IX
Á hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares, que têm a sua raiz na encosta, onde assenta o bairro de Bezetha: era n'um horto, junto ao monte das Oliveiras, que eu ia vêr Jesus de Nazareth.
A noite estava cheia d'um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob as largas ramagens: um silencio doce occupava a terra. Ouvi apenas um canto, triste, arrastado: alguma pobre mulher embalava o filho, chorava o marido levado para as legiões de Roma.
O homem que me guiava, abriu uma porta, estreita, de vime: entrei n'um espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura d'agua, cheiro do plantas.
A lua allumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de pedra: ahi, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro, o olhar afogado no espaço allumiado, estava Jesus.
Ergueu-se lentamente, e disse:
—Paz.
—Paz e alegria, Rabbi!—disse eu.—Velavas?
—Velo sempre. Bemaventurado o que vela! Elle é como o servo diligente, que espera acordado o seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente chegar, corre logo a abrir.
Jesus calou-se, perdendo o olhar no ineffavel espaço luminoso.
Eu approximei-me, e com uma voz profunda, convencida, disse:
—Creio em ti, Mestre!
Jesus olhava, enlevado, transcendente.
Havia um silencio: eu estava constrangido, e dizia para o chamar ás nossas communs imaginações:
—Rabbi, o que é necessario, segundo pensas, para alcançar, feliz, a vida eterna?
Jesus pousou em mim, demoradamente, os seus olhos severos.
—Serves o templo—disse—serves a lei, e não conheces a lei; a lei que diz?
—A lei—disse eu—ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros como a nós.
—E eu digo como a lei.
E olhava-me, penetrantemente: fallava como n'um sonho, ou a alguem invisivel.
—Não se póde servir bem a dois amos: um d'elles se ha de desprezar, outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.
Comprehendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um emissario do templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho contra elle.
Respondi com uma dignidade dura:
—Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Elle sabe que creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por traz das portas dos blasphemadores da lei. O meu corpo serve e vive no templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado comtigo, em desejo e em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João.
O Rabbi considerava-me attento.
—O homem—disse elle—dá testemunho do homem: só Deus conhece os corações.
—Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente d'Israel, tu julga, ou condemna minha alma.
Dizia isto grave, firme, aspero. Jesus de Nazareth, com o rosto esclarecido, disse-me docemente:
—A fé salva.
E depois d'um momento:
—E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou?
—Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Baptista ressuscitado; outros que és o Messias; os phariseus pensam que és um blasphemador ambicioso, ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade.
—E tu quem dizes que eu sou?
—Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciencia das coisas divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, n'um tempo humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hypocrisias, vingar a patria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o phariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador!
—Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a perdel-as.
—E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este sacerdocio rico e indifferente, este culto ensanguentado e hypocrita? É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbitrio dos favoritos imbecis de Tiberio?
—Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.
—Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casaes? E pensas que isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha secca? Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras das creanças de Chorasin, e contando parabolas, entre os campos, aos simples e ás mulheres? Comprehendo que a tua ambição não seja maior, e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples. Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu, se não és uma forte intensidade de vontade? As maximas que tu prégas são de Hillel, são de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha coisas novas no teu ensino, mas o que n'ellas ha de grande é a tua força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor do sacrificio, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de Caná? Não podia teu pae ser levado legionario para Roma? De que nos servem essas parabolas, essas ironias, essas respostas excellentes, se ellas não vão ferir a riqueza do saducceu, a hypocrisia do escriba, a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado, civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunaes, templos, officios, mercados, sacerdocios, escolas, tudo fortemente ligado, se dissipe como uma visão, porque um homem sympathico se ergue n'um caminho e diz:—Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pae celeste!—Não! tal não será, Rabbi!
—Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta—eu sei?—como um grão de mostarda, e dissesseis áquelle monte: passa-te d'ahi! o monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando estarei entre ti?
O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso.
—Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus. Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós soffremos e choramos muito baixo na terra.
Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:
—Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realisar o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te aos homens que têem a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas: nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz sem um propheta! Como tens tu pensado realisar o teu reino de Deus? Pela doçura e pela paciencia, ou pela força e pela revolta? Não pódes hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas, com os miseraveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as creanças que te sorriem?
—Deus esconde muitas coisas aos sabios, que revela ás creanças.
—Para que pregas então no templo, contra os phariseus e os principes?
—Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração!
—Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem?
—Só o desdem dá a paz.
—Dá a inercia, o sacrificio e as virtudes passivas. E se ámanhã tu pudesses começar a vêr realisado no mundo esse reino dos pobres, dos simples, dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada para a tua palavra? Se visses tudo transformado, por uma acção energica, revolucionaria, pela nossa acção?
Jesus caminhava, inquieto: o seu olhar vibrava. As minhas palavras davam-lhe inesperadas perturbações.
Nós viamos o templo luzir na branca polidez da pedra sob o luar: eu dizia-lhe, profundo:
—Olha, vê o templo: hoje alli tudo é intriga, artificio, apparato, riqueza, sangue, hypocrisia, vaidade: ámanhã seria o logar mais santo da terra.
Jesus cobria o templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto á face:
—Ouve: em Jerusalem ha descontentes: alguns membros do sanhedrin estão irritados com a familia d'Elanan, com Beothos: Gamaliel não ama o templo: o baixo povo do mercado detesta phariseus e escribas; é nosso; a Galilea é nossa; a Perea é nossa; mandar-se-ão emissarios a Joppé; toda a Judea se erguerá:—tu serás o propheta. Queres? O teu sonho do lago de Tiberiade será então vivo, real, palpavel, existente sob as nuvens!—Queres?
A noite era immortalmente bella: havia uma bondade no ar: o mundo parecia-me possuido de um elemento diverso.
Eu fallava confusamente, ora contra os phariseus, ora contra os romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal, nem a inercia d'um povo egoista. Uma grande tentação captivou o espirito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos:
—Rabbi, Rabbi, depois do phariseu, será a vez do romano! Tu serás o maior da Judea: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico, terás aniquilado o hypocrita, terás expulso o romano: serás pela justiça egual a Ezequiel, pela força egual aos Machabeus: serás como David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de Israel.
Eu fallava exaltado: mostrava-lhe Jerusalem e dizia-lhe:
—Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel!
Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e transcendente o ceu cheio da lua serena, o ineffavel silencio, a pura belleza do infinito, o profundo mysterio onde Deus habita, disse-me:
—Vae-te: o meu reino não é d'este mundo!...
Olhei longamente o Rabbi, lamentei o seu desdem, sorri da sua palavra: e calado, concentrado, sahi pelo caminho de Betphagé.
Uma claridade apparecia: os gallos cantavam. No outro dia, pela hora da tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galilea.