CAPITULO VI

Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a sua mãi com elle.

Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher, e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou». Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate, ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso filho, se mais poder que nós».

Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior poder temos que elle».

A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi». Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja».

Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra, e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi.