O regresso de Mauricio
Quando Ernesto sahia só, afastava-se pouco da habitação de Mauricio.
Muitas vezes pendurava a espingarda no ramo de um azinheiro, e, subindo com difficuldade ao mais alto monte, sentava-se ahi, ficando largas horas a contemplar a paisagem; outras, sem temer o perigo, descia ao mais fundo dos barrancos, agarrando-se ás plantas, gozando tambem n'aquella silenciosa soledade, onde o menor suspiro faz na concavidade das rochas um echo como se repetisse a voz humana.
Então esquecia os cães, a espingarda e a caça, e a recordação inolvidavel de Florença preenchia-lhe por completo a sua imaginação.{160}
O seu amor por Amparo era tão constante, tão verdadeiro, tão grande, que, enchendo todo o seu ser, formára n'elle uma segunda natureza tão poderosa que era impossivel separar-se d'elle sem perder a vida.
Conhecia, comtudo, toda a loucura da sua paixão, e acceitára-a como se acceita uma d'essas doenças que se não procura e que nos causa a morte.
Se Ernesto tivesse encontrado uma Heloisa, a terra para os dois amantes teria sido um paraiso, mas encontrára uma coquette que lh'a converteu em pantanoso charco, que lhe envenenou o sangue ao aspirar os maleficos miasmas que exhalava.
O seu mal era irremediavel. O amor tem muitas vezes a sua dose de veneno que causa a morte.
Mas, apezar d'isso, o coração de Ernesto era tão grande, tão nobre, tão generoso, que não odiava aquella que era seu tormento, antes pelo contrario, amava-a cada vez mais.
Talvez que ainda lhe restasse um pouco de esperança, e d'essa esperança emanava a doce compaixão que sentia por Amparo.
Por outro lado, o conde de Loreto era um homem digno de ser amado. Quão doloroso teria sido para Ernesto vêr-se preferido por um homem indigno, por um ser desprezivel, como acontece tantas vezes na vida!
Quantos exemplos se podem citar de levianas mulheres que espesinham a honra de homens illustres nos braços de amantes despreziveis!
Ernesto reconhecia no conde grandes qualidades, e isto fazia-lhe menos culposa a conducta de Amparo. Conhecia tambem que, se o conde não fosse um homem superior e menos conhecedor do mundo, sabendo os antecedentes de Roma e Florença e a parecença de Esther com a mulher, tomaria isso por uma grave offensa e o assumpto não teria ficado assim. Talvez um duello, e, por conseguinte, o escandalo que segue casos d'esta natureza, teria augmentado as difficuldades a Ernesto para chegar até Amparo,{161} para ser talvez amado por ella com a vertiginosa paixão do adulterio.
Com a conducta prudente, digna e sabia do conde, evitou todos os perigos que ameaçavam o marido, a mulher e o amante, cortando com um só golpe a cabeça á repugnante maledicencia, que já comecava a levantar-se, sorrindo-se de uma maneira satanica.
Por isso, Amparo e Ernesto admiravam o procedimento do conde de Loreto, e este por seu lado, podia dormir tranquillo, com a segurança de que sua mulher não o trahiria. E emquanto a Ernesto, sabia que de rival intransigente se convertêra em amigo leal.
Amparo, comtudo, passou mal algumas noites. Amava com delirio o marido, mas convencida de que ella era a causadora da doença de Ernesto, temia o momento em que uma carta participasse a sua morte, isto é, que em seu peito entrasse o remorso, que tira o somno, que entristece a alma, que põe uma nuvem no coração.
Mauricio chegou ao monte ao amanhecer do dia seguinte; Petra acabava de se levantar, e ouvindo assobiar correu a abrir a porta.
O caçador não vinha só. Acompanhava-o um homem com tres burros carregados com os objectos que o conde enviára a Ernesto.
—Tudo isto é para nos? perguntou Petra, depois de abraçar o marido.
—É para o senhor Ernesto, que lh'o manda um amigo de Madrid. Mas tambem trago um presente para ti.
—Isso já eu esperava porque os bons maridos não se esquecem das mulheres quando vão ás grandes cidades.
O homem começou a descarregar as caixas e o caixote, deixando tudo junto da porta.
Mauricio entretanto metteu dois dedos da mão direita no bolso do collete e tirou a onza que o conde lhe dera, dizendo em voz baixa:{162}
Pega: isto offereceu-me aquelle senhor a quem levei o javali e os quadros como gorgeta. É para comprares o que quizeres.
—Uma onza! Fizeste bem em a não trocares, porque a mulher cuidadosa pensa sempre no dia de ámanhã, e, quando apanha á mão uma moeda d'estas, guarda-a como um remedio contra as necessidades da vida.
—E o senhor Ernesto? perguntou Mauricio.
—Ainda dorme.
—Hontem sahiu?
—Sim, um boccadito de manhã. Voltou muito cançado e comeu pouco. Coitado! está cada vez mais triste. Esta noite entrei no quarto para vêr se queria tomar alguma coisa, e encontrei-o com os olhos inchados, enegrecidos, como se tivesse chorado. Muito grande deve ser o seu desgosto.
Mauricio guardou silencio; e como o homem já tinha descarregado todos os objectos pagou-lhe, dizendo:
—Petra, dá a este homem alguma coisa de comer e de beber.
Mauricio entrou em casa, dirigindo-se ao quarto de Ernesto, e, como reinava o mais profundo silencio, pensou que se não respondesse, chamando baixinho, seria melhor deixal-o dormir.
Chamou, pois, á porta suavemente, mas a voz do hospede respondeu:
—Quem é?
—Sou, eu, senhor Ernesto.
—Ah! Mauricio! Espera que vou abrir.
Ernesto saltou da cama, abriu a porta e tornou a deitar-se.
—Bem vindo sejas, Mauricio. Não te esperava tão cedo. Abre a janella e dá-me conta da tua missão.
—O conde de Loreto é um sujeito muito generoso, disse Mauricio. Depois de me receber muito bem e de me dar de almoçar como a um principe, deu-me uma onza em ouro.{163}
Mauricio continuou contando tudo quanto se passára em casa do conde e terminou:
—Emquanto a senhora condessa entregou-me esta carta para si e perguntando-me se era casado, disse-me: Pois dê este annel da minha parte a sua mulher para que tratem com muito cuidado o senhor Ernesto.
O pintor sentiu-se commovido até ao fundo d'alma. Mauricio comprehendeu o effeito das suas palavras, e, tirando a carta e o annel, entregou tudo ao hospede.
—Mas este annel é para tua mulher, disse Ernesto, fixando-o com um olhar penetrante.
Mauricio sorriu-se e disse:
—Isso é uma joia bôa de mais para quem está todo o dia a trabalhar. Póde guardal-a. E de mais, Petra não sabe de nada, e olhos que não vêem coração que não sente.
Ernesto não poude conter a sua alegria e lançou-se nos braços de Mauricio, cujo procedimento delicado lhe causou profunda admiração.
—Ah! já me esquecia, disse Mauricio. Tambem os seus amigos da rua do Prado me deram esta carta para si.
E, entregando a carta, sahiu do quarto afim de deixar só o seu hospede, de quem começava a descobrir o segredo.
Ernesto, ao vêr-se só, beijou repetidas vezes o annel, apertando-o depois com delirio de encontro ao peito.
Leu a carta do conde e o post-scriptum da condessa, guardou-a juntamente com o annel n'uma gaveta da commoda, e, procurando serenar, disse:
—Ella não me esqueceu; isto sempre serve de consolação para o meu peito. Vejamos o que me dizem Marcial e André, os meus bons amigos.
Ernesto então leu:{164}
«Illustre Robinson dos montes de Toledo
«Recebemos a tua cabeça e o teu lombo. e ámanhã brindaremos á tua saude no restaurant do Armiño.
«Não deves admirar-te de que te tenhamos na conta de um animal feroz, pois que outro nome não merece o homem que deixa as delicias de Madrid pelos selvagens barrancos dos montes de Toledo.
«Agora outro assumpto. Tens todas as probabilidades que te concedam o primeiro premio ao teu celebre quadro de Esther. Se assim fôr, iremos entregar-te a medalha de ouro, e beber comtigo uma duzia de garrafas de Champagne.
«Procura, comtudo, restabelecer-te rapidamente e voltares, porque nós preferimos comer sentados em volta de uma mesa, pisando alcatifas, recebendo o calor de fogões e a luz do gaz, do que comer no campo sobre o duro chão, acariciado pelas formigas e outros animaes importunos.
«Estimando-te sempre e admirando como nunca.
«Somos teus amigos
«Marcial e André.»
Ernesto sorriu-se tristemente quando acabou a leitura da carta.
—Ah! exclamou. Que feliz que é o mortal que encontra uma mulher que o ama e dois amigos leaes e carinhosos! Mas a felicidade nunca é completa para o homem. Só encontrei os amigos. Onde acharei a mulher?
E deixando cahir a cabeça sobre o peito melancholicamente, ficou immovel como uma estatua.{165}