XVII.

Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi todos caseiros e foreiros de Pantaleão.

Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o primo Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de caçadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca, instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante enthusiasta.

Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam «amarrem esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos soldados, que arremeçavam pedradas ignominiosas ás canellas nuas dos fugitivos.{90}

Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho do Marão.

Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.

O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de soffrer, não lhe arrefecêra o animo!

Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro, envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de Bruto.

Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da Fraga, João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e cavalleiro do habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous francezes em 1812.

Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel arranjarem-lhe um salpicão frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpicões e ovos.

N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um officio para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e pediu a Castro que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a revolução de caçadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza, ao bravo batalhão, ao rei absoluto, e{91} não esperou os salpicões, nem congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.

O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.

A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel a si mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram olhos quando os incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das espingardas, nas refregas a que delirantemente se arremeçava, faziam n'ella o effeito do zumbido na orelha do cerdo: silvava assobios terriveis de colera, e animava os soldados, umas vezes com um «arre p'ra diante» outras vezes chamava-lhes filhos.

«Quem é este mocetão?—perguntou ella ao marido, fitando Castro.

—É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da Amarante.

«É valente?—replicou ella.

—Desejo mostrar valor—respondeu Castro.

«Sabe jogar a espada?

—Fui cadete de cavallaria.

«Defenda-se lá d'um sexto!—disse a marqueza, e recocheteou com o cavallo para entrar em combate.

Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o estado maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de mancebos das principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com repugnancia. A marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu desastrado amigo tinha uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo para que a marqueza, triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna d'um Voltaire{92} zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens de dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por se deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas inequivocas da satanica sympathia da mestra.

Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada da fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem, subiu ao pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou uma obra prima da eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou á evidencia quanto era grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de 1820, herpes venenosas que fermentaram no sangue putrido de Gomes Freire.

Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina, abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:

Com dinheiro, pão, e vinho
Sustenta-se o Miguelzinho,
Sem dinheiro, vinho, e pão
Sustenta-se a Constituição.

A Megera de Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de D. João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua Jeanne d'Arc, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos Canellas.[2]{93}

O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil cruzados com que resolveu ir viajar, se o deus d'Ourique não favorecesse a causa do marquez de Chaves.

Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio de forças, para repassarem as fronteiras.

Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo brigadeiro Claudino.

Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento estava em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um mez, por causa da convalescença da egua, e foi depois unir-se a Braga ao marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peças d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo,{94} mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o até á Ponte da Barca, onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, á baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e, entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas baionetadas, salvo seja, no costado.

Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse a Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.

Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a familia para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.

Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho no portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse da Ponte da Barca até sua casa, logo que elle se restabelecesse.

Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida impassibilidade, e disse:

«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com esses herejes!»

Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe que seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o receberia{95} em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia á de sua familia.

Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para isso razões fortissimas.

Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.

Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração, ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o casamento, especie de cura homœopatica.

Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e continuo a merecer a confiança dos pais de familia.{96}

[2] D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça. Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta quadra:

En porfias soy manchega,
Y en malicia soy gitana;
Mis intentos y mis planes
No se me quitan del alma.