CAPITULO VII

Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de
Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
Rei Mouro cercar Coimbra
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Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia, aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella, e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D. Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que os tinham.

Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar, e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).