V
Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de Queiroz,—aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu posso dar testemunho,—fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente, mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e, envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.
A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,—a de Heine,—foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por Anthero de Quental sob o nome de Primaveras romanticas, e no que este diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;[9] vê-se tambem nas poesias primeiro escriptas para o Seculo XIX de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois colligidas, com o titulo de Lyra meridional, por Antonio de Azevedo Castello Branco.
Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas traducções francezas,—algumas feitas pelo proprio author, outras por este em collaboração com Gerardo de Nerval,—um caracter novo.
Heine é para mim,—e não é para todos ainda hoje, mesmo na Allemanha,—um dos maiores escriptores das linguas germanicas. Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos biblicos.
Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,—que eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,—quando Eça de Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos Reisebilder onde Heine,—a quem a musica sempre suggeria fórmas e côres definidas,—conta as transformações phantasticas porque a seus olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação da sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo XVIII, assassino por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as abobadas de cathedraes, genio planeta entre as harmonias apotheoticas das espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos dos auditorios.
Em muitas paginas das Prosas barbaras se encontra a influencia d'esta lenda phantastica de Paganini.
O conto a Ladainha da dôr, que tem o proprio Paganini por assumpto,[10] é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.[11] As Notas marginaes[12] parecem estancias do Intermezzo ou do Livro de Lazaro.
Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da França no Romantismo germanico. Foi elle o primeiro traductor francez do Fausto de Goethe, e, como já disse, o collaborador, com Heine, na traducção d'algumas das obras d'este ultimo.
É evidente, nas paginas das Prosas barbaras, a influencia dos proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos mysteriosos e phantasticos sonetos que começam:
Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé,
Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie...
Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé
Porte le soleil noir de la mélancolie!...[13]
Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição mythographica e profunda,—sobretudo nos 8 primeiros volumes da sua Historia de França,—da Edade media, da Renascença e da Reforma,—e, na Sorcière, pela materialisação sentimental e explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta Historia do Diabo,—foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de Queiroz.
H. Heine,—allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um espirito francez,—Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, em França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima e completa das suas obras, que o Romantismo phantastico principalmente impressionou a Eça de Queiroz.
Por toda a parte, nos escriptos das Prosas barbaras, se encontram os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular germanico, os aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades da Historia do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias do romantico portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, «as velhas mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha a quem o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas de Vecker a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos Burgraves», «os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo a alma pelo segredo da circulação do sangue»,—que passam de continuo nas narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios», as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia de Walpurgis, as cathedraes da Allemanha, o Rheno, o Mar do Norte, «a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem as velhas baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a poesia popular foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... ás lareiras dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde vão os Minnesingers errantes», onde se celebram as «kermesses de Leipzig» e se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer desenhou a sua Melancolia, onde correm as caçadas phantasticas do Freischütz e passam os Imperadores do Santo Imperio, Fausto, Mephistopheles, Margarida, Luthero... Spohr Weber...
O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua influencia consideravel em Eça de Queiroz,[14] só se deu d'uma maneira importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição em volume das Flores do Mal só tarde lhe chegou ás mãos. Recordo-me, na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca do Gremio litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas francezas, as poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez publicado.
Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio, impassivel, correcto de maneiras e toilettes, sempre preoccupado com a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o phantastico é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem duvida, em profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; mas para principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão lucidamente estranha. N'elle o delirio é sempre critico, a nevrose intensa, mas methodisada. Cria na arte o frisson nouveau que Victor Hugo celebra, mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores fórmas da sabia lingua franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé a pé, vibração a vibração.[15]
São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de transição, quando, gradualmente impressionado pelo Realismo e por Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de escriptos.
Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan Poe, que Eça de Queiroz,—ainda então ignorante de inglez,—só conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria com que o espirito americano determinou o nevrosismo das Historias extraordinarias, accentua-se ainda mais,—privado, em todo o caso, da indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,—nas fórmas logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França.
Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,—Musset, Gautier, Mallefille,—é sensivel n'este primeiro periodo da vida litteraria de Eça de Queiroz.
As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se são pouco numerosas e superficiaes:—quasi sómente as da poesia popular,[16] e as de alguns seus companheiros de Coimbra,—João de Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, o Milhafre[17] que suggerio a Anthero de Quental uma das suas poesias.[18]
Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que nova lingua portuguesa.
Mas esta Introducção ás Prosas barbaras tem por fim explical-as; não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que differenças profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico do Escriptor portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia poderosa de Eça de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens do norte e a imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador meridional; não tem emfim que provar como todas as influencias notadas se sentem apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente original, que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias paginas reunidas n'este livro.