III

Quererei eu dizer com isto que tenho a alta philosophia por inutil? Oxalá que o não suspeitem. Creio nos transcendentes como poderia crêr nos alchimistas. Estes perseguem o absoluto sobre a terra, procuram a pedra philosophal e a panacêa universal, e encontram ao cabo d'esta navegação nas sombras, o opio, o mercurio, o zinco e o antimonio. Porque não ha de a philosophia, descobrir tambem verdades importantes, quando procura hallucinada entrever os grandes segredos do abysmo?

Não; o que eu quero só é que a arte se manifeste, isempta d'estas preoccupações terriveis. A poesia é como a mocidade, alegre, enthusiastica, expansiva, boa, amando a luz do céo e as flores da terra, brincando por entre as ramas floridas, revendo-se nos lagos tranquillos, crendo, esperando, pensando no alvorecer que ha de apontar talvez mais bello, nos botões das rosas que hão de desabrochar perfumados, e balbuciando depois aquellas preces que lhe ensinaram no berço entre sorrisos e affagos. A poesia enfatuada e superlativa é a creança doutorona, que em vez de folgar discute, que se amezenda entre os velhos, que lenta engrossar a voz aflautada, e que, se não usa cabelleira é só com medo que o rapazio do bairro se lhe divirta com o rabicho. Deixemos lucubrar os philosophos e cantar os poetas; não queiramos ensinar os rouxinoes a psalmear o de profundis. Os que apparecem com a inspiração na fronte, passam, levados pelo sopro divino, deixando cair sobre a terra os germens que hão de fructificar mais tarde. Que lhes importa a elles toda essa algaravia de vocabulos? o que entenderiam d'ella? Oh, que admiraveis prelecções de cosmogonia deve fazer o monte Branco? como as estrellas hão de fallar de Kepler e de Newton!

E esta pobre da natureza, que ha não sei quantos mil{10} annos se veste de primaveras, a julgar que é grande cousa porque amadurece o trigo, porque enfolha as oliveiras, porque desdobra os rios, porque inflamma a aurora, e porque ensina os passarinhos a chilrear na copa das arvores. Tolla, tolla; que sabes tu das monadas? que pensas do atomo? que idéa fórmas da synderese? E a transhumanação, e o symbolismo, e a ascese da via purgativa, e o palavriado, e Kant, e Fichte, e as ostras de Hamburgo? Que tens tu feito com os teus cantos? de que nos servem os teus perfumes? Vae longe o tempo em que os Anteos da poesia procuravam no teu seio a força e a vida; hoje, a nova escola, a que hade terraplenar e amanhar tudo, percorre o espaço, não cingida de festões de rosa, mas involta em uma impenetravel neblina.

Sejamos, todavia justos; a escola de Coimbra desce algumas vezes insensivelmente da sua peanha transcendental, e põe-se ao livel dos assumptos comesinhos. O seu melhor poeta, ou, para nos expressarmos com verdade, o seu unico poeta, não deixou de banda a musa que lhe segredava estes versos:

—Se a visses á janella
Cuidando em seu bordado!
Pudesses, como eu, vêl-a
De traz do cortinado!
....................
....................
....................
E se á janella, triste,
Vem pôr sua gaiola,
Se vem deitar alpiste
No comedouro á rôla?
Ai rôla, quem podesse
Gozar os teus carinhos;
Que a vida me parece
Um thalamo de espinhos.»—

Nada mais infantil nem mais gracioso, nada mais simples nem mais bello. Sente-se uma pessoa desafogar interiormente quando recita estes versos. Uma creança que deita alpiste a uma avesinha querida enche de aroma um idyllio; Jupiter franzindo o sobr'olho enche de magestade uma epopêa. Um gesto, um sorriso colhido entre os labios, um volver{11} d'olhos triste, a vermelhidão do pejo affogueando um semblante, eis a simplicidade e ao mesmo tempo a poesia. Dante nunca subio tão alto como quando descreveu uma leitura entre dois amantes. Onde foi elle buscar o segredo d'aquelles encantos, a singeleza d'aquelles traços, a paixão d'aquellas fallas? Ensinou-lhos a philosophia ou o seu coração ardente? vieram-lhe das profundezas da sciencia ou de uma recordação de Beatriz?

—«Noi leggevamo un giorno per diletto
Di Lancilloto come amor lo strinse:
Soli eravamo e senza alcun sospetto.

Quando chegardes áquelle tercetto assombroso de verdade e de candura, em que depois do primeiro beijo elles fecham para sempre o livro,

—«Quel giorno pui non vi leggemmo avante,»—

abjurae a metaphysica moderna, ou, se o não poderdes fazer, ide então, novos Œdipos, decifrar o

Raphel mai amech isabi alini

que o poeta põe na bocca de Nemrod!