VIII

Eu ia triste: o amanhecer, a apparição espiritual da aurora, enche de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne. Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu artificio, tão altivos despresos.

Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me, obscuro e inconsolado, para os meus monotonos officios do templo. Alguns dos phariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrificios.

O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia: pensava nos prados da Galilea, nas aguas do lago, nas espessas folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga, pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planicies de Saron!

A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido d'um mercado: a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia material, dura, mesquinha, suffocante! Ia-me encostar á balaustrada da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuarios, de roçar pelos phariseus, escribas, por aquellas hierarchias sacerdotaes que me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos mortos.

Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre. Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação: os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos!

Invejava quasi o romano, o grego, o mercador de Tyro, que não são de Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o Aera e o Moriah, captivos e gementes!

Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?—perguntava a mim mesmo.

—Temos uma patria? Não!—E olhava a torre Antonia, onde os expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra.

—Temos uma religião, uma fé? Não!—E via os sacrificadores vestindo os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados, bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!

—Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!—E olhava aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra, e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para agradar ao Senhor!

Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não habitava Jerusalem!

Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte, Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me—ou resultados da noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia, ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade.

—Ah! Jesus de Nazareth—pensava eu—é o unico homem que nos poderia salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples, que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção?

Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal, terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma melancholica e transcendente?

O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz, porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este movimento popular?

Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede soccorro.

—Porque não?!—dizia eu—Surprehendi já nos seus olhos uma vontade dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo?

E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me, como inesperadas consolações.

O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir dos bois: tinha a sensação de natureza verde, de tempos repousados, contentes.

O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza, cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura, nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado, dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos, tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a indifferença.

O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado, suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin. N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves, idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica, toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.

Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade, de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas, a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce futuro, terno, purificado, coberto de luz!

E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro, hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem? Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus, como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias, escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com amargura para as edificações de Herodes, o grande!

Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de tantas forças civis!

Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava, infinitamente triste, com um desdem abatido.

Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias: mas um grande rumor encheu o templo.

Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o baixo recinto do templo.

Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de vozes, de gritos penetrantes.

Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus, couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações. Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros desmanchados, os pés riscados de sangue, a tunica despedaçada, o rosto levemente aquilino tomado de afflicção.

A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario: vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.

Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus: havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os pateos.

O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada, abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes cabellos, com uma semelhança pagã.

Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:

—Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que foi achada em adulterio nos porticos do templo.

—Lapidada! lapidada!—prorompeu a multidão.

Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se os gritos agudos, arrastados, das mulheres.

Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os soldados riam.

O escriba fallava, com gestos abundantes:

—Rabbi—dizia—a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas tu, Rabbi?

Jesus olhou o escriba serenamente.

—O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados—gritou alguem entre a multidão.

Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava:

—Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos!

E um phariseu bradou:

—É o Salomão das mulheres perdidas.

Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio onde anda escripta a lei, e exclamava:

—Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.

O povo cruel dizia n'um clamor:

—Lapidada, que seja lapidada!

Alguns phariseus gritavam:

—E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth!

Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia templaria. A multidão era espessa: os mendigos apregoavam posca; os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas d'escarlate: os doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas cabeças de legionarios espreitavam.

Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:

—Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.

Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:

—Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que despreza a lei.

Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin.

Mas na multidão havia uma oscillação: sentiam-se gritos, risadas joviaes, vozes; o povo afastava-se: e d'entre a sua escura espessura vinha empurrado, repellido, atirado, um homem.

E vozes alegres bradavam:

—Ahi vae Jesus Bar'Abbas, ahi vae!

O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, n'essa aspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus.

Era Bar'Abbas.

Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages.

E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com ambas as mãos, violentamente, uma ponta da tunica, estendeu-a para a multidão, gritando:

—Quem dá para o luto?

O povo ria; bradava:

—Lapidae-a, lapidae-a!

Bar'Abbas dizia:

—Lapidae-a, dae-me para o luto!

E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava.

Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os phariseus, os escribas diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei.

—Falla, Rabbi, falla!—gritavam-lhe d'entre a multidão.

Mas Jesus olhava sereno, calado.

Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente, colerica, bradou:

—Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer o perdão da mulher adultera.

Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a morte.

Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso, irritado:

—Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle manda lapidal-a.

Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse:

—Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se julgar sem peccado, que lhe atire a primeira pedra!

A sua voz era forte, concava, mysteriosa:—assustava.

A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se: os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos choravam: vozes diziam:—É o Messias, é o Messias! Todos se dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos.

Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da milicia templaria.

Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial, a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.

—Sim, sim—dizia eu—Jesus de Nazareth, pelo seu genio simples e justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez, a ser a regeneração d'Israel. Se elle tem apenas o espirito, eu terei por elle a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, timido, mais especulativo que activo, como poderia eu ser o homem decisivo d'uma insurreição?!

Mas o tedio da vida presente, uma mocidade ávida d'acção, o desdem irreconciliavel pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo de me approximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a Jesus de Nazareth. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: Shalon, que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta fallaria a Jesus.

Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com aquelle homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais prompto de fé.