I
Congela-se-me o coração de terror quando este relance pavoroso da minha vida me lembra. Já lá vão quinze annos. Ainda agora ha noites em que a visão me sobresalta, e sempre o meu espirito se estremece com o mesmo confrangimento.
Ha quinze annos que eu pastoreava uma vigararia em Traz-os-montes.
Em um dia de dezembro de 1855 sahi da minha residencia com destino a ir consoar nos dias festivos do Natal com um abbade, meu companheiro da Universidade, o qual residia oito leguas distante. Como os caminhos eram pessimos e mal sabidos do meu creado, perdemo-nos na cerração do nevoeiro, e chegamos tarde a um córrego, cujo pontilhão a enchente havia alagado. O unico váo possivel estava legua e meia afastado.
Era ao fim do dia: seriam quatro horas e meia; mas a noite fechára-se subita, quando as nuvens se conglobaram ao poente, e uma neblina pardacenta rolou dos fragoedos das empinadas serras.
Retrocedemos assustados.
O meu creado tinha visto de passagem, por entre as brumas, alvejar uma casa grande com aspecto senhorial de torres e ameias.
Distava-nos d'alli obra de meia legua.
Ganhamos a custo a lomba da serra, onde chegamos com noite fechada. D'aqui enxergamos luzes trementes ao travez de vidraças, e ouvimos o latir de cães.
Apeei, e desci amparado no braço do creado, cujo coração palpitava de medo, não já de ladrões nem de feras; senão de fantasmas e lobis-homens, que, no crêr e dizer d'elle, eram vulgares por aquelles despenhos e selvas de castanheiros.
Consoante a minha philosophia me foi acudindo inspirativa, combati as crenças do meu pobre Manoel, cujo excellente espirito foi cedendo passo a passo á rasão omnipotente, por modo que a final incommodava-o mais a perspectiva do frio e fome que o pavor dos fantasmas e lobis-homens. Eu, n'este receio, não lhe levava vantagem em fortaleza de espirito. Figurava-se-me calamidade superior ás minhas forças o ter de pernoitar sobre um chão alagado, e sob o pavilhão de céo tão inclemente.
N'esta conjectura, ouvimos o ladrar dos cães á nossa esquerda.
Á primeira vereda que topamos, na direcção do consolativo signal de povoado, nos encaminhamos por barrocas lamacentas até entestarmos com um largo portão de quinta. Manoel aldravou com quanta força lhe déra o contentamento, e esperamos, não sem receio de que os molossos da quinta remettessem contra nós de sobre os estrepes que vedavam o alto muro.
Do parapeito do mirante surgiu um vulto a perguntar-nos o que queriamos. Respondi que era um padre, perdido no caminho de Mirandella, e pedia ao dono d'aquella casa a caridade de me agazalhar e ao meu creado por aquella noute.
Passado largo espaço, voltou o interrogador, que nos abriu o portão depois de haver acorrentado os cães, e nos metteu á cara uma alanterna de furta-fogo, deixando vêr debaixo de cada braço uma pistola de alcance.
Aquietado pela confiança que lhe incutiu a minha cara pacifica, e a tão pacifica quanto estupida do meu Manoel, o creado caminhou serenamente diante de nós.
Perguntei-lhe como se chamava o dono da casa. Disse-me o nome do fidalgo, e acrescentou que a fidalga estava a morrer ethica.
—N'esse caso—tornei eu—queira dizer ao snr. barão que eu não quero causar-lhe o menor constrangimento na situação triste em que está. Basta que S. Ex.ª nos mande recolher, que nós sahiremos cedo sem perturbar o seu socêgo.
Entrei para um salão cujas alfaias eram quatro escabellos de páo com grandes armas pintadas no alteroso espaldar.
D'ahi a pouco, fui levado a outra sala mobilada á antiga com cadeiras de coiro marchetadas de pregaria amarella, á mistura com uns tremós dourados e artezoados do reinado de D. João V, segundo me quiz parecer. Das paredes pendiam nove retratos de homens, em que predominavam clerigos mitrados, e dos dois que vestiam farda agaloada com habito de Christo um dizia o letreiro que tinha sido capitão-mór.
N'esta contemplação me interrompeu o fidalgo.
Era homem de alta e direita estatura: figurava quarenta annos; tinha barbas grisalhas e grandes; ampla testa, e olhos rasgados e negros, impressivos, penetrantes, assustadores. De mim confesso que o fitava a medo, não sei porquê.
Interrogou-me gravemente sobre o ponto d'onde vinha e para onde ia. Respondi como cumpria dilatando difusamente as respostas e circumstanciando-as para d'este modo captar a benevolencia do fidalgo que parecia escutar-me distrahido.
D'ahi a pouco disse dentro uma voz que estava a ceia na mêza.
O senhor ergueu-se, levantou um reposteiro, e obrigou-me a precedêl-o na entrada com gentil ademan de cortezão.
A meza era espaçosa de mais para quarenta talheres; mas tinha só dois.
Sentei-me na cadeira que me foi indicada, e comi com a sem-cerimonia muito conhecida dos descortezes e dos famintos.
Durante a ceia substancial, occorreu-me perguntar-lhe pelo estado de sua esposa; todavia, conteve-me a inopportunidade da occasião, e o receio de me demasiar em inquirir de senhora que eu não conhecia, não me sendo semelhante pergunta auctorisada pelo silencio do barão.
Finda a ceia, segui-o ao longo de um corredor, e entrei no quarto que me elle indicou, dizendo:
—Não se deite já que eu preciso talvez do snr. para um acto proprio da sua profissão.
E desandou.
Fiquei a scismar, e suggeriu-se-me logo o pensamento de que eu seria chamado a ouvir de confissão a senhora inferma.
Esperei duas horas, durante as quaes rezei as minhas rezas.
Voltou o taciturno fidalgo, e disse laconicamente:
—Ha aqui uma mulher doente que se quer confessar.
«Estou prompto a ouvil-a—respondi espantado da seccura d'aquellas palavras tão desamoraveis com respeito a uma esposa doente.
—Siga o creado que o está esperando no corredor—tornou elle.
Sahi ao corredor. O creado que me estava esperando era o mais mal encarado homem que ainda vi na minha vida. Afusilavam-lhe os olhos como brazas. A testa, unico espaço alumiado d'aquella cara barbaçuda, sulcavam-na não sei se cicatrizes, se ulcerações da morphea. A corpulencia era agigantada, e o carregar do sobrôlho batia no coração d'um homem como o subito coriscar dos olhos de um tigre que rebenta d'entre os carrascaes d'um deserto. Os pintores christãos nunca souberam bosquejar Lucifer, porque semelhante homem jámais deu nos olhos de artista, que desejasse fazer bem conhecida a plastica do diabo com feitio de gente.
Segui-o com calafrios, superiores á minha rasão que me aconselhava tranquillidade.
Hoje, volvidos quinze annos, conto isto com certo sorriso de facil coragem; mas, nos primeiros tempos, aquelle vulto andava terrivelmente associado ao quadro negro que vou tentar descrever.