IV

Sem vontade propria; sem que se pense, se compare e se escolha; sem iniciativa de dentro e sensibilidade por fóra, não póde haver elementos de boa politica n'uma nação que se rege pelo systema representativo.

Porque não ha boa politica sem bons partidos, e não ha partidos regulares sem espirito publico no povo.

Quando falta o espirito publico não ha partidos; ha parcialidades e grupos.

A raiz etymologica é a mesma, mas a accepção philosophica cava um abysmo entre estas palavras.

As ultimas são o troco, em cobre azebrado, de uma peça de ouro formosa e luzente.

Valor convencional em frente de valor intrinseco.

Partido regular é o que tem logica nas idéas; constancia na defensão d'ellas; unidade e disciplina.

Quantos conta Portugal n'estas circumstancias?

A logica:

Estão seis homens em conversa politica. Andam ha dois ou tres annos (dois ou tres seculos!) em camaradagem seguida. Frequentam as mesmas reuniões e tem por guia identico chefe. Muito bem. Trata-se de uma escaramuça de bando? Unanimidade completa? Discute-se um interesse de grupo? Completa unanimidade. Mas appareça uma questão economica ou social: a liberdade de commercio; a descentralisação administrativa; qualquer outra que deva ser crença de escola, e a concordia desapparece, sendo talvez necessario que uma parte dos correligionarios busque reforço na sala visinha, aonde um conventiculo de adversarios se dilacera tambem, á mesma hora, ácerca do mesmissimo ponto.

Grita-se, discute-se, invectiva-se. O amigo é inimigo. O inimigo, defensor ardente. Confundem-se os campos e só algum incidente que traga a terreiro uma questão grave, uma questão pessoal, por exemplo, terá o condão de restituir cada um aos amigos com quem batalhara.

A constancia:

Combate a opposição em pró de uma doutrina. Nos seus jornaes, nos seus comicios, na tribuna e no livro bate em brecha com a propaganda escripta ou fallada os erros de seus contrarios. Um golpe de fortuna; a fraqueza do ministerio; certa manobra parlamentar, deposita-lhe as pastas nas mãos. Pois desde esse momento caduca o enthusiasmo pela reforma pedida e os erros tomam taes laivos de inoffensivas bagatellas, que talvez possam passar, em momentos criticos, por necessidades a que não se póde fugir.

A unidade:

As fusões;

As colligações;

As conciliações.

A disciplina:

O despeito;

A inveja;

A sizania.

Um homem que falla e se move faz mais ruido do que cem, mudos e quedos. As individualidades inquietas e ambiciosas das parcialidades politicas, dão-lhes muitas vezes a feição com que a condescendencia dos companheiros as deixa mascarar, e que, por ser a mais visivel, se torna a mais caracterisada.

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Da falta de partidos logicamente organisados e fortemente constituidos, não em vista de uma necessidade de momento ou de um ponto especial de administração, mas de um systema fixo, tem nascido as approximações, esboçadas ou realisadas nos ultimos tempos.

A maior ou menor fraqueza dos grupos tem promovido esses actos, que andam em moda permanente de ha cinco annos para cá, mas que deviam ser anormaes n'um paiz, que soubesse comprehender bem as instituições que nos regem:

Fusões, em que cada um dos fusionados conta pelos dedos quantos governos civis ou quantas candidaturas lhe couberam em partilha, e que fundem tão bem, que cada um se separa dos outros no momento opportuno, sem que as forças da cohesão ponham estorvo a esse trabalho;

Conciliações que nada podem conciliar e que desmoralisam todos e tudo.

Necessita a nação de todos os esforços de seus filhos para arrostar com immensas difficuldades? Haja patriotismo e saiba-se usar d'elle. Auxilie-se o poder constituido n'essa immensa tarefa.

Diz-se popular o governo? Carregue com as consequencias d'essa popularidade. Tome a responsabilidade da iniciativa nas medidas de salvação publica.

Pedem as circumstancias que as opposições ensarilhem as armas? Faça-se isso lealmente, mas não se confundam nos bancos ministeriaes, inutilisando-se mutuamente para os effeitos da rotação no poder, os que fóra d'elles podem dar ao paiz melhor documento de sua isenção partidaria.

Conciliação sincera e permanente de todos seria a extincção completa dos partidos, proposição que antes de ser uma quimera seria um absurdo constitucional.

Conciliação, apenas de alguns e temporaria, não seria conciliação; seria unicamente um novo elemento de confusão no que anda já tão confundido.

Que temos nós visto e com que resultado?

Maiorias de colligação em frente sempre de opposições colligadas.

Colligações que só tem uma certa desculpa na tenuidade das linhas divisorias que separam, por emquanto, uns dos outros os partidos de maior valor no paiz.

Como não ha systemas completos de governo, falla este em ordem publica e respeito á constituição; aquelle em fomento; esse outro em economias. Todos, na organisação das finanças. Mas desde quando a ordem publica, o respeito á constituição, o fomento, a economia e a organisação das finanças, pontos que devem ser communs a todos os partidos serios, podem constituir o programma especial de cada um d'elles? Não prova que anda ausente o dogma, ou que é de fé para todos, quando se falla só nas exterioridades do culto? Que ha em alguns d'aquelles rotulos mais artificio do que verdade? Que são maiores, de grupo para grupo, as incompatibilidades de pessoas que de cousas?

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Em Portugal a organisação de um partido é a cousa mais facil do mundo.

Ha tres, cinco, dez homens (não urge que sejam mais) que, desejosos de terem uma influencia que não podem alcançar, por andarem confundidos com outros que os affogam no numero, buscam o modo de adquirir essa importancia que lhes anda roubada, quer pela ingratidão da patria, quer pela sombra dos proprios amigos. Problema posto, problema resolvido. Inspira-se um jornal. Inventa-se um nome. Chrisma-se um chefe. Falla-se no paiz, e, depois de estar prompto o scenario, põe-se o titulo á comedia, cujos auctores se esfalfam em dar ao publico, por belleza excelsa e privativa d'elles, o que nunca devera passar de logar commum n'este ramo de litteratura dramatica.

Outros nem se cansam com estas poeiras. Mettem no laminador o simples nome de um homem; estendem-no até que chegue á desinencia adoptada pelo uso, e está feito o partido!

O partido!

Pobre vocabulo, que já tens sido a estrella polar de intelligencias em busca da perfeição social, quem te diria que viria tempo em que por ahi te reduzissem a alampada de viella obscura, ardendo de dia e de noite, e mais de noite do que de dia, diante de algum santo, advogado contra as cambras em quem deseja trepar ás alturas do poder!

Como se póde chamar partido a qualquer associação de homens, que não ache até dentro de si quem possa tomar o peso ás pastas n'um momento de crise?

Como se póde dar esse nome a qualquer confraria, que em tempo de procissão não possa com o andor, ou dê com a imagem em terra logo á beira do altar?

Como merece tal importancia o grupo que não se atreva a galgar sem dianteiras a mais leve encosta da governação publica?

E em taes casos a fraqueza é má conselheira.

Para que augmente o numero dos adeptos não se olha a condições.

Todas as vadiagens; todas as deserções; todas as insignificancias; todas as immoralidades; todas as traições; todos os cynismos; todos os despropositos são bem vindos, quando encarnados em quem dê mais um elogio na imprensa ou mais um voto nas côrtes.

Ha eleições. Combate-se com decencia, honra e lealdade, contra alguns especuladores que farejam donde correm os ventos. Succube-se. No dia seguinte, com a estatistica na mão, cortejam os socios da vespera a existencia do facto brutal, e os adversarios, aínda que vencessem pelo suborno e pela infamia, recebem um sorriso amavel, prologo e provocação de allianças, ao passo que um gesto desdenhoso acolhe os amigos que perpetraram o crime de não querer triumphar por identicos meios.

Ó moralidade!

Para obviar á fraqueza, recorre-se ainda á forte alimentação das secretarias de estado. Atulham-se as pastas de recommendações. Cada dignitario da ordem tem mesa posta na cella. O thesouro é copa e cosinha. O despacho é mesa e talher.

Por fraqueza propria se larga o poder e por fraqueza dos outros se torna a alcançar, para depois o tornar a perder.

Á fraqueza dos partidos; á falta de escólas politicas definidas, logicas e racionaes; á carencia de esta móla indispensavel ao jogo regular das instituições representativas, deve esta nação um originalissimo espectaculo.

O sr. marquez de Avila e de Bolama, que diz que não tem partido, foi ultimamente ministro em 1865, 1868 e 1870.

Que o fosse por ser, como é, zeloso e honrado administrador, não poderia causar isso estranheza; mas tel-o sido, n'um paiz constitucional, talvez especialmente pela condição de não ser no governo a representação ministerial de um partido qualquer, é porventura a maior singularidade do liberalismo contemporaneo.

Contae isto ao mais obscuro membro do parlamento inglez, e podeis estar certos de que o vosso interlocutor se encurvará, dos pés até á cabeça, na mais espantada interrogação que jámais tenha desaprumado a proverbial rigidez britannica.

D'esse paradoxo tem resultado que as camaras eleitas sob a immediata influencia d'esse distincto homem de estado não lhe tenham produzido maiorias que o habilitem a governar, ficando depois sujeitas a deserções vergonhosas ou a uma dissolução infallivel. Não se contraría impunemente a indole do systema representativo.