XVIII.
Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para com ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios, soláus, e varias outras feições do folhetim—a moral publica, dizia eu, quer que um romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o crime, incitando o coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do mal. N'este romance, se tal nome é bem cabido n'uma biographia de personagens ainda vivas, excepto Pantaleão, não ha nada que seduza corações inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o paladar com o uso do absyntho das paixões licenciosas. Aqui é tudo posto no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, vestida com singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que tão farto e nedio trazia o{97} coração de Hermenigilda, e outras creaturas da mesma tempera.
SCENAS DA FOZ é um livro d'ouro. Peço licença para dar ácerca da minha obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros litteratos, desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano—que escreve sempre com a mira posta na posteridade, e crê, como deve crer, na perpetua florencia da sua reputação—excepto esse, os nossos primeiros litteratos, para se pouparem ás avaliações incompletas das suas obras, escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão portugueza e elegante a phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do idolo. Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje nos limbos da velha academia.
Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu romance é a historia do coração humano. É um miudo exame das vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia. É o telescopio que alcança os astros do universo moral. É uma amalgama de historia, de philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta a opinião do leitor illustrado, e tambem a minha.
Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente soêzes, e outros hypocritamente pudibundos.{98} Os primeiros dizem que o meu romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhança, nem idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns pataratas.
Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras estrangeiras, e não é tão bonito como as historias proveitosas do Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me pena.
Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!
Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos outros com meia duzia de palavras convencionaes? Alphonse Karr não conhece creanças; o que nós chamamos creanças chama elle mulheres pequeninas. A civilisação tem alterado muito o valor intrinseco de certas palavras antiquissimas, como, verbi gratia, pudôr, honra, amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe. Eu creio na innocencia das mulheres como synonimo de pureza; mas de simplicidade, não. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuçados da vida é um segundo instincto com que vieram á luz as mulheres do seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris inducções que me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do author de Les Femmes.
Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade—e mais se doem do pungir do espinho{99} que já se lhes não esconde em flores... Lembram-me então aquelles versos de Béranger:
Prudes, qui ne criez plus
Lorsqu'on vous viole,
Pourquoi prendre un air confus
A chaque parole?
Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada de ser caritativa.
Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades; querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel, é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.
O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa, e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma irreligiosa philosophia.
Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds melancolicamente piegas.
Não verterei nas almas o nectar libidinoso do Sophá de Crébillon.
Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.
Não direi, como Gœthe, aos infelizes que se matem; e, se fôr necessario, provarei que Werther foi um tolo, se{100} existiu; Gilbert, Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.
O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são. Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os. Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda, nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.
O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada importante. O que vem é de certo o melhor de todos.{101}
[3] Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio do Repouso, com o seguinte epitaphio que não diz nada:
Saudade perennal, geme, e avalia
Thesouro de que é cofre a sepultura.
Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte. Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite. Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho. Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia legar...