IV

Deixemo-nos de distincções futeis, de demarcações impossiveis, de banalidades pueris; em litteratura só pode haver uma escola—a da verdade. Ninguem inventa, ninguem innova; todos exprimem, todos modelam, todos traduzem, todos sublimam na forma. A humanidade é o solo immenso sobre que o poeta levanta os seus monumentos. Todos elles são feitos do mesmo bronze, todos elles transsudam as mesmas claridades. No frontal d'essas moles altissimas o architecto grava o seu nome, imprime o seu cunho, chancella a sua obra, e deixa-a ás gerações. O Pantheon é de marmore como a cathedral gothica; n'aquelle ha, todavia, a simplicidade correcta, n'esta os enredamentos e as laçarias caprichosas. De que differente especie são feitos esses portentosos{12} edificios que se chamam o Livro de Job e a Illiada? Não saem ambos da natureza? não respiram o mesmo calor de affectos, não revelam o mesmo alevantamento de espirito? Em que se distinguem? o que os estrema? o que os separa? Depois da Illiada não surge a Orestia? depois de Job não apparece Shakespeare? O que divide ainda estes d'aquelles? Helena é porventura uma innovação ou Clytemnestra um improviso? Job carpindo-se no muladar é acaso uma licção ou Hamlet é apenas um desvario?

A originalidade na arte é a individualidade na forma. A poesia é tudo quanto é verdadeiro, simples e harmonioso; o grande problema de hoje é a producção do real no ideal, a pintura exacta da humanidade alcançada por meio do engrandecimento do homem. Os verdadeiros poetas, os genios, não inventam. São immensos, são multiplices, tem o azul do ceo e a escuridão da treva, o suspiro e o bramido, a alegria e o desespero, as flores e as rochas, a vida e a morte. Por isso V. Hugo os compara ao oceano. Quem inventa é Davenant, é Jeronymo Vahia, é Chapelain, é o padre de Saint-Louis. Os genios são a verdade radiante; os mediocres são o artificio abstruso. A Magdaleneida é mais original que o Othelo; a heroina do reverendo carmelita excede no descommunal das formas a trivial, a ramerraneira, a naturalissima verdade d'aquelle eterno typo de Desdemona.

Que significa, pois, o entono com que fallaes no ideal? O que entendeis por esta palavra? O lyrismo apaixonado, o arrebatamento epico, a verdade esplendida, o incitamento á virtude, o amor da gloria, o anjo saindo do homem, o bem santificando o bello? Não! O que hoje se adora, o que hoje se divinisa, é esse mesmo idolo eterno do fetichismo litterario—Vichnou de innumeras encarnações, que em todos os seculos tem tido o seu cortejo de bonzos.

«Ideal, ideal;—ouço eu bradar o coro dos levitas que vão levando em peso a arca santa da moderna civilisação—ponham-se de banda esses arrulhos de pomba, aquentem-se os fogões d'alem do Rheno com toda essa farraparia inutil que principia no Cantico dos Canticos e que vem até as Folhas Cahidas: sepulte-se no enxurro das frioleiras quanto{13} respirar a perfume dos balsedos e a grata fresquidão da relva luzente, começae pelo livro de Ruth e acabae no Pastor fido. Sêde homens, sêde reformadores, a sociedade carece de sangue novo, o espirito lateja nas ancias do absoluto. O nosso Deos não é o «pae que está no ceo»—pffu!... o nosso Deos é o infinito. Svedenborg é o seu propheta. Caminhae, progredi, solevantai-vos da terra, saccudi do calcanhar os limos mundanos, quebrae o ergastulo, espedaçae o involucro que vos estringe,

—«Atae as mãos ao vosso vão receio.

soltae o rumo, navegadores do abysmo! O amor é uma parvulez ephemera, a saudade um fumo que nos enturva, o enthusiasmo uma sobrexcitação de nescios. Hegel aperta as nadegas possantes para rir ás gargalhadas dos colloquios de Paulo e Virginia.

Derroca-se o mundo velho, desmoronam-se os poemas intelligiveis, escalavra-se o vocabulario terreno, Quijote encancha-se nos largos hombros do Sancho materialão e positivo, e accommete os Guaramantas adversarios. Arraiam-se os horisontes com os primeiros albores do dia novo, les diables s'en vont, isto é, desapparecem os cantores pedestres; a immensidade rebôa ao galopar de ginetes que se approximam. Vencemos Alarico! Temperem-se os alaudes, afinem-se os psalterios, e o canto dos bardos glorifique as nossas façanhas!»

—«Barbaros, barbaros!»—diz então uma voz que se chama a consciencia!