III

Era o marido.

Faiscavam-lhe ascuas de rancor os olhos injectados. Crispavam-se-lhe os beiços retrahidos. A colera engasgava-o a ponto de tartamudear estas vozes ejaculadas a trancos:

—Seus irmãos que venham cá e eu lhes contarei a vida da sua honrada irmã!

E ella cobriu os olhos com as mãos, e resvalou para dentro da roupa, como se desejasse cahir na sepultura.

Eu caminhei placidamente para aquelle homem terrivel, abeirei-me d'elle que me fitava com sobranceria, ajoelhei e disse-lhe com a voz tremente de lagrimas:

—Perdôe-lhe. Deixe-a morrer em paz. Deixe-a experimentar os beneficios da sua compaixão para implorar confiadamente os da misericordia divina.

Encarou-me d'um modo indefinivel. Sahiu do quarto, e, já fóra, murmurou seccamente:

«O snr. padre recolha-se ao seu quarto.

Relancei um derradeiro olhar para o leito: não a vi; mas ouvia o soluçar alto e cavernoso do peito que se esphacellava.

Mal entrei ao quarto onde havia de pernoitar, rebentaram-me as lagrimas copiosas. Levantei a Deus o espirito repassado de terror e compaixão, pedindo-lhe que despenasse a penitente, ou radiasse luz de commiseração em tão carniceiras entranhas.

N'este lance entrou elle, assentou a mão direita sobre o meu hombro, e disse:

«Aquella mulher vociferou uma infamia digna da sua deshonra, se quiz desculpar o seu crime com as infidelidades de que me accusa. A mulher que se vinga do marido, prostituindo-se, cavou a sepultura, e espera que a sociedade ou o marido a sepultem. Eu não a matei. Encarreguei o esqueleto do homem, que a deshonrou, da missão de a ir matando lentamente. Olhe que eu amei aquella mulher. Não a seduzi, não a illudi, não a fascinei, nem a disputei a outro. Pedi-a a seu pae. Elle consultou-a, ou fingiu que a consultava, como quer que fosse, esta mulher veio risonha para os meus braços; chamou-se com orgulho a baroneza de ***; mentiu-me cem vezes accusando-me de ingrato ao seu coração que me estremecia. Afinal, esta mulher crê ainda imperfeita a sua vingança, e na hora extrema invoca os irmãos para que a vinguem. De quê? de que hão de vingal-a os irmãos? De eu lhe haver matado o amante? Que me responde a sua christã philosophia?

—Que o terror que V. Ex.ª me incute não me deixa atinar com palavras que o commovam...—Balbuciei.

«Mas responda, snr.!

—Respondo ajoelhando novamente a supplicar-lhe o perdão da culpada.

«Não posso!—bradou elle—Ha dois annos que não sahi de dia d'esta casa, receando que todos saibam da minha deshonra. Não posso perdoar-lhe sem que a providencia me desopprima do vexame do meu opprobio!

—Seria generosidade havel-a matado...—interrompi.

«Bem sei—redarguiu elle—bem sei. Ella soffria cinco minutos de castigo, e eu ficava soffrendo uma vida inteira de vergonha. Eram supplicios incomparaveis! Alem de que, se eu a houvesse esmagado debaixo do pêso da minha affrontosa desgraça, o mundo sanctifical-a-ia, lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da cara para que se attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas mãos de assassino... Comprehende isto, padre? Conhece bem a sociedade em que toda a infamia é uma convenção, e toda a honra de marido que se desaffronta ha de luctar depois com a deshonra irritada dos maridos esporeados pelo zelo devassissimo das esposas? Conhece o mundo como Christo o encontrou ha 1855 annos? Sabe o que veio fazer Jesus Christo á terra?

—Morrer pela redempção dos que o mataram, snr.

«Não o percebo!—exclamou elle com um formidavel brado, e sahiu do quarto...

Eu não pude adormecer. Parecia-me ouvir um gemido longo confundido com o sibillo do nordeste no entravamento da casa. Rezei muito por ella.

Ao alvorejar da manhã, vi um creado que perpassava no corredor. Perguntei-lhe a que horas se erguia o fidalgo. Respondeu-me que se havia deitado um quarto de hora antes. Pedi-lhe que mandasse o meu criado sahir do seu quarto, e fizesse ao dono da casa os meus comprimentos com os mais ardentes protestos de eterna gratidão.

Despedi-me assombrado d'aquella casa, onde se respirava um acre nauseativo de cadaveres. Ardia-me o peito e a cabeça por tal sorte que eu não sentia a chuva glacial d'aquella manhã de 24 de dezembro de 1855.

Fecho a minha historia com a pedra que cobriu o cadaver da baroneza de ***. No dia 27 de dezembro me disseram uns pastores convisinhos que a fidalga morrêra á hora em que as familias honradas e felizes se ajunctavam para receberem as bençãos dos seus anciãos, e commemorarem com sanctos jubilos o nascimento do divino Redemptor.

Agora dir-lhe-hei qual era o paradoxo, que tal se me figurou ha quinze annos. Aquelle cruelissimo homem tinha-me dito: Se eu a houvesse esmagado debaixo do pezo da minha affrontosa desgraça, o mundo sanctifical-a-ia lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da cara, para que se attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas mãos de assassino.

Ora eu entendi a profunda verdade d'esta clausula depois que Vieira de Castro, ao cahir agonisante sobre a terra onde tem de vasquejar largos annos, matou a esposa, porque a cingia apaixonadamente nos braços da sua alma. Morreu-lhe o coração. Ella não teria morrido, se o infeliz a podesse arrancar de lá antes de cahir.

Concluida a narrativa, o sacerdote deteve-se olhando contra o mar que mugia funebremente nos fragoedos socavados. Depois, levantando para o céo os olhos humidos e as mãos trementes, disse:

«Meu Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada! Mas... voltareis, ó Christo?

E proseguiu, corridos instantes:

—Que haverá já agora n'esta vida que possa levantar a alma do seu amigo?

«O esteio da dignidade.

Conheci-o quando os horisontes da vida se lhe prefiguravam e realisavam em risonhas prosperidades. O destino, como forçado pelo talento, ajoelhava-lhe. Não o admirei então, senão por que felicidade e genio pareciam dar-se as mãos e concertar-se no plano de o exalçaram onde raro em Portugal subiram grande espirito e grande coração.

Hoje cerram-se contra elle injurias e trevas.

A luz do seu honrado infortunio é um reverberar sinistro d'uma estrella funesta, cuja claridade lhe banhará a sepultura por esse viver das gerações além. A posteridade de seus irmãos irá ahi retemperar sentimentos de pundonor; e os descendentes de meus filhos cuidarão que me vêem absorto entre elles defronte das cinzas de Vieira de Castro.

Vae-se-lhe a vida diluida em lagrimas de sangue. Vae. Mas a pagina que deixa dirá que a onda da corrupção quando chegou até elle, desfez-se-lhe aos pés. Se a onda lhe revolveu e abriu a terra da sepultura, aqui ou em Africa, não importa.

Prouvera a Deus que elle não chorasse a felicidade que lhe mataram! Sobre quem mandará Deus que caiam as lagrimas que Vieira de Castro ha de chorar por sua mãe e irmãos? No dia em que elle sahir para Africa, as almas compassivas irão ás egrejas pedir ao Altissimo que alumie o seio do degradado com um raio de misericordioso alento...

Deixal-o ir.

Deixal-o esconder-se dos olhos d'esta aviltante piedade que deixou de o apedrejar quando o viu perdido.

Loura creança que eu vi, ha vinte annos, alumiada pelas ultimas alegrias da fugitiva infancia, prouvera a Deus que o sepulcro de teu pae se te abrisse então.

Os embriões das tuas alegrias da juventude esmagou-os a pedra que desceu sobre o seio onde se perderam os thesouros que haviam de completar a felicidade da tua alma.

O teu coração, aos desoito annos, abafava em si as amarguras da soledade, retrahia-se em devorantes desejos do amor de familia, a paixão santa, unica e profunda que eu te conheci.

Quem imaginou que tu choraste amarissimas lagrimas n'aquella tua casa triste que demora solitaria entre duas serras?

No mais verde dos annos, abalisaste os teus anhelos juvenís entre umas arvores que teus avós plantaram; e alli, sósinho, esperaste que a Providencia te deixasse reflorir uma primavera na alma.

O teu formidavel espirito reagiu contra a mais crua sorte que ainda fadou uns vinte annos relegados d'esse gosar commum que permitte a cada homem sentir o alvorejar dos affectos e as musicas do céo que embalam a alma para sonhar venturas.

Tu não as sonhaste quando o coração desbordava de seiva para renascer de suas mesmas cinzas, se a perfidia o cancerou com a sua peçonha.

Um dia, já tarde, amaste pela primeira vez, quando te deu de rosto e te cegou a luz funesta que desce do céo com os anjos despenhados.

Quando baixaste a face até ao chão onde ajoelhavas em adoração de creança que beija os labios de sua mãe, em adoração de pae que aconchega no seio as mãos de sua filha, sentiste que a deshonra te cravava as garras, e te desentranhava do peito a alma, e t'a expunha em pelourinho infame aos insultos dos que passavam.

Tu não podias ajustar ás faces a mascara que te offereciam as mãos infames da tolerancia.

Ao teu rosto não podiam sahir as lagrimas faceis das almas vulgares por que era sangue, era a vida toda que te haviam arrancado.

E tu premeditaste!.. Oh! não premeditaste nada, infeliz!

Quem contará as horas, os periodos de infernal duração que passaram na tua vida?

Curvaste-te sobre o teu abysmo; e ali quedaste empedrado até que resvalaste nas fauces da voragem.

No teu baque levaste comtigo um cadaver que te abrira o golphão com as mãos ainda quentes dos teus beijos.

Não premeditaste nada, infeliz.

Cada minuto que ia passando estalava-te uma fibra da alma, queimava-te uma particula do cerebro, escaldava-te em veneno dilacerante cada lagrima que te refluia dos olhos.

Não era somente a honra perdida que te excruciava; era a mulher idolatrada que ainda vivia e já te pezava morta no coração.

Ao passo que a mão de ferro da desgraça te batia no seio, tu ias acordando ao estrondo horrivel. Cada instante era o precursor de novas trevas que se iam condensando, era o bago da areia que ia cahindo, era uma esperança derruindo depoz outra, era o ir-se toda a alma espedaçada até esvasiar-se o peito de lagrimas, e encher-se de rancor inexoravel, espicassado pela deshonra e ingratidão.

Oh! tu não premeditaste nada, infeliz!

Os que delinquiram premeditando, não dizem á justiça humana: «Aqui estou! condemna-me!»

FIM.