CAPITULO LX
Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em que se finou, e onde foi sepultado.
Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi para serviço de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que se tal não fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja louvado, agora é, porque como diz Aristoteles, o principio é mais, que o meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João Galvão, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra, Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja, que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer deve ser havido.
Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos modos, porém tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão; e por morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des então foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei quorenta e seis annos, e sendo alçado Rei em idade de quorenta e cinco annos, que são assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christãos, tolhendo N. Senhor a este virtuoso Rei, que não visse tão grande pezar, quem lhe tanto mereceo empunhar pela sua Santa Fé.
Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas mãos dos Anjos, á gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de fóra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro Alexandre jaz aqui, ou Julio outro.