CAPITULO LIV

Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas Roupinho Alcaide do Castello.

Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja, de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos, até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro, que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente, e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.

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«Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos, que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»

E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços, e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio, era de mil cento e oitenta annos (1180).