II

O medonho guia mostrou-me a porta de um quarto, e resmuneou:

—Levante o fecho, e entre.

Á primeira vista o que pude extremar das trevas era um clarão azulado, como de lamparina baça, cuja claridade se esvaecia logo absorvida pela escura algidez da alcova.

Avisinhei-me a passos tremulos da lampada, e distingui um leito, e na almofada do leito um vulto. Fixei o que me parecia ser um rosto de creança, e pude entrever um semblante de mulher, com os olhos cravados em mim, olhos que vasquejavam os derradeiros clarões, olhos como devem de ser os dos spectros que surgem subitaneos nas trevas aos perversos que negam Deus e temem os espectros.

—Approxime-se, snr. A moribunda sou eu—disse ella com voz rouca, mas serena.

«Deus permittirá que V. Ex.ª esteja menos doente do que cuida—balbuciei com uma especie de terror secreto, presentimento d'alma que já se doía antecipadamente da magua que se lhe ia reflectir do singular e immenso supplicio d'aquella mulher.

—Falle baixo que nos escutam—voltou ella ciciando as palavras, e esbugalhando os olhos para a porta.

«Escutar-nos!—repliquei com assombro—É impossivel! Eu fui aqui enviado para ouvil-a de confissão, minha senhora...

—Bem sei; mas isso não importa... Quero que me ouça; mas muito baixinho... Vou contar-lhe a minha vida como a Deus; mas não me confesso como a um padre... É a um homem que ha de ter pena de mim, depois de me ouvir; e me ha de fazer um serviço que lhe pede uma agonisante, que crê em Deus; mas não pode crer na religião feita por homens que tem a semelhança do algoz que me mata.

Isto dizia ella de afogadilho e febril, mas com abafações e ancias augmentadas pelo medo de ser escutada.

«Mas não é em confissão que a senhora me quer revelar as culpas que lhe pezam na consciencia?!—perguntei.

—Não, snr.; eu não creio na confissão. Do mal que fiz estou perdoada; tenho soffrido todas as torturas d'este mundo; se as ha no outro, nenhuma póde assustar-me.

O meu dever seria combater a incredulidade d'esta senhora com os solidos argumentos de que dispõe a theologia contra mais poderosos adversarios; abstive-me, porém, de exacerbar o animo affligido da inferma por me parecer extemporanea a discussão e recear que o tempo escasseasse ao triumpho, nem sempre prompto, dos bons principios. Não obstante, repliquei, no intento de encaminhal-a á piedade:

«Se V. Ex.ª não quer confessar-se, diga-me que serviço posso fazer-lhe em beneficio da sua alma...

—Vá vêr se alguem nos escuta...—insistiu ella, apontando para a porta com a mão descarnada.

Fui com repugnancia, figurando-se-me que a minha posição no gremio d'esta familia sinistra ia assumindo certa gravidade e um ar de mysterio mais ou menos arriscado. Abri cautelosamente a porta, olhei ao longo do corredor, e nada vi; salvo lá ao cabo um lampeão a tremer baloiçado pelas esfusiadas de vento que assobiava no tecto. Fechei a porta, asseverando á enferma que ninguem nos escutava. Ella então sentou-se com violento impeto no leito, aconchegou do pescoço, que transpirava, a côlcha da cama, bebeu alguns tragos de agua, e balbuciou com anciosas suspensões:

—Casaram-me ha seis annos com este homem que me mata. Eu amava outro homem, que não teve coração nem honra que me salvasse de tamanho verdugo. Meu pae sacrificou-me, cuidando que me felicitava. O homem que eu amava deixou-me sacrificar, porque não tinha peito que supportasse o peso de uma mulher pobre. Vim de Lisboa, onde o dono d'esta casa era deputado. Vim; e, ao cabo de alguns mezes, meu marido arrependera-se de se ter enganado, cuidando que uma mulher simplesmente formosa, mas sem amor, poderia encher-lhe as ambições, e dar-lhe o contentamento que ella não tinha. Saciou-se, enojou-se, aborreceu-me. Não me deu rivaes, por que só quem ama se sente ultrajada pelas infidelidades. Eu não conheci rivaes: conheci apenas mulheres que n'esta casa valiam e mandavam mais do que eu.

Voltou á camara meu marido. Aqui fiquei, não obstante lhe pedir com muitas lagrimas que me deixasse ir vêr meu pae, e meus dous irmãos que tinham vindo da Africa, onde haviam estado alguns annos negociando. Meu marido demorou-se anno e meio em Lisboa. N'este longo intervalo chorei muito, e só deixei de chorar, quando... quando me vinguei. Comprehende-me?

«Quando se vingou? como se vingou V. Ex.ª?!—perguntei.

—Vinguei-me... mas foi a paixão que me deu forças... Houve um homem que teve por mim um grande amor e um grande dó. Amei-o. Luctei. Pedi a Deus que me ajudasse, que me fortalecesse. Pedi á alma de minha honrada mãe que me amparasse... pedi a meu marido que me deixasse ir para si ou para a companhia de meu pae... Nem Deus, nem minha mãe, nem meu marido me valeram... Succumbi... A minha culpa foi cega. Confiei-me d'uma creada que tinha chorado comigo. Fui atraiçoada. Meu marido teve denuncia da minha queda, e appareceu aqui inesperadamente. Nada me disse. Tratou-me com a mesma frieza, com o mesmo despreso. Não estranhei. O homem, que eu amava, era ainda parente d'elle e estudava em Coimbra. Tinha coração cheio de ancias e desejos da morte. Comprehendeu este infeliz que meu marido desconfiava. Quiz fugir comigo para Hespanha, e eu resisti, mais por amor d'elle que do meu credito. O meu cumplice não podia com o encargo, e iria viver ou morrer miseravelmente em paiz estranho.

Passados dias, deixei de ter noticias d'elle. Imaginei-o já em Coimbra, posto que não fosse tempo de aulas. Correram trez mezes. Nova nenhuma. A criada que me fallava d'elle, recebido o premio da traição, tinha fingido que sua familia a chamava. Só então ouvi dizer a outra criada que o parente de meu marido desapparecêra sem dizer a ninguem o seu destino; e que a familia d'elle vivia consternada com tal successo, enviando a toda a parte indagações inuteis.

Seis mezes depois que meu marido voltára de Lisboa, soube eu que se estava preparando este quarto por sua ordem. Vim vêr as obras, e perguntei-lhe para que era o armario estreito que se estava fazendo n'esta parede e para que eram as grades na janella. Meu marido respondeu: «Sabel-o-ha brevemente.»

Concluidas as obras, vi que a minha cama era para aqui mudada, com tudo que me pertencia.

Uma noite, meu marido conduziu-me a este quarto. Fechou-se por dentro e disse-me: «A senhora entra aqui d'onde nunca mais sahirá; e para não estar sósinha, aqui lhe deixo uma adoravel companhia com quem póde conversar á sua vontade.» E, dizendo isto, abriu aquelle armario, e apontou para um esqueleto, dizendo: «Aqui tem o seu amante. Abrace-se n'elle até ficar reduzida ao estado em que lh'o offereço para que o possa gosar com toda a liberdade.»

Eu cahi por terra sem sentidos—proseguiu ella, limpando as lagrimas, e aspirando com força—Quando voltei á vida, cuidei que sahia d'um sonho. Ouvi dar meia noute. Era tudo escuridão n'este quarto. Apalpei á volta de mim. Não conheci onde estava. Continuei apalpando. Pousei as mãos n'uma coisa fria e aspera que estremeceu. Recuei horrorisada... Eram ossos... eram as costellas do esqueleto. Então acordei... então me fugiu outra vez a rasão com um grito do peito dilacerado. Cahi outra vez para diante com a face de encontro aos ossos frios, horrivelmente frios...—

E ella estralejava com os dentes convulsos, e apertava a roupa no pescoço. Apoz longo espaço, proseguiu:

—Ao romper do dia, abri uma janella com o proposito de me suicidar. Dei com a face nas grades. Lancei-me á porta que estava fechada por fóra, e gritei por soccorro. Abriu-se. Vi um creado com um aspecto ameaçador, impondo-me silencio. Este creado era um criminoso que meu marido acolhêra para o salvar da justiça que o perseguia. Era esse mesmo que o trouxe aqui ha pouco. É o unico ente vivo que eu vejo ha dois annos duas vezes por dia, quando me traz alimentos. Foi elle quem matou e espedaçou aquelle infeliz...

E, dizendo, apontava para o armario do esqueleto. Continuou:

—Eu quiz suicidar-me pela fome. Não pude. Quando as agonias da morte começavam, eu lançava-me vertiginosamente sobre a comida, e devorava-a sem a consciencia do que fazia. D'outra vez consegui com um garfo romper uma veia; mas o sangue estancou; senti ancias mortaes; envelheci; desfigurei-me, segundo o que sinto, se palpo o meu rosto; que eu ha dois annos me não vi n'um espelho... Não consegui morrer. Voltei-me para Deus com rogos, com desesperadas supplicas. Orei muito, chorei muito, e obtive um grande beneficio. Cahi n'um desalento, n'uma somnolencia de moribunda que durou não sei se dias se annos. Depois, quiz levantar-me d'este leito, e já não pude. Comecei a pedir a Deus a morte, e a sentil-a avisinhar-se pela mão da divina caridade. Ha de haver trez horas que entrou aqui o confidente do meu carrasco perguntando-me se me queria confessar. Fiquei espantada da religião d'estes algozes, e respondi que sim; mas o que eu queria, snr. padre—ajuntou ella estendendo para mim impetuosamente os braços—era pedir-lhe que depois da minha morte, faça saber a meus irmãos este miseravel fim que eu tive, para que elles me vinguem...

Acabava a infeliz de proferir estas palavras em voz mais desafogada, quando a porta que eu havia fechado por dentro se abriu impellida por um valente encontro.