IV
Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor historico.
O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores mestres da especialidade em Lisboa.
N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o Pot-pourri e as Variações. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero de Rêveries. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido ao piano, attingia-se com os Nocturnos de Ravina e Döhler. Os arranjos operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes realisado.
Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára piano, harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como repertorio de estudo, os Preludios e Fugas de Bach, as Sonatas de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann e Chopin.
Os Folhetins de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que, justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos grandes creadores da musica moderna.
Esses Folhetins pareceram-me uma grande novidade,—não tanto nos assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura portugueza, insufficientissimamente revelados.
Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses Folhetins eram, ainda no anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da lingua portugueza;—como haviam sido, para todo o sul da Europa, á apparição do Romantismo francez nos primeiros annos do seculo XIX, as mesmas ideias e estylos semelhantes.
N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que geralmente se denomina um Romantico. Elle proprio dizia da epoca immediatamente anterior:
«N'aquelles tempos o Romantismo estava nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»[5]
E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica» que leva ao «hospital romantico...»[6]
Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais evidentes da Litteratura, uma inalteravel saude: Só certos factos do espirito perfeitamente determinados,—só as ideias e os sentimentos susceptiveis de clara determinação,—eram n'essa Litteratura expressos. Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos, os generos litterarios,—tudo parecia claramente, definitivamente assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações, com o minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na Europa, em geral, a gente culta, do seculo XVI ao seculo XVIII.
Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o branco descobriram-se gradações infinitas.
Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos, susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns que podiam ser nitidamente,—como que linearmente,—desenhados, inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias e os sentimentos que todos os homens conscientemente reconhecem como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote, prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das almas.
Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito, resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas as nevroses.
Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,—por isso quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes.
Toda esta revelação espiritual,—toda esta descoberta de regiões ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,—pareceu ser, ás gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.
A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido, o nome de Romantismo,—facto esthetico, ainda hoje em busca de sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece poder essencialmente definir-se, como a procura directa de fórmas de expressão, para todos os sentimentos e todas as ideias, por isso, para as mais intimas ideias e os mais vagos sentimentos do espirito humano.
Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo XVIII, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa durante o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio e saude normal.
O Romantismo pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada d'essa «Edade media».
É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças humanas,—com o integral resultado de forças naturaes que são,—deram fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado, cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes, com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações de espiritos e actividades.
Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade Media, sem duvida solicitaram a interpretação dos Romanticos, cuja rasão de ser, cuja missão era tambem, como já mostrei, expressar completamente, até aos mais profundos e subtis, todos os factos do espirito.
Mas o chamado Romantismo deu-se na Europa dos fins do seculo XVIII aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse tempo a Litteratura do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda apresentar o romantico Eça de Queiroz aos Romanticos portuguezes de 1866?
É o que vou explicar:
O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa, e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres elementares.[7]
N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez, definição, brilho,—e correlativamente perdendo meias tintas, claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os Romanticos das raças do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos.
Eis porque tantos romanticos portuguezes,—no extremo dos paizes claros do meio dia,[8] só fôram superficialmente romanticos.
Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do explicavel,—como que para preencher as lacunas deixadas no completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do comprehensivel,—existem com effeito, infinitamente, as necessidades mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.
É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.
Essas fórmas constituem a Arte e a Litteratura mystica e phantastica.
A França,—a mais norte das Nações definidoras,—recebeu, em grande parte, a sua Litteratura phantastica da Allemanha. Da Allemanha, por intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a 1867, em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.
E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades intimas e latentes, me commoveu ella,—a mim e a outros espiritos contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos das raças e dos climas claros e definidores do sul.