Uma carta e um annel

Ernesto deixou-se cahir na cama, e como sempre, o seu pensamento occupou-se de Amparo.

—Ámanhã, disse, falando comsigo, ouvirá pronunciar o meu nome, e no fundo da sua alma renascerá a recordação das noites de Florença. Os seus labios, vermelhos como bagos de romã, recordar-se-hão tambem d'esse beijo fatal que me fez o mais desgraçado dos homens, e pela mente do conde de Loreto cruzará debil, mas ameaçador, o phantasma de uma duvida, a sombra de uma suspeita.

Ernesto tinha sempre na mesa de cabeceira uma garrafa de rhum; extendeu o braço, pegou na garrafa e bebeu um gole.

—Ha quasi um mez sem a vêr, continuou, e comtudo a ausencia não apagou o fogo devorador d'esta paixão que me abraza. O conde de Loreto tinha mais direito do que eu para ser amado, mas indubitavelmente não a ama tanto. E que importa isso ás mulheres? O conde é rico, nobre, e a vaidade é o dominio tentador do bello sexo. Se o amor é o fogo d'alma que transmitte calôr ás ideias dos homens de genio, devo fazer grandes quadros.

E Ernesto soltou uma gargalhada, pegou novamente{152} na garrafa, e quasi a despejou de um trago.

Na sua physionomia, no seu olhar, assomaram os symptomas da embriaguez produzida pelo alcool.

Com a lingua, presa e balbuciante, começou a falar em voz alta.

—A luz dos seus bellos olhos é o unico reflexo que illumina as profundas trevas da minha alma, a que acompanha a fria soledade do meu coração; as seis lettras do seu nome, as notas mais harmoniosas que resôam no fundo do meu peito. Insensato! A tua vida não é mais do que um sonho, que se desvanece ante o sopro da realidade. Tu recebeste tres beijos, durante tres noites de luar; aquelles beijos encerravam o veneno do teu sangue. A tua vida não é vida; o teu amor é só uma recordação. Onde está a morte? Porque tarda tanto? Porque não chega, quando a espero de braços abertos?

Ernesto fechou os olhos. Os seus labios entreabriram-se para deixar passar um suspiro, e ficou dormindo pensando em Amparo.



Mauricio entrou no quarto do seu hospede ás cinco da manhã.

Ernesto levantou-se.

—Está tudo prompto para partires? perguntou.

—Sim senhor; tenho o javali grande preso convenientemente ao cavallo. Á femea, segundo as suas ordens, tirei-lhe a cabeça e o lombo; o resto fica em casa.

—Espera, disse Ernesto.

E pegando n'uma carta que estava sobre a mesa e n'uma tira de papel, continuou:

—Entregas esta carta, o javali grande e estes dois quadros ao senhor conde de Loreto, rua do Barquillo, n.º..., e comprarás tudo o que vae mencionado n'esta lista.

Ernesto abriu uma gaveta da commoda, tirou dez moedas de cinco duros e entregou-as a Mauricio.

Depois escreveu rapidamente n'uma folha de papel:{153}

«Meus bons amigos

Marcial e André

«Remetto-lhes uma cabeça de javali que cosinharão no restaurante do Armiño para almoçarem com alguns amigos, bebendo por este caçador selvagem que se não esquece de vocês.

«Sempre amigo

«Ernesto.»

—A cabeça e o lombo da femea entrega-os onde diz este envellope, rua do Prado. Vae com Deus e vem ámanhã, se te fôr possivel.

Mauricio sahiu, despedindo-se da mulher, e encaminhou-se para Toledo, onde devia tomar o comboio de Madrid.

Ernesto pegou na espingarda, chamou os seus cães Roma e Florença, e sahiu tambem em busca de perdizes, prevenindo Petra de que não viria almoçar antes do meio dia.



O conde de Loreto, Amparo e D. Ventura estavam almoçando quando entrou um creado dizendo-lhes que estava á porta um homem que parecia um montanhez, que trazia uma carta, um javali e uns quadros.

—Ah! exclamou o conde, Ernesto cumpriu a sua palavra. Dize a esse homem que suba e tragam vocês o javali para o vêrmos.

Dois creados trouxeram o javali para cima de uma mesa.

—Soberbo animal! exclamou Fernando. Pelas cerdas e pelos dentes bem se vê que deve ser velho.

—Oito annos, respondeu Mauricio. Vale bem a onça de chumbo que lhe deu a morte.

—Pelo que vejo, Ernesto diverte-se pelos montes?

—Diverte-se, exclamou o caçador, tudo menos isso;{154} está muito doente, dorme pouco e não tem appetite. A bem dizer que se alimenta só com café e rhum. Tenho cá um palpite em que não morrerá de velho.

Todos escutavam com interesse as palavras de Mauricio.

—Disseram-me que traz uma carta e uns quadros, disse Fernando.

—A carta está aqui: os quadros deixei-os n'aquella casa.

O conde leu em voz alta o seguinte:

«Senhor conde de Loreto

«Ignoro ainda se é proveitosa ao meu corpo esta soledade em que vivo ha vinte dias, mas conheço que é ao espirito.

«No cume d'estas montanhas não se vêem homens, não se encontra a animação nem o bulicio das grandes cidades, mas o ar é mais puro, o horisonte mais limpido, o ambiente mais perfumado e respira-se com mais facilidade.

«Seja como fôr, espero sem sobresalto que se resolva o problema da minha enfermidade, sem me occupar muito se será ou não vantajoso o desenlace.

«Com o portador d'esta, caçador infatigavel e amigo leal, em casa de quem vivo no meio d'estes barrancos solitarios, remetto-lhe o primeiro javali que matámos e dois quadros sobre assumptos de caça, genero a que tenciono dedicar-me emquanto tiver forças para sustentar o pincel.

«Não marco preço aos quadros que lhe envio, porque d'isso falaremos depois de lhe mandar doze. Demais, ainda que pobre, hoje não preciso de dinheiro, mas avisál-o-hei quando precisar. Seja, portanto, o meu banqueiro.{155}

«Para lhes provar que não os esqueço, desejava que me concedessem auctorização para fazer trez retratos de memoria, ainda que se admire ao vêl-os, o meu leal amigo D. Ventura.

«Deponha aos pés da senhora condessa os meus respeitos, dê um abraço em seu sogro e não esqueça que n'este deserto fica esperando occasião de lhe ser util

«o seu amigo e obrg.º

«Ernesto Alvarez.»

Amparo ouvira lêr a carta sem descerrar os labios, mas agradecia do fundo da alma a fórma delicada como estava escripta.

Só lhe prendeu a attenção a auctorização que pedia para pintar os tres retratos, entre os quaes devia figurar o seu.

—Quando tenciona voltar para Toledo? perguntou o conde ao caçador.

—Desejava ir esta noite no comboio das sete e quarenta. Os meus affazeres em Madrid, depois de sahir d'esta casa, resumem-se apenas a algumas compras de que o senhor Ernesto me encarregou, e entregar uma cabeça de javali e um lombo a uns senhores que moram na rua do Prado.

—Tem algum inconveniente em me dizer que objectos o senhor Ernesto o encarregou de comprar.

—Não, senhor; aqui está a relação.

E Mauricio entregou-a ao conde que depois de lêr, disse:

—Meu amigo, tenho em casa tudo quanto Ernesto deseja; não precisa, pois, ir comprar cousa alguma. Agora vá almoçar emquanto escrevo uma carta, depois irá levar a cabeça a esses senhores, e meia hora antes do comboio partir encontrará na estação, despachado para Toledo, tudo quanto Ernesto pede.{156}

Mauricio com sinceridade natural, ia entregar ao conde o dinheiro que Ernesto lhe dera.

—Não, esse dinheiro entregue-o a quem lh'o deu, e demais, far-me-ha o favor de acceitar esta onza,[[2]] para comprar um presente a sua mulher.

Mauricio tentou recusar a onza, mas o conde obrigou-o a acceitál-a.

Depois, conduziram-n'o a outra casa onde lhe serviram o almoço.

O conde escreveu entretanto a seguinte carta.

«Amigo Ernesto

«Os quadros são bellos e o javali soberbo. Quando os homens têem talento trabalham em todos os generos. Obrigado pela sua boa memoria, obrigado, porque se não esqueceu de nós, apezar do mal que lhe temos feito.

«Pede-me auctorização para fazer tres retratos; concedo-lh'a satisfeito não só por lhe ser agradavel a si como tambem ás pessoas que vão ser retratadas nas telas.

«Desejava passar uma temporada na sua companhia para caçarmos juntos, e para vêr se o convencia a abandonar essa vida solitaria, principalmente durante os quatro mezes de rigoroso inverno.

«Até então veremos o que posso conseguir. Hei de fazer a diligencia.

«Fico esperando os doze quadros que me annuncia na sua carta, o que me prova que se sente animado para o trabalho.

«Adeus, meu amigo, e não esqueça que lhe desejamos todas as propriedades.

«Sempre seu amigo,

«Fernando del Villar.»{157}

O conde leu a carta á mulher e disse:

—Agora, minha querida, escreve quatro linhas ao nosso amigo; talvez isso lhe faça bem.

Amparo olhou o marido, receando que aquelle desejo envolvesse uma intenção pouco agradavel.

O conde sorriu-se porque comprehendêra a duvida da mulher. Mas rodeando-lhe a cintura, e, dando-lhe um beijo apaixonado, disse-lhe:

—Leio nos teus olhos, minha querida, a desconfiança, e sinto-o; isso indica-me que me amas muito, mas que me conheces pouco. Escreve a Ernesto, sou eu que t'o peço. Quatro palavras tuas far-lhe-hão bem, o desgraçado ama-te de toda a sua alma. Muito desgraçado o fizemos. Não sejamos egoistas até ao ponto de sermos malvados gozando com a sua agonia, com a sua dôr, que só terá fim com a morte. Escreve-lhe, pois, o que quizeres, Amparo.

O conde sorrindo-se com bondade, e dando segundo beijo na esposa, continuou:

—Não lerei o que escreves. Adeus. Quando acabares fecha a carta e entrega-a tu mesma a esse homem.

E o conde sahiu.

Amparo ficou com a carta na mão e como que pregada ao chão.

Aquella confiança que o marido acabava de mostrar era verdadeira ou um laço?

Amparo não podia crêr na hypothese de um laço n'um homem tão generoso como Fernando.

O conde de Loreto não era um homem vulgar. Amava a mulher, perdoára-lhe o seu coquettismo com Ernesto antes de o conhecer a elle, calculava as dôres e os soffrimentos do pintor a quem estimava devéras e por isso disséra á mulher que escrevesse.

Amparo sentou-se, pegou na penna e durante dez minutos não soube como começar.

De subito teve uma ideia. Os olhos brilharam-lhe, o semblante reanimou-se-lhe: dir-se-hia que receava{158} transmittil-a ao papel, mas fazendo um esforço, e com mão mal segura, escreveu:

«Senhor Ernesto

«Ja que meu marido o auctoriza a fazer os tres retratos, e julgando que d'elles um será o meu, peço-lhe, (queira perdoar este capricho de mulher), que se não esqueça do vestido que tinha em Roma quando veiu offerecer-me o que fizera, e que ainda conservo sobre o fogão do meu gabinete.

«Trate-se, porque desejamos em breve vêl-o completamente restabelecido.

Amparo.»

A condessa fechou a carta e foi entregál-a a Mauricio, que já tinha acabado de almoçar.

—Entregue esta carta ao senhor Ernesto, mas só a elle, disse-lhe.

—Sim, senhora condessa.

Amparo ia a sahir, mas deteve-se.

—É casado? perguntou.

—Sim, minha senhora.

—Então faça favor de dar da minha parte este annel a sua mulher, e recommendar-lhe que trate do senhor Ernesto com todo o carinho.

E Amparo como que envergonhada por aquelle arranco, tirou um annel do dedo, entregou-o a Mauricio e sahiu, dizendo para comsigo:

—Assim comprehenderá que me não é indifferente o seu soffrimento e que a sua morte me ha de custar algumas lagrimas.

Mauricio ficou um momento immovel. Pensava se aquella mulher tão formosa teria alguma coisa que vêr com os padecimentos do seu hospede.



Á hora indicada pelo conde, Mauricio estava na{159} estação, onde um creado lhe entregou uma guia do caminho de ferro.

—Que é isto? perguntou elle.

—Da parte de meu amo, o senhor conde de Loreto. Com esta guia lhe entregarão em Toledo, pois que foram expedidas em grande velocidade, duas caixas e um caixote grande. N'ellas vae tudo quanto o senhor Ernesto encommendou.

Mauricio guardou a guia na carteira e entrou para a gare, tomando então logar n'um compartimento de terceira classe.

Durante a viagem, o caçador olhou muitas vezes para o annel, e pensava em quem lh'o dera, dizendo de si para comsigo:

—Parece-me que vou descobrindo alguma cousa do segredo!

[CAPITULO XXV]