser intimo que faz os grandes estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e particularmente os homens gordos: quero dizer—o estomago, viscera-rainha, orgão dos orgãos, potencia sempre discutida, sob um pseudonimo qualquer, no discurso do throno, aganipe das locaes mais chorudas do jornalismo, irmão gemeo da soberania do talento, o estomago, oito letras a cujo serviço estão as outras dezeseis, porção, em fim, do homem notavel, que mais se{152} lhe venera, por isso que a chegada de uma summidade a qualquer terra é logo celebrada por tres, quatro, cinco jantares em que uma concava terrina de sôpa e uma pyramide de boi assado substituem os presentes d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se regalavam os adventicios de longes terras.

Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco não scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o coração, se o torpe raciocinio lhes argumentasse á priori com as villãs necessidades da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria para se amarem.

Não pensava, porém, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a snr.ª D. Fortunata Proença, madrasta da mesma menina, casada tambem em segundas nupcias com o militar, e mãi d'um rapaz estragado, senhor d'uma boa casa no Alem-Téjo de que sua mãi era uso-fructueira.

D. Fortunata, casando com o coronel, promettêra-lhe empregar a sua authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua formatura na Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento assegurava á enteada, se não um digno esposo, ao menos uma boa casa, e, a todo o tempo, um dote que ella poderia levantar, se os maus costumes do marido fossem incorregiveis.{153}