XIX.

Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta annos, as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As palavras que então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos, as miudezas menos reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me déra nesse tempo! É o caso:

Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda da mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que tinha seis bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia, D. Mafalda a ser quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o qual casou na dita casa de Cabeça de Veado, como consta da Chorographia de Carvalho, e da Historia Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente, nas Nobliarchias ineditas de Alão de Moraes, no appellido «Maldonado».

Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu primo, reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa que sabe de sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o alargamento dos tecidos,{102} accumulados n'uma região, com detrimento d'outras, é uma pseudo-gordura.

Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou em averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente casar-se com um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o comêço, e o progresso das relações, excepto o que elle, ainda que quizesse, não poderia contar em estylo oriental.

Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a contas, fechando-se com ella na casa dos presuntos.

«Com que então—disse a velha—tu vaes casar, e não me davas parte?!

—O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...

«E gostas muito do teu noivo?

—Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.

«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te deixares vencer pela tua paixão...

—Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?

«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era um malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?

—Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo, como quizerem.

«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio é apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem vos visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que acontece na nossa linhagem!... Pois tu...—continuou a velha inexoravel, em quanto Hermenigilda fazia torcidas{103} nas pontas do lenço do pescoço—pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo mais antigo d'Entre Douro e Minho?

—O amor quando é de raiz...—balbuciou a pobre menina, purpuriada como a fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.

«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai—exclamou com violencia D. Mafalda—te tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos appellidos que tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os ossos de teus ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos da Carraça, e de Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste similhante affronta á nossa jerarchia?

D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo ficaram badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para lhe pedir que não dissesse ao pai o mal que o seu amor de raizes lhe fizera.

Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou por dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa possivel, a fim de sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado em nove seculos d'uma honradez a toda a prova na sua linhagem.

Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara como ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar d'um bacamarte para arcabusar a filha.

D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha. Pantaleão{104} preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde cheguei cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.

Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a postura afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto. Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma cadella perdigueira que tinha a cabeça na travesseira do amo.

O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:

«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um bregeiro!

—Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu genro?

«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.

—Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.

«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!

—Nas ilhargas! que quer isso dizer?!

«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu amigo é mandado para o inferno.

—Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...—repliquei eu, sentindo tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na compressão do riso.

Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a cauda da cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas apostrophes a Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe prometter ir pessoalmente fallar-lhe a Celorico, e terminou por sentar-se, outra vez, na cama aparando com uma navalha de barba a callosidade de um enorme joanete do pé esquerdo.{105}