II

NOITE FECHADA

Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão morbido me sinto, ao accender das luzes;
Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abysma.

A espaços, illuminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas egrejas, n'um saudoso largo,
Lançam a nodoa negra e funebre do clero:
N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas;
Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
E os sinos d'um tanger monastico e devoto.

Mas, n'um recinto publico e vulgar,
Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!

E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
N'esta accumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
Inflamma-se um palacio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavallaria
Dos arcos dos quarteis que foram já conventos;
Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.

III

AO GAZ

E saio. A noite peza, esmaga. Nos
Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras
Um sopro que arripia os hombros quasi nús.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
Em uma cathedral de um comprimento immenso.

As burguezinhas do Catholocismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

N'um cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exhala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exarcebe,
Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistraes, salubres e sinceros,
A esguia diffusão dos vossos reverberos,
E a vossa pallidez romantica e lunar!

Que grande cobra, a lubrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquella velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.

«Dó da miseria!… Compaixão de mim!…»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de latim!

IV

HORAS MORTAS

O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:
Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longiqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castissimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
N'umas habitações translucidas e frageis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquaticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem arvores, no valle escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.

E n'estes nebulosos corredores
Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
Amarelladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, n'esta massa irregular
De predios sepulchraes, com dimensões de montes,
A Dôr humana busca os amplos horisontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

DE TARDE

N'aquelle «pic-nic» de burguezas,
Houve uma cousa simplesmente bella,
E que, sem ter historia nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarella.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

EM PETIZ