II
Digamos antes do tudo, e sobretudo, uma verdade. A escola de Coimbra existia ha muito, a de Lisboa sabia-o, e nem esta nem aquella se provocavam. Ainda mais. Apparecera entre nós um livro, digno de menção pelos rasgos de talento que ostentava, e ao mesmo tempo digno de censura pelos seus não poucos dislates. Este livro era a Visão dos tempos. A tal apparecimento reuniram-se os magnates,{5} perfilaram-se os admiradores, a critica desbarretou-se, os minoristas da imprensa vieram assaralhopados, e de naveta em punho, botar incenso nos thuribulos, os cirios arderam profusamente em volta d'este Genesis sacrosanto. A devoção dos fieis crescia de ponto; o moço poeta repotreado na sua curul olympica deixava cair sobre as multidões boquiabertas um raio de luz da sua graça. Desde as camaras douradas até ás mansardas obscuras, desde o academico até o noticiarista, desde o rico homem até o pobre-diabo, ninguem via, ninguem pensava, ninguem fallava n'outro livro. Lisboa teve de abrir as suas valvulas de salvação, para não voar em hastilhas n'uma explosão de enthusiasmo. Esta é que é a verdade. Tempos depois Theophilo Braga dava a lume outro poema. Apesar do supremo despreso que a escola de Coimbra parece votar ás frandulagens latinas, esse livro, seja dito entre parenthesis, chamava-se Tempestades sonoras. Tempestatesque sonoras. Os triumphos da vespera cresceram e dilataram-se; os desgraçados trovadores olysiponenses metteram as lyras debaixo do braço, e recolheram-se aos limbos da sua insufficiencia microscopica.
De que veio, pois, todo este reviramento? porque se alçou de repente a guerra? porque é que Troya se esbrazea em chammas? porque se gladiam os que d'antes se abraçavam? porque se entorna o fel sobre esses louros, entretecidos com tanto amor para coroar frontes que hoje se conspurcam? A carta do sr. Castilho escripta a proposito do Poema da Mocidade foi a faúla caída sobre o barril de polvora. A má vontade latente irrompeu furiosa; as labaredas do incendio lamberam todos os diademas.
—«Como farpadas linguas de serpentes»
para me servir de um bello verso do sr. Theophilo Braga. Começou a lide, trocaram-se os primeiros tiros, assestaram-se as bombardas, o padre Tejo levantou-se do seu leito resolvido a arrepellar as barbas do Mondego. Hoje estamos em plena conflagração. De que procedeu, portanto, este alvoroto? De um despeito pueril. A carta do sr. Castilho ferira de rosto o melindre de dois mancebos; estes sairam a campo, e arremeçaram as suas frechas contra o poeta dos Ciumes do Bardo. Havia desacato em proceder de tal modo,{6} havia orgulho em suspeitar que quarenta annos de um lavor litterario que a posteridade tem de aquilatar imparcialmente, podiam cair esphacelados ante as injurias e os apodos. Em torno do poeta juntaram-se, então, de momento, os que o tinham sempre applaudido e respeitado; os arraiaes desfraldaram as suas bandeiras, os fundibularios entraram na faina belligerante. O nome do sr. Castilho foi remechido e fariscado no folhetim e no pamphleto; de uma e de outra banda o insulto gratuito e a frioleira chistosa tomaram o posto de honra. Os que deveriam ter saido, e feito ouvir a sua voz, em nome dos eternos principios de bom senso, quando os horisontes litterarios haviam começado a ennevoar-se, esses tinham acolhido com o Io triumphe nos labios, os que depois buscariam precipitar nas gemonias do despreso. Eu, por mim, não sou coimbrão nem olysiponense, não recebo santo nem senha para vir papear em raso; lamento os desvarios, e tremo pelo decahimento litterario.
Estas disputações de nomes e de pessoas não decidem nem esclarecem. Podia o sr. Castilho, como escriptor, valer tão pouco quanto nol-o affigura o auctor das Odes modernas, que estas nem por isso subiriam nem mais um furo na bitola da boa critica. A questão, por agora, não consiste em dissecar as obras do sr. Castilho, em lhes fazer uma analyse rigorosa, em as submetter a uma stricta chimica-litteraria, para averiguar as dózes de bem e de mal que ellas encerram. A questão reduz-se em saber qual é o pensamento salutar, benefico, grandioso, regenerador e depurativo que vae no lábaro d'estes campeadores famosos; qual o seu mote, o seu ficto, a sua aurora. A questão é saber se o ideal na arte significa apenas um revolutear de bugiarias teutonicas; se a humanidade se ha de redemir sob as aspersões de Vico, ou se consta que a Sciencia nova tenha preparado os melhores cidadãos da republica. A questão é provar que a suavidade, a singelesa, a graça, o lyrismo no verso, devem de ser immolados á duresa, á enfatuação e ao obscurecimento; que um soluço é ridiculo ante o bravejar de um possesso; que as lagrimas de uma creança não valem o phalerno das antisterias; que os anjos teem de cercear as azas para se ensambenitarem de philosophos. Eis o ponto, eis o campo, eis o assumpto em resumo.{7}
Queimae toda essa litteratura aprasivel e deliciosa por onde o coração humano se tem espraiado em lautos seculos; fazei um auto-de-fé á vossa porta, não á similhança do Cura de Cervantes, para desbaste de parvoiçadas e de truanescas phantasmagorias, mas como o de Omar, para testemunho de horror ás boas obras; aquentai-vos em volta d'essa fogueira immensa; e quando das maiores glorias do espirito humano só restar o fumo e a cinza, levantae um altar a todos esses innovadores do subjectivo e da transcendencia, e annunciae a redempção dos povos.
Deixemos a philosophia nos seus recessos de meditação; sigamos a arte nos seus arrobes de enthusiasmo. Para que despir a musa dos seus veos fluctuantes e imprensal-a n'uma garnacha ponderosa? Cumpre accender no coração a chamma dos nobres affectos; cumpre levar ao espirito o fogo das aspiraçães remontadas. O poeta é o sublime enviado do futuro, que vem preparar a geração de hoje para o amanhan grandioso e prospero. Como se hade levantar e moralisar este ignorante enorme que se chama a humanidade? o que entende ella das vossas philosophias? de que lhe servem as vossas saraivadas-germanicas? Cantae-lhe o amor: commovei-a até as lagrimas, impelli-a até o sacrificio.
«Fais ce que tu voudras, qu'importe!
Pourvu que le vrai soit content,
Pourvu que l'alouette sorte
Parfois de ta strophe en chantant;
Pourvu qu'en ton poeme tremble
L'azur réel des claires eaux,
Pourvu que le brin d'herbe y semble
Bon au nid des petits oiseaux!»
Ahi tendes compendiada n'estas duas quadras toda a arte poetica moderna. Não duvidareis de certo da auctoridade do mestre, não o repellireis do vosso gremio. Fazei o que vos aprouver, celebrae na estrophe o que vos agita, eternisae no hymno o que vos inflamma, mas sêde humanos, naturaes, intelligiveis; deixae que vos comprehendam, deixae que nos vossos cantos se perceba uma nota d'esse murmurio inefavel, que principia no fremito da relva e que termina na musica das espheras.{8}
Que novo systema de poesia tendes em mente estatuir? porque caminhos desconhecidos quereis agora levar a arte? qual é a vossa colunma de fogo, é a inspiração ou a simbolica? qual é o vosso modelo, Creuzer ou o Homem? Sacrificae ao povo; descei das abstracções e pousae nas realidades.
Tendes isso por deslustre? pensaes que a poesia desce a certas almas para depois se erguer d'ellas em fragrancias inuteis? Nunca, nunca, nunca. «L'amphore qui refuse d'aller à la fontaine mérite la huée des cruches.»—O poeta é o anjo do bem posto ao serviço da humanidade. Eschylo diz estas palavras: «—Desde todo o principio o poeta servio o homem. Orpheu ensinou o horror do assassinio, Hesiodo a agricultura, o divino Homero o heroismo, e eu, depois de Homero, cantei Patroclo, para que todo o cidadão procure imitar os grandes homens.»—
Affeiçoae ao nosso seculo esta maxima eterna, ensinae aos homens, não as subtilezas que vos prendem, mas o amor que gera a familia e que alimenta a liberdade.
Ahi tendes a missão d'essa deosa de olhos azues e de tranças louras contra a qual vos rebellaes acinte. Em quanto os vossos pensadores cavavam e alqueivavam a grande leira da ontologia, e ao cabo de uma noute perdida em cogitações mysteriosas deixavam cair a fronte calva e extenuada sobre os in-folios obscuros; emquanto elles discutiam o incomprehensivel, e atacavam de frente o desconhecido, á similhança do pagem da ballada que limpava a sombra de um cavallo com a sombra de uma escova; em quanto bracejavam furiosos, procurando rasgar as brumas que lhes encapotavam o espirito; ella, a deosa, a musa do idyllio e da canção amorosa, do rompante bellico e da endeixa suave, ella, a inspiração, o anjo, atravessava o mundo radiante e carinhosa, alentando o fraco, abençoando o innocente, recebendo a prece da orphan para a elevar a Deos entre canticos, amando, padecendo, trabalhando por todos,—fazendo romper o sol da consolação e da esperança do seio do vasto mar das lagrimas humanas!
Perguntae á Grecia antiga o que sabia ella da philosophia eleusiaca? Socrates declarava não perceber Heraclito. Perguntae á propria Alemanha o que julga ella de{9} Herder ou de Schelling; responder-vos-ha pensativa, e como a Carlola de Werther:—«Klopstock!»—