VIII.
O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta, resolveu curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de Proença, que estava a completar a formatura, annuira á proposta da mãi, conhecendo apenas de vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam já em poder do coronel.
Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pôde balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante surpreza, Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou dizer que já não podia dispôr do seu coração, porque amava outro homem.
O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que não valia a pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina tomou o riso por carinho paternal, e lançou-se de joelhos aos pés do pai, suffocada pelas lagrimas que lhe sahiam do coração agradecido e venturoso.{154}
—Então que é isso? (disse o coronel, tomando-a nos braços, e sentando-a ao pé de si) Cuidas tu, criança, que eu sou tão criança como tu? Achas que eu deixarei á tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha querida filha? Essa é boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao Vasco da Cunha, tão tôlo como tu, e que não sabe melhor do que tu o futuro que vos esperava. Olha, Leocadia, não se póde ser pobre n'esta sociedade. A nossa casa é muito pequena, bem o sabes; e Vasco é um filho segundo, sem habilitações para modo de vida algum. Estes fidalgos cuidam que ser fidalgo é uma profissão. Os filhos segundos, se lhes faltam as sopas do primogenito, não servem para nada, não tem em si recursos para subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam réos de leso-brazão se pedissem uma occupação plebêa. Meus irmãos, Leocadia, foram para o Brazil, logo que a razão lhes disse que a pequena casa onde viviam era minha. Trabalharam como se nascessem do populacho, e estão ricos, riquissimos, e serão mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o eram quando de cá sahiram. Quem saberá melhor o que te convém do que eu, minha filha? Sei em que tempo estamos, e quero deixar-te preparada para um tempo que ha-de vir, muito peior que este. Espero ainda vêr em minha vida desapparecer o rendimento da Commenda que faz a nossa casa mediana; ido esse, o resto bem sabes o que é. Se casas com esse rapaz, que não tem nada, quem vos sustentará? Eu não poderei, nem, se podesse, quereria. Para que reconheças quanto me tenho a ti sacrificado, lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a filha. A condição de casares com Francisco, acceite por ella, explica o meu casamento n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mãi, cuja memoria me não deixou jámais encarar com bons olhos outra mulher. Depois d'isto, dir-me-has se eu não devo esperar que tu espontaneamente acceites a sorte que eu te preparei. Serias má filha,{155} se recusasses; e eu seria um pai muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei; e, tão firme estava na união das nossas vontades, que sem te consultar, pedi as dispensas necessarias para o teu casamento com o meu enteado. Enganar-me-hia eu, Leocadia?
A menina soluçava com os labios collados na mão do pai, cobrindo-lh'a de lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos aguados. D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu coração, o maior de todos, porque o menor era de certo a vida.
—Não respondes, filha?—dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella escondia no seio do pai.
«Já respondi...» balbuciou ella.
—O que? que respondeste, Leocadia?
«Farei o que fôr da sua vontade, meu pai...
—És a minha Leocadia...—disse elle com apaixonada meiguice—Reconheço a filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com Vasco... Senta-te, menina. Diz-me cá: ha que tempos andam vossês com essa brincadeira?
«Brincadeira... não era brincadeira, meu pai... Nós amamo-nos muito... ha dous mezes.
—Já ha dous mezes? Está feito! mas eu não tenho dado fé... Como se entendiam vossês? fallavam ás escondidas, ou...
«Nunca fallámos ás escondidas...
—Então, escreviam-se, sim?
«Sim, senhor.
—E as vossas tenções?
«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.
«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha, tu guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o approvava como digno de contar-se a um pai...{156}
—Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me disseram que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era rico, e eu só devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se não fosse isto, eu seria a primeira a dizer ao pai...
—Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que teu pai deseja fallar com elle.
«O pai!?
—Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por elle ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse mal porque minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de seguir uma carreira até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns pais assim pensam, bem o sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil, não quero esquecer-me de que sou o seu primeiro amigo pelo coração, e o seu primeiro conselheiro pelo dever. Vasco, depois de ouvir-me, ha-de transigir com as tuas circumstancias e com as d'elle. Ficará amando-nos ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais elle possa queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.
Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do coronel. O velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe cahira sobre o bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto, desentalava a dôr oppressiva do seio por um ai.
Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso: «Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. Leocadia.»
Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça. Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do pai de Leocadia.{157}
Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.
Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai passar-se na sala do coronel.{158}