XVI.
Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:
«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma suspeita menos casta.
—Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?
«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente rapariga brincava com o preto puerilmente.
—Valha-te o senso commum, amigo Bento!—repliquei eu—Que terrivel significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza d'um brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo sanccionado na minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para andar entre mãos da mocidade!...
«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!
—Faz muito: pois já te esqueceu o pueri ludunt? os meninos brincam? e posto que lá não diga utriusque coloris, d'ambas as côres, infiro que ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade. Logo que se{86} dá nominativo e verbo, tanto faz que os meninos sejam...
«Cala-te, importuno!—atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da alcôfa um pão e um canto de queijo Chester.—Fica na certeza de que a minha consciencia está socegada, tranquilla...
—O mesmo não pódes dizer do estomago...—acudi eu, vendo o precipicio aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu amigo subia o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de Hermenigilda.
Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto, desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou entrar na camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos sustos deu á primeira mulher de Jacob.
Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli estava. Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado—bem sabia elle porque, melhor que eu—e Pantaleão, com semblante rubicundo e prazenteiro, disse-lhe que tinha grandes cousas a contar-lhe.
O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o seguinte o que elle queria.
Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e a prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que sahisse immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante, que deviam unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.
Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e chamou a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.{87}
«Vamos a saber, continuou elle—aqui não ha que replicar! O primo Bento vem já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica sendo o capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá amanhar a mala, e amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?
—Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.
«Pois então, eu vou dar ordens.
Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar, afagava as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala, escarlate como a flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra mais linda antes, se depois que o pejo lhe coloriu a tez.
Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa encantadora vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella, devia dizer-lhe palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando o collo de puro jaspe, parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo voluptuoso da borboleta! (Como isto sahiu engraçado e arredondadinho! É a minha especialidade, leitores.)
O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me que me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento. Prometteu-me arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel para ficarmos visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me saudades, que depois de trinta annos se conservam ainda em meu coração fistulado de desgostos, cheio de fezes agras, sujo do sarro das paixões, e coberto d'uma crusta de musgo petrificado pelo gêlo dos desenganos acerbos, sendo o mais pungente de todos a certeza, a que vim, de que o homem não é, como disse Platão, um animal implume, nem a sombra d'um sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse Moysés, nem animal racional, como dizem alguns philosophos, que se excluem,{88} vistas as muitas irracionalidades que escrevem. O homem, em quanto a mim, é um pedaço d'asno! A ultima palavra da sciencia acabo eu de proferil-a agora.
Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não fosse o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava explanar, com methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades eternas de que ninguem faz caso por isso que são eternas, e tudo que é eterno não quadra ao nosso gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.
O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa ou má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre os seus irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a fórma está no involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos arminhos recamados de brilhantes.
Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da posteridade.
Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.{89}