Uma caçada ás raposas

Se nos entretivessemos detalhando dia a dia a vida de Ernesto desde que chegou a casa de Mauricio até ao dia em que deixou de existir, fariamos um livro interminavel. Procuraremos, pois, tocar sómente nos pontos que julgamos mais importantes.

Ernesto, como dissémos, cançava-se muito a subir as encostas, e o ponto que escolhera para caçar não era dos mais commodos.

Um doente de peito pode caçar sem perigo, mas em terrenos planos que não cancem os pulmões; porêm os montes de Toledo, os de Almenara e outros não têem nada de hygienicos para um caçador de pouca saude.

Poder-se-ha matar muita caça, respirar-se ar puro mas são fatigantes em demasia! Ernesto, pois, escolhêra mau sitio para se restabelecer, mas, como a vida lhe importava pouco, era o mais apropriado para lhe dar cabo dos seus arruinados pulmões.

Ernesto tratava-se pouco. Quando sentia a mente cheia de ideias tristes, pegava na espingarda, chamava os cães e sahia. Se tropeçava com um bando de perdizes, segui-as até que, cançado, se deixava cahir no chão, permanecendo ás vezes mais de uma hora soffrendo angustias de morte.

Muitas vezes a noite surprehendeu-o nos barrancos, e Mauricio, sobresaltado, sahia em sua procura; e então o honrado caçador trazia-o ás costas até casa. Petra e Mauricio lamentavam em voz baixa a teimosia de Ernesto em não querer que se chamasse o medico do povoado proximo.{166}

—Está claro, dizia Mauricio. A dôr que o afflige é tal que deseja acabar depressa com a vida, e quando menos pensarmos encontramol-o morto no monte.

Demais Ernesto, cuja fraqueza era em extremo, ia perdendo as forças e o appetite, e tinha caprichos extraordinarios que faziam estremecer Mauricio.

Certa manhã do mez de março (nevára muito durante a noite anterior e o sol que começava a elevar-se no horisonte convertia o gelo em brando rócio que tornava difficil o transito pelas ladeiras dos barrancos). Mauricio e Ernesto estavam no cume de um monte, quando se aperceberam de que andava uma raposa n'um monte proximo. Ernesto disparou, e o arisco animal soltou um grunhido.

O tiro ferira a raposa nas patas trazeiras; mas com o instincto da conservação arrastou-se até a borda de um barranco, deixando-se cair para a frente.

Ernesto correu até chegar á mesma borda do precipicio.

Mauricio gritou-lhe:

—Cuidado, cuidado, senhor Ernesto. Por ahi não ha passagem.

Ernesto dirigiu um olhar para o abysmo, viu a raposa que fazia esforços desesperados para chegar a uma toca, onde por fim se metteu.

—Indubitavelmente tem alli a femea e os filhos. Se pudessemos descer... disse Mauricio.

—E porque não? respondeu Ernesto, avançando intrepidamente até a abertura do abysmo.

—O terreno está escorregadio; é uma temeridade descer por este despenhadeiro. Um pé em falso, uma tontura, precipital-o-hia a quinhentas varas de profundidade, sobre um leito de pedras.

Ernesto inclinou-se, e, agarrando-se a uma matta que vegetava na borda do abysmo, começara descendo, procurando appoio para os pés nas saliencias da rocha e nos arbustos que cresciam entre as fendas.

Mauricio advertiu segunda vez do perigo imminente que o seu hospede corria, mas Ernesto, detendo-se na{167} sua descida e levantando a cabeça, disse sorrindo-se:

—Não receies, meu bom Mauricio, ninguem morre sem que Deus queira; e se succeder faltar-me o appoio que procuro tranquillamente, e precipitar-me no abysmo, previno-te de que na minha carteira acharás um testamento que te livra de toda a responsabilidade.

E continuou descendo.

Mauricio sustinha com trabalho os cães, olhando com admiração para Ernesto.

Não faltava valor ao caçador para descer por aquelle difficil e perigoso caminho; mas isto teria sido uma imprudencia, pois, descendo atraz, augmentava muito o perigo do pintor.

Mauricio era um bom christão, acreditava nos destinos da Providencia, e, calculando que d'aquelle perigo só Deus podia salvar Ernesto, encommendou-o com fervor ao Altissimo.

A descida de Ernesto até chegar ao penedo onde se havia refugiado a raposa ferida, durou quatro minutos.

O pintor dirigiu um olhar sereno para o abysmo, murmurando em voz baixa:

—Mais profunda é a soledade da minha alma.

Mauricio fechou os olhos muitas vezes, julgando que o seu amigo ia despenhar-se, quando ao pôr o pé ou a mão em algum appoio este cedia.

Por fim Ernesto chegou a uma especie de plataforma. Alli estava seguro, mas era extremamente difficil subir, visto necessitar para isso de muita força nos pulsos.

De repente Mauricio, que se dispunha a descer, viu que as pernas de Ernesto se dobravam e que caia desamparado sobre as rochas que o sustentavam, dando com a cabeça n'um sovereiro, que providencialmente o salvou de uma queda fatal.

Mauricio soltou um grito. Ao principio julgou que o seu hospede rolasse para o abysmo, e então era indubitavel que o seu corpo, feito em mil pedaços, não pararia senão quando chegasse ao fundo. Com{168} grande surpresa sua, viu que o mesmo sovereiro que crescia na fenda da rocha deteve o corpo da queda mortal, mas observou tambem que o corpo estava immovel e como morto e que da bôcca sahia algum sangue.

Mauricio, deixando-se levar pelo seu generoso coração, confiado nas suas herculeas forças desceu rapidamente até onde estava Ernesto, completamente desmaiado.

Durante dez minutos fez todos os esforços imaginaveis para o tornar a si; ora lhe chegava a garrafa do rhum ao nariz, ora lhe banhava as fontes com agua fria. Nada: Ernesto parecia um cadaver.

Então, desprezando o perigo que o cercava, tirou a cinta, atou Ernesto a ella, prendendo-o pela cintura, e, com o desespero do naufrago, começou a trepar pela ladeira levando suspenso á cintura o inanimado corpo do seu hospede, que oscillava sobre o abysmo como a pendula de um relogio.

Se a bôa Petra tivesse chegado n'aquella occasião e visto o perigo que o marido corria, certamente morreria de susto. Deus, evidentemente, que vê e premeia as bôas-acções, deu n'aquelle momento forças a Mauricio para chegar ao cume, salvando o hospede e salvando-se elle proprio.

Quando se viu fóra do abysmo, soltou um d'esses suspiros que dilatam o peito e, ajoelhando-se junto ao corpo inanimado do seu companheiro, deu graças á Providencia, que os salvara de tão imminente perigo.

O pintor continuava sem voltar a si.

Mauricio pôz depois as duas espingardas ao hombro, levantou com os seus robustos braços Ernesto e encaminhou-se precipitadamente para casa, que não ficava muito longe.

Petra ao vêl-o entrar pallido, coberto de suor, a respiração offegante e com Ernesto desmaiado nos braços, cujo rosto estava manchado de sangue, soltou um grito de espanto e disse:

—Que foi, Mauricio? Que succedeu? Morreu o senhor Ernesto?{169}

—Não, não morreu, respondeu Mauricio, está apenas desmaiado. Não te assustes e ajuda-me a mettêl-o na cama.

Um quarto de hora depois Ernesto abriu os olhos, dirigiu um olhar vago em redor, e vendo Mauricio e Petra juntos de si, extendeu-lhes as mãos e disse com difficuldade:

—Obrigado, meus amigos, devo-lhes a vida e agradeço-lhes de toda a minha alma, porque não quero morrer emquanto não concluir os tres retratos que prometti ao conde de Loreto.

—Mau! mau! disse o caçador. É verdade que o perigo foi grande, mas já lá vae. Que maldita raposa.

Ernesto não respondeu, mas, pegando na mão de Mauricio, apertou-a de encontro ao peito com fraternal carinho.

[CAPITULO XXVII]