VII

—Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza?
—E tu, é esse o modo com que me recebes?
Olharam-se um momento, detestando-se.
—Bem, queres uma questão? És como as outras.
—Que outras?
E toda escandalisada:
—Ah! é de mais! Adeus!
Ia sahir.
—Vaes-te, Luiza?
—Vou. É melhor acabarmos por uma vez...
Elle segurou o fecho da porta rapidamente.
—Fallas serio, Luiza?
—De certo. Estou farta!
—Bem. Adeus.
Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.
Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula:
—Então, é para sempre? Nunca mais?
Luiza parou, branca. Aquella triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma commoção. Rompeu a chorar.
As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão fragil, tão desamparada!...
Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos.
—Se tu me deixares, morro!
Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.
Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava:
—Não me deixas nunca, não?
—Juro-t'o! Nunca, meu amor!
Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo acudiu-lhes—porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou:
—Se podesses aqui passar a noite!
Ella disse aterrada, quasi supplicante:
—Oh! não me tentes, não me tentes...
Bazilio suspirou, disse:
—Não, é uma tolice. Vai.
Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um sorriso:
—Sabes tu uma cousa?
—O que, meu amor?
—Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir!
Elle ficou desolado:
—Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...
—Que horas são, filho?
Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:
—Sete!
—Ai, Santo Deus!
Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente:
—Que tarde! Jesus! Que tarde!
—E ámanhã, quando?
—Á uma.
—Com certeza?
—Com certeza.
Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:
—Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo!
Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.
—Que é aquillo?
Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o cesto, com uma cortezia grave:
—Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome!
Era um lunch. Havia sandwichs, um pâté de foie gras, fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo.
—É brilhante!—disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer.
—Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!
Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos:
—E tu pensaste em mim, meu amor?
Os olhos d'ella responderam—e a pressão apaixonada dos seus braços.
Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a Luiza muito estroina, adoravel—e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champagne. Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos.
Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor permanente, e lunchs ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,—e elle quiz-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champagne. Talvez ella não soubesse!
—Como é?—perguntou Luiza erguendo o copo.
—Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe champagne por um copo. O copo é bom para o Collares...
Tomou um gole de champagne, e n'um beijo passou-o para a bocca d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.
Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma pomba fatigada.
Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter tanto chic, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!—E quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, murmurou reprehensivamente:
—Oh Bazilio!
Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova: tinha-a na mão!
Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar que havia de pensar n'ella toda a noite:—não queria que elle sahisse; tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:
—E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia.
—Não vaes vêr a D. Felicidade?
—Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a ti! só a ti!
—Ao meio dia?
—Ao meio dia!
Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,—estava tepida e serena. Chamou Juliana:
—Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.a D. Leopoldina.
Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:
—A senhora foi p'ra o Porto!
—P'ra o Porto!
Sim. Demorava-se quinze dias.
Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto solitario aterrava-a.
—Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita!
—Rica, minha senhora!
Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram logo para o Hotel Central.
Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes.
Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão intencionalmente que Luiza teve medo.—Era melhor voltarem—disse.
Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella.
Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao pescoço:
—Aonde mora, ó menina?
Agarrou aterrada o braço de Juliana.
A voz repetiu:
—Não se agaste, menina, aonde mora?
—Seu malcriado!—rugiu Juliana.
O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores.
Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se cahir na causeuse, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o lunch, o champagne bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se.
Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao Paraiso. O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e dôce.
E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, a cabeça alta.
Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:
—Que encontro verdadeiramente feliz!...
—Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem!
—E v. exc.a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto!
Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao lado d'ella.
—Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão?
—De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar...
—Estive em Cintra, minha querida senhora.—E parando:—Não sabia? O Diario de Noticias especificou-o!
—Mas depois de vir de Cintra?
Elle acudiu:
—Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o meu livro...—E depois d'uma pausa:—Cujo nome não ignora, creio.
Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era a Descripção pitoresca das principaes cidades de portugal e seus mais famosos estabelecimentos.
—É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. exc.a quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer.
Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco.
—Está hoje muito agradavel!—disse ella.
—Agradabilissimo! Um dia creador!
—Que bom fresco aqui!
Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto.
O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!—E com bonhomia, querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:—Mas é que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador.
Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio inglez.—Muito preferiveis aos suissos!—acrescentou com ar profundo.
Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto—pensava—tinha tempo, tomaria um trem...
Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
—Grande panorama!—disse o Conselheiro com emphase.—E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
—Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!—exclamou.
Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós, minha senhora!—E acrescentou com uma voz respeitosa:—E Deus!
—Que bonito está o rio!—disse Luiza.
Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo:
—O Tejo!
Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as moitas de dhalias, passaros pousavam.
Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão altas...
—Por causa dos suicidios!—acudiu logo o Conselheiro.—E todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel como a imprensa os condemnava...
—Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!
—Se fossemos andando...?—lembrou Luiza.
O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe vivamente o braço:
—Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!—E acrescentou:—O exemplo deve vir de cima.
Foram subindo, e Luiza pensava:—Vai para casa, larga-me ao Loreto.
Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora depois do meio dia! Já Bazilio esperava!
Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.
—Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!
—Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.a m'o permitte. De certo não sou indiscreto?
—Ora essa! De modo nenhum.
Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote.
O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo.
—É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de dentro.—Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!—E ia de certo fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á porta da igreja, e sorrindo:
—Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, appareça.—Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.
—Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho pressa.—E com respeito:—Muito louvavel esse zelo!
Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro, calculando:—Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.
Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na cupula, e olhando Luiza de lado:
—Vai indo p'ra as duas.
Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no Paraiso nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas d'espadas, os Christos chagados,—cheia de impaciencias voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.—Viu-o logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos jurados.
Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a immoralidade que grassava...
—E além d'isso é de boa educação. V. exc.a ha-de reparar que toda a nobreza cumpre...
Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:
—Está um dia apreciavel!
E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou.
—Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.
A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar.
Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois d'hesitar pediu gravatas de foulard a um caixeiro louro e jovial.
—Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas?
—Sim, verei, sortidas.
Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa...
Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou exemplos.
Mas vendo-a calada:
—Ainda soffre?
—Não, estou bem.
—Temos dado um delicioso passeio!
Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa, uma occasião, um acontecimento—e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não enthusiasmasse com as bellezas d'um Frei Luiz de Sousa! mas a sua saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo...
Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente:
—Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.
O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão, com a voz rapida:
—Adeus, appareça, hein?—E precipitou-se para o portal do Vitry.
Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias.
Chamou um trem.
—A quanto puder!—exclamou.
A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do Paraiso. Figuras pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava fechada—e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa segredou:
—Já sahiu. Ha-de haver meia hora.
Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os stores para se esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu nos vidros [desesperadamente], gritou:
—Ao Hotel Central!
Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de sensualidade!
A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim».
—Bem, para casa, para onde eu disse!
O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe viesse á cabeça!...
Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!—disse, subindo furiosa—Eu lhe mandarei pagar!
—Que bicha!—pensou o cocheiro.
Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão excitada.
Luiza foi direita ao quarto: o cuco cantava tres horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na cabeça, varria tranquillamente, cantarolando.
—Então vossê ainda não arrumou o quarto!—gritou Luiza.
Juliana estremeceu áquella colera inesperada.
—Estava agora, minha senhora!
—Que estava agora vejo eu!—rompeu Luiza.
—São tres horas da tarde e ainda o quarto n'este estado!
Tinha atirado o chapéo, a sombrinha.
—Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...—disse Juliana.
E seus beiços faziam-se brancos.
—Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, fazem-se-lhe as contas!
Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados:
—Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar!
E arremessou violentamente a vassoura.
—Sáia!—berrou Luiza—Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa!
Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a voz rouca:
—Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer!
—Joanna!—bradou Luiza.
Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:
—A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a cabeça!—E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:—Olhe que nem todos os papeis foram p'ra o lixo!
Luiza recuou, gritou:
—Que diz vossê?
—Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui!—E bateu na algibeira, ferozmente.
Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão, junto á causeuse, desmaiada.