CAPITULO LIX
De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente escritas.
Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D. Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D. Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu tempo.
Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação, sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.
E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas, que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer, Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui fortes, e grandes.