VIII
Bazilio sahiu do Paraiso muito agitado. As pretensões de Luiza, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao Paraiso, calar-se, e deixar correr o marfim! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no hotel, disse ao seu criado:
—Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto.
Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o seu buvard com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, caixas de charutos, os seus livros—Mademoiselle Giraud ma femme, La vierge de Mabille, Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme de chambre, Le chien d'arrêt, Manuel du chasseur, numeros do Figaro, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo.
E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a «situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor e o bœuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se concluido,—e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine!
Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se!
A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um empecilho», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha passar o pé!
A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou—afogueado, de lunetas azues, furioso.
Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia—que o fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial—ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse repugnancia, eram as ternuras de familia!
—E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar!
—Sabes o que me succede?—disse Bazilio, erguendo-se.
—O quê?
—Imagina. O caso mais estupido.
—O marido apanhou-te?
—Não, a criada!
—Shocking!—exclamou Reynaldo com nôjo.
Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle:
—E agora?
—Agora é safar-te!
E levantou-se.
—Onde vaes tu?
—Vou ao banho.
Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle...
—Não posso!—exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.—Vem tu cá abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua!
Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez.
Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu conforto:
—Então cartinha apanhada nos papeis sujos!
—Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu faça?
—As malas, menino!
E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:
—Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada!
—Oh!—fez Bazilio, impaciente.
—Oh quê?—E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao rebordo de marmore da tina:—Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se quer safar—isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!
—Meu rico, é uma mulher deliciosa!
O outro encolheu os hombros, descrente.
Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou episodios lascivos.
O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar.
—Bem! estás pelo beiço—resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se.
Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição grotesca.
—Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade!
—Eu—disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo—se me podesse desembaraçar decentemente...
—Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna!
E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça, pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica.
—Mas tambem—disse Bazilio—deixal-a agora n'aquella atrapalhação com a criada! No fim é minha prima...
Reynaldo agitou os braços, com hilaridade.
—Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de notas na mão.
—É brutal...
—É caro!
Bazilio disse então:
—Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada...
Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo:
—Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra!
Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse esquecido de frapper o champagne!
Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com effeito a ralhar, a descompôr-se? Que pulhice que era tudo aquillo! Positivamente devia partir.
—Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa?
—Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor!
—Vou fazel-o—disse Bazilio erguendo-se, muito decidido.
—E partimos ámanhã?—gritou Reynaldo.
—Ámanhã.
—Por Madrid?
—Por Madrid.
—Salero!—Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções, pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com ferradurinhas bordadas.
Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa—desde o desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:
—Está alli o primo da senhora.
Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de robe de chambre, e tinha os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, alisou o cabello, entrou na sala.
Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:—que apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo «como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas:
—Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida!
Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. Bazilio acrescentou logo:
—Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!—Encolheu os hombros com desdem.—Mas são interesses d'outros... E aqui está o que eu recebi esta manhã.
Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a sua mão fazia tremer o papel.
—Lê, peço-te que leias!
—Para que?—fez ella.
Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente necessaria. Parta já.»
Dobrou o papel, entregou-lh'o.
—E partes, hein?
—É forçoso.
—Quando?
—Esta noite.
Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão:
—Bem, adeus.
Bazilio murmurou:
—És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é necessario terminar. Fallaste á mulher?
—Está tudo arranjado—respondeu ella, franzindo a testa.
Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade:
—Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe?
Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente:
—Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!...
Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, tirando uma carteira da algibeira, começou:
—Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem lidamos), é natural que haja outras exigencias...—Abriu a carteira, tomou um sobrescripto pequenino e cheio.
Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio.
—Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece bom deixar-te algum dinheiro.
—Tu estás doudo?—exclamou ella.
—Mas...
—Tu queres-me dar dinheiro?—A sua voz tremia.
—Mas emfim...
—Adeus!—E ia sahir da sala, indignada.
—Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste...
Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar:
—Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus...
—Mas sabes que volto, dentro de tres semanas...
—Bem, então nos veremos...
Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios passivos e inertes.
Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz:
—Nem um beijo me queres dar?
Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e recuando:
—Adeus.
Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro:
—Adeus!—E da porta, voltando-se, com melancolia:—Escreve-me ao menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22.
Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um olhar para as janellas!
O trem rolou. Era o n.º 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.—Elle partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da densa noite, erriçada de perigos!
Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o, pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,—encontrou a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso bom.—Não, não estava no mundo só! Tinha-o a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!—E collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:—Perdôa-me, Jorge, meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma!
Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente:
—A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.a Juliana?
—Mas onde quer vossê ir saber?—perguntou Luiza.
—Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir saber...
—Pois bem, vá, vá.
Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, terrivelmente...
Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e sangrava dolorosamente!
Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,—e recuou vendo Juliana, amarella, muita alterada.
—A senhora faz favor de me dar uma palavra?
Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, furiosa:
—Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim?
—Que é, mulher?—fez Luiza, petrificada.
—Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar em nada?—berrou.
—Oh mulher, pelo amor de Deus!...
A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se.
Mas depois de um momento, mais baixo:
—A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram?—E retomada pela sua colera, batendo com o punho furiosamente na mesa:—Raios me partam, se não houver uma desgraça n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal!
—Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?—disse Luiza, erguendo-se direita, diante d'ella.
Juliana ficou um momento interdicta.
—A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os papeis!—respondeu, empertigando-se.
—Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil reis?
—Ao inferno!—gritou Juliana.—Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas!
Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada.
—Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto?
Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
—A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para m'as pagarem!—E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação phrenetica:—Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã—e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o que lhe appetece—e a negra? A negra a esfalfar-se!
Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira.
—Pois que lhe parece?—exclamava.—Não que eu cômo os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez—e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança.—Quem manda agora, sou eu!
Luiza soluçava baixo.
—A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura!
Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços:
—Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca se torna a abrir!—E deu uma palmada na bocca.
Luiza erguera-se devagar, muito branca:
—Pois bem—disse, quasi n'um murmurio—eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias.
Fez-se um silencio—que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o seu tic-tac, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz avermelhada, e direita.
Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um momento:
—Bem, minha senhora—disse, muito secca.
Voltou as costas, sahiu.
Luiza sentiu-a bater a cancella com força.
—Que expiação, Santo Deus!—exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada de novo em lagrimas.
Eram quasi dez horas quando Joanna voltou.
—Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe d'ella.
—Bem, traga a lamparina.
E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo:
—A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio!
Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas era o mesmo!
A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de amargura. Quem lhe poderia valer?—Sebastião! Sebastião era rico, era bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de Jorge:—Empreste-me seiscentos mil reis.—Para quê, minha senhora? E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento.
A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús, pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,—a chegada de Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao Paraiso...
Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas do wagon!
E ella alli, na agonia!
Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia.
Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.—Aquella alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar!
Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana desappareceria, Jorge voltaria!—E, alvoraçada, via perspectivas de felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.
Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado d'Almada, desejava saber como a senhora estava.
Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo que podesse!
Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E Sebastião era tão amigo d'ella!
Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe désse mau humor, entrou.
Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera tão recto, e a sua barba tão séria!
—Então que é? precisa alguma cousa?—perguntou-lhe elle depois das primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo.
Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo:
—É por causa de Jorge!
—Aposto que não lhe tem escripto?
—Não.
—Esteve muito tempo sem me escrever tambem.—E rindo:—Mas hoje recebi duas cartas por atacado.
Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam devagarinho o estôfo.
—É verdade—dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.—Recebi duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...—E estendendo uma carta a Luiza:—Póde vêr.
Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão precipitadamente:
—Perdão, não é essa!
—Não, deixe vêr...
—Não diz nada, são negocios...
—Não, quero vêr!
Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa:
—O quê?—A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza irritada.—Realmente!...
—São tolices, são tolices!—murmurava Sebastião, muito vermelho.
Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar:
«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»—Que graça!—murmurou Luiza, furiosa.—«Receio muito que se repita commigo o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...»
Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel.
—São brincadeiras!—balbuciou elle.
Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza provinciana da localidade. Deu uma soirée em minha honra, e em minha honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»—Luiza fez-se escarlate—«e uma queda do diabo...»
—Está doudo!—exclamou ella.—«E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...»
Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando a carta a Sebastião:
—Muito bem, diverte-se!—disse com uma voz sibilante.
—São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio...
—Eu!—exclamou ella.—Acho muito natural até!
Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. Felicidade, de Julião...
—Trabalha muito agora para o concurso—disse Sebastião.—Quem não tenho visto é o Conselheiro.
—Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem?
Sebastião encolheu os hombros—e com um ar quasi reprehensivo:
—Ora realmente tomou a serio...
Luiza interrompeu-o:
—Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu.
Sebastião teve um alvoroço d'alegria.
—Sim?
—Foi para Paris, não creio que volte.—E depois d'uma pausa, parecendo ter esquecido Jorge, e a carta:—Só em Paris está bem... Estava no ar p'ra partir.—Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido:—Precisava casar, aquelle rapaz.
—P'ra assentar—disse Sebastião.
Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido.
Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de familia...
—Teem mais experiencia—disse.
—Mas um fundo leviano—observou ella.
E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço.
—Eu a fallar a verdade—disse então Luiza—estimei que meu primo partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança... Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio despedir-se, fiquei surprehendida...
Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas trocadas—mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo:
—Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi grande...
Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava».
Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas duvidas, que tivera, tão injustas!...
—E volta?—perguntou.
—Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris!
E com a idéa da carta, de repente:
—Então o Sebastião é confidente de Jorge?
Elle riu:
—Oh minha senhora! pois acredita...
—E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não supporta o Alemtejo...—Mas vendo Sebastião olhar o relogio:—O que, já? É cedo.
Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle.
Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê—porque a cada momento sentia a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada.
Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham trazido outras—e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro!
Luiza riu, forçadamente.
—Ora, quando se é proprietario e rico!...
—Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!...
Levantou-se, e despedindo-se:
—Eu espero que aquelle vadio se não demore muito...
—Se a estanqueira der licença...
Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que viesse immediatamente, ou que partia ella!»—Entrou no quarto, muito excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da «mais pequena cousa»—separava-se, recolhia-se a um convento, morria de certo, matava-o!...
—Minha senhora—veio dizer Joanna—é um gallego com esta carta. Está á espera da resposta.
Que espanto! Era de Juliana!
Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros d'orthographia, dizia:
«Minha senhora.
«Serva muito obediente
«a criada
«Juliana Couceiro Tavira.»
Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar
Se um coração offendido
Tem obrigação de amar!