XX.
Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde muito seria marido de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebêra, e a morosa convalescença que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo que, obrigado a uma quasi solidão de quatro mezes, reflectira maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia, e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não fosse muito—disse elle—isso não importava, porque o amor-habito viria com o tempo encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e humanitario, tão acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os haveres da noiva.{106} É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer castellos no ar como em Amarante.
N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião, onde eramos esperados por um extraordinario successo.
Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente, berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas palavras, que eu communiquei ao meu amigo.
Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada, exclamou:
«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V. s.ª portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»
D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos berros, e disse com senhoril gravidade:
—O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está aqui para remediar o mal que fez.
«De certo, minha senhora—murmurou o meu amigo.
—Pois então—acudiu Pantaleão—trate-se já do casamento.
«Já?! não é possivel!—redarguiu D. Mafalda—A menina está... pois tu não sabes como ella está?!
—E então que tem lá isso?!—replicou o fidalgo—Chama-se ahi o abbade ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.
«Eu estou prompto a obedecer-lhe—disse Bento;—mas eu muito queria que a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se por em quanto não ha receio, por que não ha-de{107} o nosso casamento espaçar-se para um dia mais alegre?
—Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...—disse D. Mafalda.
Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças seguras da queda da constituição.
D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.
Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um passeio no pinhal visinho.
«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já a sentir o amor paternal?
Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos de que posso recobrar a minha felicidade perdida.
—Pois, parabens, meu caro Bento!
«Ha nada mais poetico—proseguiu elle, cada vez mais commovido—que o espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres para mim?!
—Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da minha particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e{108} trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoço...
«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...—atalhou o meu amigo, que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha paternidade—Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se Hermenigilda não é a mulher que possa corresponder bem ás precisões da minha alma, o vacuo será preenchido com o amor de meus filhos. Se fôr menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fôr um rapaz, oh! então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!
A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai de certo perdoa ao meu amigo.
Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me nas orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que fôssemos continuar as doces réveries no nosso quarto.
Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante, chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo. Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende, um cirurgião das Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D. Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.
Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes, quando annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos enfesadinhos.
Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu do quarto: era D. Mafalda. Cousa{109} extraordinaria! A velha fidalga sahiu como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto é da gente se benzer!»
—Que diz v. exc.ª, minha senhora?—repliquei eu—É menino ou menina?
«Eu sei cá... Santo nome de Deus!—balbuciou ella.
Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D. Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me disse que o nascido era rapaz, mas...
«Mas o que, minha senhora, queira acabar...
—Mas é preto!—disse ella, escondendo o rosto nas mãos.
Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de nós ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao fundo d'alma.
Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:
—Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.
«Pois que é?!
—Já, já, é necessario sahir já d'aqui...
«Por quem és, explica-te, João.
—E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos apparelhar os cavallos.
Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e disse-lhe:
«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...
—Se elle é meu filho...—murmurou elle.{110}
«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!
—Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!
N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma filha da caseira:
«Nasceu um menino.
E a caseira respondia:
—Que seja para boa sorte.
«E a SORTE EM PRETO é a melhor...—murmurei eu, segurando o estribo do cavallo de Bento.
O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de Castro. Partimos.
EPILOGO.
O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha. Quem o esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar supposições de tamanha responsabilidade. O filho do preto levou-o a parteira de Canavezes, e não se sabe o fim que lhe deram. Pantaleão morreu.
Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres vezes deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus é servido, pasmado do muito que tenho visto.
FIM DO LIVRO PRIMEIRO.{111}