V

Finalisemos por agora. Traçando estas breves considerações sobre a actual polemica litteraria não tive em mente aggredir nem este nem aquelle bando, mas simplesmente dizer o que penso a respeito do assumpto que se debate, dando de mão a incidentes. Não quiz, tampouco, assumir o papel de propugnador de A. F. de Castilho; tenho para mim que defendel-o seria injurial-o, seria duvidar da robustez{14} d'aquello talento. Elle bem sabe que ha atheos na arte como os ha na religião;—homens que negam a divindade. Que se lhes ha de fazer? punir-lhes a descrença com a tortura? nunca. O crê ou morre é a razão suprema da tyrannia estupida. Quando alguem ousa profanar o altar ante o qual deveria curvar-se respeitoso, cumpre admoestar o pagão, e cathequisal-o em seguida.

Quem são esses gigantes que ousam escalar o ceo, sotopando os montes, e encumiando-se n'elles com a mais esbagaxada pantalonice? Resurgiram Efialto e Briareu, ou os vulcões espirram no estrebuxar d'estes filhos da terra? Nada é de certo. Os gigantes dormem, e os deoses permanecem. A serenidade magestosa é o caracteristico d'estes ultimos. Applaudo a longanimidade do sr. Castilho; mais lhe applaudiria ainda o silencio completo. Ninguem o maculou, ninguem o ferio; passe a mão pelo rosto e verá que o sente incolume. As ballas rojaram-lhe pelos pés, frias e inoffensivas. O arcabuz que as despedira não tinha alcance para tão alto. Que ha novo n'estes accommettimentos audaciosos? Estamos, principalmente, n'uma épocha de reacção; o fermento da philosophia anda a levedar por todos os lados; a arte sente-se trabalhada pelas ancias de um parto laborioso. Teremos um Deos ou um murganho? Volvamos os olhos para o oriente, proclamemos a luz, combatamos a obscuridade; eis tudo. A escola de Coimbra, (não façamos questão sobre este vocabulo escola), parece estar convencida que o bello é o inextrincavel, que os genios devem fazer-se ouvir, como os heroes de Ossian, atravez dos nevoeiros. Eu creio o inverso; o que ahi fica dito é, portanto, a minha carta de crença litteraria. Lamento as intelligencias que se trasmontam como as ovelhas que se trasmalham. Se eu fosse pastor nas lettras tresnoutar-me-ía para as encarreirar. Que fazer alem d'isto? como adoptar outros alvitres? Este tumulto que se levantou, e que por desgraça tem tomado um corpo desmedido, só pode terminar pelo convencimento. Antes d'isso a lucta ha de padecer do mal de todas as luctas. Quando as armas da razão se quebrarem nas mãos dos combatentes, ficar-lhes-ha nos labios o praguejar insultuoso. Não queiramos para nós este recurso.

Dois ou tres mancebos em cujo espirito fez móça a rajada{15} da philosophia, seguiram com ella, fazendo a sua derrota em demanda de novos mundos. Advertil-os era tarefa de piloto experiente. Fel-o, não sei se com asperesa, mas ao certo com verdade. Os modernos descobridores sublevaram-se, e feriram o ceo com uma celeuma desatinada. Começou então a contenda. Nas aguas que primeiro sulcaram alguns bergantins de pequena guinda, navegam já hoje galeões alterosos. Que significa, todavia, esse pavilhão que tem por mote = dignidade e independencia = que os sinaleiros do infinito içam ao tope do arvoredo? Quem lhes disse a elles que se lhes quer beliscar no fôro intimo de escriptores? quem lhes prégou a servidão como evangelho do poeta? quem pensa em que as aguias tragam ao pescoço um trambolho, como os cães por tempo de vindima? Ninguem, que eu saiba. O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que as theorias ensarilhadas da Allemanha, que vieram até nós fazendo escalla pela França, nem lá tem estorroado grandes caminhos para o futuro, nem por cá farão milagre; é que o poeta não tem que jurar a cada momento por Michelet, como os teutões por Hermann, nem deve ensinar a derrubar a santidade das crenças para erguer n'esse throno devoluto uma chimera de treslidos, um ideal avariado.

O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que a arte, no alto sentido d'esta palavra, só deve ter por fim dissipar o que é nuvem, lavar o que é macula, levantar o que é rasteiro, arejar o que é fetido, allumiar o que é sombra, robustecer o que é anemico, limpar dos cogumelos do atheismo risivel a planta nascente que se apruma para o céo. Ninguem vos quer enfeudar, ninguem attenta contra a vossa dignidade de homens de lettras. Pensaes edificar para os seculos e trabalhaes para o esquecimento; julgaes fazer a luz e amontoaes as trevas. A vossa obra é como o abysmo de Milton,

—«A dungeon horrible on all sides round,
—yet from those flames
No light, buth ralher darkness visible.»—

D'esta appreciação, d'este modo de julgar a nova escola que tende a implantar-se entre nós, tem resultado as vaias descompostas, e as censuras bem cabidas. Despresar{16} aquellas é dever, aceitar estas prova é de discernimento e de cordura. O afan com que a maior parte dos nossos escriptores, (e alguns de primeira grandesa), anda involvida n'esta pugna, diz bem alto aos pachorrentos que ella não é tão frivola como isso. A faisca póde tornar-se incendio, como a raiz póde converter-se em floresta. Defendem-se as immunidades da arte como se defendem as da patria; os sacerdotes do bello vigiam pelo seu culto.

Eu, sem ter vaidades tresloucadas, entendi que poderia vir tambem a publico, não de mitra e báculo, para exorcismar os energumenos, mas como simples leigo, que, se não destrinça ainda bem todos os mysterios do rito, tem, pelo menos, fé viva na religião dos seus maiores.

FIM


CATALOGO CHRONOLOGICO

DOS OPUSCULOS PUBLICADOS ATÉ HOJE

SOBRE A ACTUAL

QUESTÃO LITTERARIA

1—A. F. de Castilho—Carta ao editor A. M. Pereira sobre o Poema da Mocidade, impressa no fim do poema (Esta memoravel carta de critica litteraria é que suscitou a famosa questão que se está debatendo) 1 vol. brox. 600

2—Anthero do Quental—Bom senso e bom gosto, carta ao ex.mo sr. A. F. de Castilho, 3.ª edição, br. 100

3—M. Pinheiro Chagas—Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito da carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho br. 100

4—Manuel Roussado—Bom senso e bom gosto, resposta á carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao ex.mo sr. A. F. de Castilho, br. 100

5—Elmano da Cunha—Carta em resposta a outra bom senso e bom gosto dirigida por Anthero do Quental ao ex.mo sr. A. F. de Castilho o incomparavel traductor dos Fastos de Ovidio, obra em que se faz o confronto de Romulo e Jesus-Christo, offerecida ao incomparavel duque de Saldanha, br. 100

6—Julio de Castilho—O sr. Antonio Feliciano de Castilho e o sr. Anthero do Quental, 2.ª edição, br. 160

7—Theophilo Braga—As theocracias litterarias, br. 100

8—Anthero do Quental—A dignidade das lettras e as litteraturas officiaes, br. 160

9—Rui de Porto Carrero—Lisboa, Coimbra e Porto e a questão litteraria.—A carta do sr. Anthero do Quental ante os srs. Pinheiro Chagas, M. Roussado e Julio de Castilho, 2.ª edição, br. 160

10—A. Ferreira de Freitas—Os litteratos em Lisboa—poemeto illustrado por Jeronymo da Silva Motta, bacharel nas faculdades de theologia e direito, br. 240

11—Amaro Mendes Gaveta—O mau senso e o mau gosto—Carta mui respeitosa ao ex.mo sr. A. F. de Castilho em que se falla de todos e de muitas pessoas mais, com uma conversação preambular por Gaveta Mendes Amaro, br. 100

12—S. de A.—Bom senso e bom gosto—Carta de boas festas a Manuel Roussado, br. 100

13—J. D. Ramalho Ortigão—Litteratura de hoje, br. 100

14—Camillo Castello Branco—Vaidades irritadas e irritantes—opusculo ácerca de uns que se dizem offendidos em sua liberdade de consciencia litteraria, br. 200

15—Augusto Malheiro Dias—Castilho e Quental—reflexões sobre a actual questão litteraria, br. 100

16—Urbano Loureiro—Questão de palheiro; Coimbrões e lisboetas, br. 100

17—Ermita do Chiado—Garrett, Castilho, Herculano e a escola coimbrã, ou dissertação ácerca da genealogia da moderna escola, contendo um esboço rapido e pittoresco da litteratura contemporanea, br. 100

18—C. F.—A litteratura ramalhuda a proposito dos srs. Castilho e Ramalho Ortigao, br. 100

19—A. F. de Castilho e J. A. de Freitas e Oliveira—A questão litteraria—a proposito do jazigo de José Estevão, br. 60

20—José Francisco—Os coimbrões; questão em que tambem entra pelos cem réis, José Francisco, caiador da rainha do Congo; com uma dedicatoria por Diogo Bernardes, br. 100

21—José Feliciano de Castilho—A escola coimbrã.—Cartas ao redactor do Correio Mercantil, do Rio de Janeiro (este folheto contem as tres primeiras cartas; as seguintes formarão outro folheto que já está no prelo), br. 100

22—Eduardo A. Vidal—Guelfos e gibelinos. Tentativa critica sobre a actual polemica litteraria, br. 100

23—P. W. de Brito Aranha—Bom senso e bom gosto. Humilde parecer com uma carta do ex.mo sr. A. F. de Castilho, br. 100

24—Eduardo Salgado—Litteratura de ámanhã, duas palavras ao sr. Anthero do Quental, br. 100

25—Carlos Borges—Penna e espada, duas palavras ácerca da Litteratura de hoje, de Ramalho Ortigão br. 100

26—Anonymo—Anthero do Quental, e Ramalho Ortigão, br. 100