O anjo da morte

Durante quinze dias, Ernesto não sahiu de casa; pintava de manhã e de tarde. Só alguns curtos momentos deixava a sua tarefa, para dar um passeio em frente de casa.

Vendo pintar aquelle joven febril com os olhos encovados e a respiração fatigante, dir-se-hia que tinha esse afan do homem de genio que presente a morte e que quer concluir a obra que o deve immortalizar.

Estavam concluidos os retratos do conde, e de D. Ventura e tinha entre mãos o de Amparo.

Ás vezes chamava Mauricio e perguntava-lhe:

—Conhécel-os? Parecem-se?

—Oh! Muito! São elles por uma penna.{170}

Depois dava um charuto a Mauricio, accendia outro, apezar da tosse que o fumo lhe causava, e continuava pintando.

No quarto do pintor, graças ás offertas do conde de Loreto, encontravam-se todas as commodidades apetecidas. Quatro pelles de leão almofadavam o sobrado; duas commodas cadeiras de braços forradas de marroquim recebiam o pintor quando se sentia fatigado.

Muitas vezes dizia o pintor, sentado junto do fogão e tomando uma chavena de café:

—Isto não é viver n'um monte: é ter um oasis no meio d'um deserto.

Certa manhã recebeu uma carta dos seus amigos Marcial e André, dizendo-lhe que lhe haviam conferido o primeiro premio e que lhe iam levar a medalha: que mandasse um homem á estação de Toledo para os acompanhar ao monte.

Ernesto chamou Mauricio e disse-lhe:

—Ámanhã devem chegar a Toledo uns amigos de Madrid que veem passar alguns dias commigo. É preciso que os vás esperar á estação, que arranjes cavallos para o que fôr preciso e que os tragas para aqui. Tambem seria bom que trouxesses da cidade o que tua mulher precisar.

Ernesto guardou os retratos para que os seus amigos não vissem. Era avaro do seu thesouro, não queria que o profanasse a publicidade.

Marcial e André não eram caçadores; mas a caça é agradavel a todos os homens, sem duvida porque os coelhos não usam revólver para se defenderem, nem as perdizes disparam dardos contra os seus perseguidores.

Dizem que a caça é a imagem da guerra, sem duvida porque se queima polvora e se derrama sangue; mas a mim parece-me que da guerra á caça vae muita differença e bem crente estou de que o governo não passaria todos os annos trinta e seis mil licenças de caça se o caçador corresse tanto perigo como o soldado deante do inimigo.{171}

Mas se todos gostam de disparar contra os inoffensivos coelhos, as ladinas perdizes e as ligeiras lebres, não é para admirar que qualquer habitante da cidade, ao encontrar-se n'um monte, povoado de caça e tendo á sua disposição uma espingarda, não tente derramar sangue, ainda que não seja senão para se baptisar com a cruz de Santo Eustachio.

Chegaram os amigos de Ernesto e depois dos abraços e das exclamações ante o selvagem panorama, falou-se do quadro de Esther; almoçaram, tomaram café, beberam tres garrafas de Champagne e pensaram em caçar visto haver espingardas e caça.

Mauricio propoz uma batida e se bem que os caçadores não fossem muito felizes, em compensação viram correr e voar muita caça.

Á noite, Petra serviu uma ceia, senão muito variada, pelo menos muito abundante.

A mocidade tem bom estomago. Comeram bem e beberam muito melhor. Falou-se de Ernesto chegar a Madrid e este disse:

—Não penso por emquanto em abandonar estes montes, porque estou aqui perfeitamente. Convenci-me de que a solidão do campo e o ar saudavel d'estas serras me são muito mais proveitosas do que a vida agitada da cidade.

Todas as reflexões de Marcial, todos os conselhos de André não conseguiram demover Ernesto. Os amigos convenceram-se de que seria inutil falar em similhante assumpto.

Os amigos do pintor ficaram com elle mais tres dias. Chegou a hora da partida. Marcial tinha em ensaios uma comedia e não podia retardar o seu regresso a Madrid. Despediram-se promettendo fazer outra visita no mez de maio, se Ernesto até então não tivesse abandonado os montes.

Ernesto, n'um ponto elevado, viu-os afastarem-se montados nos cavallos e cantando o côro das bruxas de Macbeth.

—Aquelles são felizes, disse com tristeza, porque em seus corações vive a alegria da juventude, a esperança{172} da gloria. Ide em paz, meus amigos, a quem nunca mais verei, a não ser que exista alguma cousa da vida occulta ao olhar do homem para lá d'esse céu azul que se extende sobre a minha cabeça.

Ernesto sentou-se. Uma volta do caminho tinha occultado os amigos, a quem, como acabava de dizer, não tornaria a vêr.

Durante uma hora ficou immovel como o penedo que lhe servia de appoio.

Depois levantou-se, vagarosa e tristemente, dirigiu-se para casa, tirou o retrato de Amparo, collocou-o no cavallete e pôz-se a pintar.



Quando algum conhecido de Mauricio ia caçar aos montes, Ernesto fechava-se no seu quarto e poucas vezes sahia. Pintava, lia, e bebia rhum.

Estava muito doente, mas continuava regeitando os conselhos dos amigos e os auxilios da sciencia.

Durante os mezes da primavera, pareceu fortalecer-se alguma cousa. Passou o verão um tanto alliviado, trabalhava pouco, e ainda por duas vezes mandára Mauricio a Madrid levar quadros de caça ao conde, ficando em seu poder os retratos completamente concluidos, dizendo:

—Isto será a minha despedida, o meu testamento. Chegou o mez de outubro, e Ernesto com os primeiros frios, apanhou uma recahida e perdeu por completo o appettite; apenas se levantava para se sentar na cadeira e d'esta para se metter na cama. Mauricio e Petra insistiram varias vezes com elle para o convencer a que chamasse o medico.

—É inutil, meus amigos, dizia-lhes, talvez que em breve me faça mais falta um sacerdote.

Uma noite, Ernesto peorou a tal ponto, que Mauricio, sem o consultar, montou a cavallo, foi ao povoado de Orgaz e trouxe um medico.

Ernesto, ao vêl-o entrar, ao perceber a que vinha, encolheu os hombros, dirigiu um olhar de gratidão a Mauricio, e disse:{173}

—Tudo isso é inutil. O que preciso ámanhã é de um sacerdote.

O medico viu effectivamente que a doença de Ernesto era incuravel, receitou por simples formalidade e disse que o chamassem se houvesse mais alguma novidade.

Ao sahir, disse a Petra:

—Chamem o padre com urgencia, porque este homem apenas tem tres dias de vida.

Petra chorou, e contou ao marido o que o medico lhe dissera.

Estavam verdadeiramente impressionados.

Quando Mauricio á noite entrou com a luz no quarto de Ernesto este estava sentado n'uma cadeira proximo da mesa.

Ardia um bom fogo no fogão e, apezar do frio não ser muito, Ernesto queixava-se de que se sentia gelado; era a morte, que avançava a passos gigantescos para se apoderar do coração, para extinguir a vida n'aquelle corpo, para separar a alma da materia.

—Mauricio, poe ahi a luz, approxima uma cadeira, senta-te aqui a meu lado, disse o pintor, porque temos muito que conversar e não temos tempo a perder.

Mauricio obedeceu sem dizer uma palavra. Só de quando em quando olhava para o cadaverico semblante do seu hospede, pensando que já tinha visto defuntos com muito melhor parecer.

—Tudo n'este mundo tem o seu fim, meu amigo, ajuntou Ernesto com voz fraca e pausadamente. O dia nasce e morre como a planta e o homem. A vida, como o canto do passaro, como as folhas das arvores, está sujeita á vontade do Creador. Rebellarmo-nos contra tal, é uma loucura, uma temeridade ou uma cobardia. Ninguem se salva da morte, ainda que diga com toda a força do seu desespero: «Não quero morrer.» Assim, pois, é preciso resignarmo-nos. Toda a sabedoria, toda a sciencia, toda a grandeza do homem não é sufficiente para prolongar um segundo sequer a sua vida. Alexandre como Cesar,{174} Aristoteles como Cicero, morreram quando soaram as suas horas, apezar de serem quem foram. A minha approxima-se e é preciso preparar tudo para a minha ultima viagem.

Ernesto deteve-se, respirou, levou a mão ao peito e fixou os olhos em Mauricio, cujo semblante compungido, manifestava a profunda magua da sua alma, porque as palavras sentenciosas e tristes do seu hospede, a quem estimava como a um pae, o affligiam.

—Quero, pois, meu bom Mauricio, inteirar-te do que tens a fazer no dia seguinte ao da minha morte, que não está longe. Por isso, te pedi para te sentares e que me prestasses attenção. Dei grandes incommodos tanto a ti como a tua mulher; têem sido bons amigos para mim, devo-lhes muitos favores, e é por conseguinte meu dever não os esquecer na hora da minha morte. Quizera ser rico como um nababo para lhes deixar toda a minha fortuna, pois bem sabes que não tenho herdeiros forçados; mas, apezar de ser muito pobre, farei tudo quanto possa para os recompensar em parte de todos os beneficios que recebi.

—Mas, senhor Ernesto, nós é que devemos estar agradecidos ao senhor, disse Mauricio, porque desde que tivemos a fortuna de o vêr entrar para nossa casa, têem sido muito maiores as recompensas que temos recebido do que os insignificantes serviços que lhe temos prestado. Por isso não temos que falar sobre esse assumpto.

—O interesse e o carinho que têem dispensado a este pobre doente, nunca o pagarei sufficientemente. Mas deixemos esse assumpto, e ouve.

Ernesto fez uma pausa, pegou n'um rolo de papeis e n'uma carta, e disse:

—Quando eu morrer, e depois do meu enterro, vaes a Madrid onde tens duas commissões a desempenhar da maior importancia. Esta carta para os meus amigos da rua do Prado, e os tres retratos e esta outra carta para o senhor conde de Loreto. Indubitavelmente{175} todos, ao saberem que deixei de existir, querem saber pormenores da minha morte. Dize-lhes o que vires, a verdade. E agora só me falta dizer-te que encontrarás escripto e assignado n'esta folha de papel, que te deixo como herança, como livre senhor que sou de tudo, que me pertence; isto é, tudo isto que nos rodeia, inclusivamente o pouco dinheiro que eu tiver na gaveta da commoda, é teu e de tua mulher.

Mauricio que havia já um boccado luctava para suster as lagrimas, levou as mãos aos olhos.

—Vamos, não te afflijas; da-me um abraço e vae-te deitar. Só tenho ainda a pedir-te para que ámanhã cedo me tragas um padre, porque é bom pensar em Deus alguns minutos antes de morrer, quem esteve tantos annos occupando-se sómente dos pygmeus da terra.

Mauricio precisava sahir d'aquelle quarto para chorar desafogadamente; entrou na cosinha, contou a Petra tudo quanto se passára e acabaram por desatar em amargo pranto.

N'aquella noite nem Petra nem Mauricio puderam dormir.

De quando em quando vinham em bicos de pés até a porta do quarto de Ernesto, e espreitavam pelo buraco da fechadura.

Ernesto continuava sentado na cadeira, ora escrevendo, ora com os cotovellos encostados na borda da meza, e a cabeça appoiada nas mãos.

Pouco antes de amanhecer, Mauricio montou a cavallo e foi chamar o padre.

Ás sete da manhã, Ernesto viu entrar um velho de rosto bondoso e cabellos brancos. A batina preta, a sobrepeliz, e sobretudo a doce expressão d'aquelle rosto, fel-o comprehender que tinha na sua presença o pastor das almas d'algum povoado proximo.

O sacerdote e o pintor estiveram fechados tres horas. O que disseram pertence ao segredo inviolavel da confissão.

Quando o padre sahiu, entrou Mauricio.{176}

Ernesto disse-lhe:

—Faze favor de pôr uma tela no cavallete e de o levares bem como esta cadeira para proximo da janella. Vou fazer o meu ultimo trabalho.

Ernesto pegou na paleta, nos pinceis e sentou-se porque não podia trabalhar de pé, principiando a esboçar uma Nossa Senhora das Dôres.

Apezar do seu estado, pintava com incrivel ligeireza.

A febre da morte guiava-lhe a mão.

Em dia e meio pintou uma formosa mãe do Nazareno, de corpo inteiro; mas aquella virgem, apezar da doce melancholia do seu semblante, era um perfeito retrato da condessa de Loreto.

Evidentemente aquella obra feita de momento, aquelle trabalho feito ás portas da morte, era uma das melhoras obras de Ernesto.

Mauricio e Petra ficaram assombrados ao verem-no concluido.

—Ah! Que pena um homem assim morrer tão novo! exclamou o rude caçador n'um arranco de sublime enthusiasmo.

—Mauricio, disse Ernesto, quando eu morrer entregarás este quadro ao sacerdote que me ouviu em confissão, e diras que, já que os francezes roubaram de uma capella da sua modesta egreja uma formosa Senhora das Dôres, eu offereço-lhe esta para que a ponha no seu logar, apezar de não valer, estou certo, nem a quinta parte do que valia a outra.

No dia seguinte, Ernesto conheceu que lhe restava poucos minutos de vida.

O sol entrava pela janella.

O enfermo permaneceu cêrca de meia hora com o olhar fito no céu e as mãos postas em religioso recolhimento.

Petra e Mauricio, que estavam a seu lado, não se atreviam a interrompel-o d'aquelle doce extasis.

—Meus amigos, disse Ernesto, extendendo os braços e, pegando nas mãos de Petra e de Mauricio, vêem aquella nuvemsinha branca que está suspensa no espaço?{177}

Os dois olharam para o céu, mas não viram nuvem nenhuma, contudo Petra respondeu com voz fraca:

—Sim.

—Pois bem, no meio d'essa nuvem vem o anjo da morte buscar-me. Oh! É mais bello do que eu o suppunha. Os seus trajes são brancos como o disco da lua, brilhante como a prata polida. Os seus olhos são negros e de um brilho raro. O seu rosto, pallido e cheio de bondade, sorri-se com um sorriso frio que penetra até a medulla dos ossos. Sobre a fronte lê-se a palavra Perdão, e os seus braços extendem-se até mim como para me receber. Ah! Se eu pudesse retratal-o!... Mas experimentemos. Dá-me a paleta e os pinceis! Põe uma tela no cavallete!

Ernesto apertava as mãos de Petra e Mauricio; mas subitamente soltou-os e dando um debil gemido, levou-as aos olhos e disse:

—Não posso!... Não posso!... Perdi a luz dos olhos!... Estou cego!... Amparo!... Amparo!... Amo-te como sempre!... Meu Deus!... Recebei-me!...

Os braços do pintor cairam sem forças, estremeceu todo o corpo, abriram-se-lhe e fecharam-se-lhe tres vezes as palpebras, e um debil suspiro se lhe escapou do peito.

Depois ficou immovel na cadeira e reinou o silencio frio da morte.

A alma do pintor abandonára a materia.

Ernesto já não existia.

Pobre filho do genio! Pobre sonhador que trocou a sua gloria, o seu futuro, por um beijo.

Mauricio e Petra ajoelharam junto da cadeira onde jazia o seu hospede, e com os olhos cheios de lagrimas, resaram pelo eterno descanço d'aquelle desventurado moço que tinha deixado de existir, e em cujos pallidos e entreabertos labios julgavam ver um sorriso triste, lamentoso, como a morte que lh'o produzira.{178}

[CAPITULO XXVIII]