Conclusão
O sacerdote, que ouvira o pintor em confissão, em signal de agradecimento pela bellissima Senhora das Dôres que elle offerecera á sua egreja, resou uma missa cantada pelo descanço da alma do artista.
Mauricio deu sepultura ao corpo de Ernesto no cemiterio da villa de Orgaz.
Depois de cumpridos estes tristes deveres, Mauricio dispôz-se a cumprir as ultimas vontades do seu hospede.
Preparou tudo para a viagem e disse á mulher:
—Ámanhã vou a Madrid desempenhar-me das commissões de que me encarregou o senhor Ernesto. Durante a minha ausencia se não queres ficar só levar-te-hei até Toledo. Calculo não me demorar mais de tres dias.
—Vae socegado e sem pressa; eu não deixo a casa onde estão os nossos haveres. Demais, os pastores têem as choças aqui perto, e se tivesse necessidade, bem sabes que me prestariam qualquer auxilio.
Mauricio partiu.
A carta que Ernesto escrevêra aos seus amigos da rua do Prado, resumia-se a uma terna despedida.
Sigamos, pois, Mauricio, a casa do conde de Loreto.
Fernando del Villar, por quem uma carruagem esperava á porta, descia a escada do seu palacio quando viu entrar Mauricio com os tres quadros perfeitamente empacotados.
O conde parou ao reconhecer o caçador dos montes de Toledo.{179}
—Ah! É o senhor? lhe disse. Como está Ernesto?
—Morreu! respondeu Mauricio.
—Como? Morreu?
—Ha quatro dias, senhor conde.
—Pobre rapaz! Mas suba, suba.
O conde começou a subir precipitadamente, seguido de Mauricio, atravessou varias casas e por fim entrou n'um elegante e luxuoso escriptorio.
—Morreu!... repetiu o conde deixando-se cair n'uma cadeira. Pobre Ernesto! Não esperava similhante noticia. Sente-se, sente-se, meu amigo, e diga-me qual o fim da sua vinda, porque creio que ha mais alguma cousa do que annunciar-me tão irreparavel desgraça.
—O senhor Ernesto encarregou-me na vespera da sua morte de trazer ao senhor conde estes tres retratos e esta carta.
O conde levantou-se, desatou o cordão que prendia os quadros, e, collocando cada um em sua cadeira, levantou o estore da janella para que entrasse mais luz.
Quando os olhos se fixaram nos retratos, e em especial no da condessa, não poude conter uma exclamação, um grito de assombro.
—Isto é admiravel! Isto é admiravel! Que pena que homens assim vivam tão pouco!
E ficou immovel como que extasiado deante do retrato da mulher.
O conde era um conhecedor de pintura. Viajára muito e vira muitissimo; conhecia toda essa collecção de retratos celebres, que honram os seus auctores, pendurados em exposição nas paredes dos museus; mas nenhum ainda lhe produzira tanta admiração como a tela que tinha ante si.
O retrato de Amparo era uma obra-prima, pelo desenho, pelo colorido e sobretudo pela parecença.
Demais a bôcca d'aquella mulher, perfeitamente modelada, tinha uma expressão tal que parecia ter vida. Dir-se-hia que aquelles labios humidos, de uma côr bella, um pouco entreabertos, palpitantes de amor e de ternura, iam dar um d'esses beijos que inflammam{180} para sempre a alma do homem que o recebe.
Os olhos, de belleza irresistivel, meio velados pelas compridas pestanas exprimiam tambem amor e melancholia.
Ao conde de Loreto nunca parecêra tão formosa a mulher como n'aquelle momento em que comparava o original com o retrato; mas aquelle retrato, onde a mão do pintor, sem se servir da adulação, possuia alguma cousa mais do que a frialdade immovel da pintura, tinha por assim dizer a alma do artista occulta atraz dos olhos e atravez aquella bôcca encantadora.
Ninguem, ao vêr o retrato, duvidaria de que estava um beijo suspenso dos divinos labios d'aquella mulher, e, comtudo, o pintor não violára nem uma só linha, nem na mais delicada sombra, a posição natural d'aquella incomparavel bôcca.
O conde, que assim o comprehendeu, teve o retrato por uma obra-prima, e, amante da arte que immortalizou Raphael, não podia desviar os olhos do quadro.
Durante um quarto de hora Fernando permaneceu como um extasiado. Mauricio estava triste e silencioso a seu lado.
Quando se cançou de contemplal-o, viu que tinha uma carta na mão. Era a que pouco antes lhe entregára o honrado Mauricio.
Rasgou o envellope e leu:
«Senhor conde de Loreto.
«Prestes a entregar a alma a Deus e o corpo á terra, pego na penna com mão fraca para lhe enviar as minhas despedidas.
«Quando receber a minha carta já terei deixado de existir. Um sêr a menos na terra, uma particula de pó a mais em algum ignorado cemiterio d'estas regiões; mas em compensação, outros seres nascem, emquanto o vento levanta o pó dos que morrem. O mundo{181} segue o seu caminho: esta é a cadeia da humanidade.
«Remetto-lhe os tres retratos offerecidos. São as minhas ultimas obras; depois d'ellas os meus pobres pinceis não offenderão mais a arte inutilisando telas, estragando tintas. O unico merito que se lhe poderá attribuir será a parecença, e isso, sem duvida por que eu, durante o meu voluntario e penoso desterro, me não esqueci nem um só instante dos meus amigos.
«Vou concluir pedindo-lhe, senhor conde, um favor. Mauricio e Petra, isto é, o portador d'esta e sua mulher, foram durante a minha doença dois irmãos carinhosos. Se eu fosse tão rico como Salomão, deixar-lhes-hia toda a minha fortuna e creio que assim mesmo não lhes pagaria quanto lhes devo; mas sou pobre, e só posso pagar-lhes com amor e agradecimento os beneficios recebidos.
«Assim, pois, senhor conde, peço-lhe que entregue a Mauricio o valor que der aos tres retratos para que tenham com essa importancia uma recompensa do muito que lhes devo.
«Mauricio é um honrado caçador de profissão que me serviu com desinteresse e sem esperança de recompensa: não sabe portanto que me occupo d'elle n'esta carta.
«Desculpe-me, senhor conde, a liberdade que tomo, e não se esqueça de que ao soltar o meu ultimo suspiro bemdirei os meus amigos.
«Apresente os meus respeitos á senhora condessa e dê um abraço de eterna despedida ao meu bom amigo D. Ventura.
Ernesto.»
O conde acabou a leitura da carta commovido, dobrou-a e guardou-a na algibeira.{182}
Nos olhos havia uma certa humidade, devida ás lagrimas.
Mauricio, vendo que o conde guardava silencio, e desejando acabar com aquella visita, disse:
—Se o senhor conde m'o permitte, retiro-me, pois preciso ainda esta noite regressar a Toledo.
O conde dirigiu-se para o cofre, abriu-o, e, depois de pensar um momento, começou a contar notas de banco.
—Mauricio, disse Fernando, ignora sem duvida qual a missão de que o meu amigo Ernesto me encarrega n'esta carta.
—Só me disse para a entregar ao senhor conde juntamente com os retratos.
—Pois bem; Ernesto encarrega-me de lhe entregar seis mil duros que lhe devo.
—A mim? disse admirado o caçador.
—Sim, a si.
—Mas que devo fazer a esse dinheiro? Porque elle nada me disse ao morrer.
—Guardál-os para si.
—É impossivel! Seis mil duros é uma fortuna para um pobre como eu.
O conde, admirado da honradez d'aquelle homem, teve um nobre pensamento, e ajuntou:
—Desculpe-me; enganei-me.
—Eu logo vi que não podia ser, disse Mauricio quasi contente.
—Enganei-me na importancia, continuou o conde: em logar de seis mil duros são dez mil.
Mauricio empallideceu. Era uma fortuna.
O conde entretanto contou dez mil duros em notas do banco de quatro mil reales, e, collocando-os depois n'uma bandeja, approximou-se de Mauricio, dizendo:
—Isto é o que Ernesto Alvarez deixa como herança a Mauricio e Petra pelo seu generoso comportamento, pelos seus bellos sentimentos. Agora eu, o conde de Loreto, offereço a Mauricio, quando se fartar de ser caçador, o logar de administrador{183} em um monte nas Asturias, com vinte e cinco reales por dia, casa, lenha e mais vantagens que me não recordam agora.
E o conde, apertando a mão ao honrado montanhez, ajuntou:
—Vá a Toledo, diga a sua mulher o que o senhor Ernesto dispôz na sua ultima carta, pense socegadamente o que mais lhe convêm, que aqui me encontrará sempre disposto a cumprir a minha palavra.
Mauricio pegou com a mão trémula nos dez mil reales, apertou depois de encontro ao peito a mão do conde e, com olhos marejados de lagrimas e o parecer bastante commovido, disse:
—Mas que fiz eu para merecer tantos favores?
—Foi um homem de bem, um homem justo, respondeu o conde.
—Ah! a minha pobre Petra vae enlouquecer de alegria. Ella que dentro em pouco vae ser mãe! Ella, que nunca viu cem mil reales! Ella que é tão boa! Todos os nossos filhos aprenderão a bem dizerem os nomes do senhor Ernesto e do senhor conde de Loreto.
Fernando acompanhou Mauricio até á porta, depois voltou para o escriptorio e, sentando-se em frente do retrato da mulher, disse:
—Ernesto não existe, mas nos labios d'este retrato, n'aquella bôcca doce, apaixonada, amorosa como um beijo, deixou escripta a historia da sua morte.
FIM
{184}
[[1]] Um duro corresponde a 900 réis e um real a 50 réis, approximadamente.
[[2]] Moeda de ouro, que vale approximadamente 14$500 réis.
N. do T.