Uma caçada
Durante oito dias Ernesto não tornou a pegar na espingarda. De manhã, pintava, á tarde, seguido pelos cães dirigia-se a um monte proximo de casa, sentava-se na parte mais alta e como gozava disfructando o panorama que aquelle sitio apresentava, passava largas horas immovel como uma estatua.
Algumas vezes, já noite, Mauricio ia buscal-o e ambos regressavam a casa.
Ao nono dia, Ernesto chamou Mauricio.
—Desejo que vás a Madrid, disse-lhe, entregar este quadro á pessoa que te indicarei, mas preciso primeiro que matemos um javali, para offerecer á mesma pessoa.
—Para isso é preciso fazermos uma espera toda a noite, e como o senhor está muito fraco...
—Não te inquietes com a minha fraqueza; esperaremos. Preciso de um javali.
—Posso matal-o sósinho, se quizer.
—Não, não; quero acompanhar-te. Quando póde ser?
—Esta noite; sei onde se vae banhar uma manada d'elles, e é infallivel matar-se algum.{143}
—Um só chega.
—Pois matar-se-ha.
—Então prepara tudo para esta noite.
—Devo advertil-o de que o sitio onde vamos fazer a espera, fica a tres quartos d'hora de caminho d'aqui.
—Não faz mal, iremos com antecedencia. Sahiremos cedo.
—Bem, bem.
Mauricio sahiu do quarto de Ernesto, meneando a cabeça em signal de desgosto, chegou á cosinha, onde estava sua mulher, e disse-lhe:
—Petra, esta noite o senhor Ernesto quer que vamos á espera dos javalis: tem desejos de matar um. Por isso cearemos uma hora antes de pôr o sol. Talvez não voltemos em toda a noite.
—Mas isso é uma loucura. O sr. Ernesto não está em estado de passar tantas horas ao relento da noite.
—Então que queres, embirrou que me ha de acompanhar!
—Mas não acho bôa a vida que leva para quem precisa restabelecer-se.
Mauricio encolheu os hombros, e, sentando-se num banco, enrolou um cigarro.
—Estamos em quarto minguante. Para matar uma ou duas peças é preciso ir aos charcos do barranco da Culebra, pois vão ali de noite beber agua e fossar no barro. O caminho não é dos melhores. Queira Deus que possa lá chegar.
—Já lhe disseste isso? Porque não vae a cavallo?
—Já, mulher, já; mas diz que quer ir a pé e quando elle teima não ha outro remedio senão obedecer.
Petra approximou-se do marido, e, baixando a voz, disse:
—Dize-me, Mauricio. Tu conhécel-o ha muito tempo?
—Sim, cacei com elle muitas vezes e sempre foi o melhor e o mais generoso homem do mundo.
—E tinha o vicio que tem agora?{144}
—Não, Petra, antigamente não bebia bebidas brancas, bebia sómente vinho, e isso mesmo pouco. Hoje, como sabes, quasi todas as noites...
Mauricio deteve-se, dirigiu um olhar para a porta, e depois continuou:
—Hontem reprehendi-o amigavelmente, dizendo-lhe que não lhe podia fazer bem beber tanto rhum, e elle, pondo-me uma mão no hombro, e sorrindo-se com expressão bondosa, respondeu-me:
—Caro Mauricio, ha dôres tão terriveis, desgostos tão profundos, que para os esquecer algumas horas é preciso embriagarmo-nos. A minha doença não tem cura; deixa-me, pois, beber, esquecer, dormir.
—Quando eu disse que havia aqui algum mysterio!... disse Petra.
—Tambem me parece que tens razão; aqui deve haver mysterio.
—Sabes o que calculo? Que tudo isto deve ser obra de mulher.
—E porque calculas que seja obra de saias?
—Vaes vêr. Outro dia entrei no quarto para o tratar, como de costume, e encontrei debaixo da almofada uma fita de seda, e um boccado de tela, onde estava pintada uma cabeça de mulher extremamente formosa. Não tive tempo para mais do que olhar rapidamente para estes objectos e tornal-os a pôr no mesmo sitio em que os encontrei quando o vi entrar, precipitadamente, dirigir-se para a cama, pegar n'elles e sahir do quarto do mesmo modo, olhando-me de um modo estranho, como se quizesse adivinhar se eu tinha visto. Fiz-me desentendida, e continuei arrumando o quarto.
—Que curiosas são as mulheres.
—Juro-te que só por casualidade...
—Emfim, seja como fôr, visto que elle nada nos disse, nos não lh'o devemos perguntar.
Como se vê a conducta de Ernesto causava viva curiosidade ao honrado casal.{145}
Ao cair da tarde Ernesto e Mauricio levantaram-se da mesa.
—Levamos Roma e Florença? perguntou o pintor.
—Parece-me melhor deixal-os em casa, respondeu Mauricio; não estão costumados ás esperas, e poderão espantar-nos a caça. Levarei antes o meu podengo para que procure a presa no caso de ficar ferida. Currito (assim se chamava o cão de Mauricio) deita-se a meus pés e não se move d'ahi.
—Vamos quando quizeres.
Mauricio carregou com escrupuloso cuidado a espingarda e guardou um frasco de rhum no bolso. Ernesto pegou na sua e sahiram.
O sol começava a declinar.
—Temos tempo, disse Mauricio. D'aqui até aos charcos levaremos quando muito tres quartos de hora. Reconheci esta manhã o terreno e calcúlo pelas pégadas que são uma femea com sete a oito filhos, e dois machos que não devem ter menos de dez annos. Os machos veem sós, antes ou depois da femea. Parece-me que nos divertiremos, mas é preciso ter muita paciencia, porque apezar de todas as rezes abandonarem as tocas quasi á mesma hora, umas estão mais longe do que outras do barranco e chegam por conseguinte mais tarde. Tenha cuidado em fazer fogo sobre a peça antes d'ella entrar n'agua. Se cair morta fique quieto, porque quando o charco estiver silencioso, em poucos minutos apresentar-se-nos-ha outra, e assim successivamente se podem disparar alguns tiros durante a noite. O sitio onde vamos é bom, e estaremos perfeitamente collocados.
Ernesto ouvia satisfeito as lições que lhe dava aquelle homem experimentado.
Mauricio que como todo o caçador de profissão tinha uma vista privilegiada, deteve-se, inclinou-se para reconhecer o caminho, e disse:
—Ola! Por aqui passou um veado de dez pontas novas; aqui ha pégadas recentes; os córtes na herva{146} são frescos. A femea caminhava mais á direita: passou por aqui.
—Mas como diabo conheces se é femea ou macho? perguntou Ernesto, admirado da certeza com que Mauricio falava.
—Isso salta bem a vista. Um montanhez practico nunca se engana. O veado tem o passo maior do que a corça, e deixa a pégada mais profunda, caminha com mais regularidade, e colloca a pata trazeira sobre a pégada da pata deanteira. A corça tem o pé mal feito, os seus passos são mais curtos, e por conseguinte, não chega com as patas trazeiras ás pégadas das patas deanteiras. Emquanto ao conhecimento pelas pégadas, é unicamente devido á grande practica. Quando se segue um rasto pelas pégadas, o caçador deve conhecer se o veado que persegue é estaquero, isto é, se lhe começam a sahir os paus, tem um anno; enodis, tem tres a quatro annos, diez condiles nuevos, se entrou nos seis annos, ou ciervo viejo, se tem mais de dez annos. A estes conhece-se facilmente; têem os pés deanteiros mais desenvolvidos do que os trazeiros.
Depois d'estas explicações que deixaram Ernesto satisfeito, receou não as poder pôr em practica sem commetter grandes erros.
De vez em quando o caçador dirigia um olhar furtivo ao seu companheiro, cuja pallidez e difficil respiração o inquietavam.
A meio da ladeira, que tinham que transpôr para chegarem aos charcos, situados em um dos barrancos, Mauricio deteve-se e disse com manifesto interesse:
—Senhor Ernesto, vejo que está muito cançado. Quer encostar-se ao meu braço?
—Não preciso, mas vamos mais devagar, se te parece.
Como quizer.
Quando chegaram ao cume, Ernesto teve necessidade de se sentar e, encostando os cotovellos sobre os joelhos, deixou cahir a fronte entre as mãos.{147}
O caçador não disse nada; de pé, immovel, ficou contemplando Ernesto com tristeza.
Mauricio não tinha palavras, mas sobrava-lhe coração para compadecer-se do seu hospede, a quem julgava gravemente enfermo.
—Podemos continuar, disse Ernesto, levantando-se.
—Agora o caminho é mais facil, respondeu Mauricio. Os charcos estão n'esse barranco; antes de um quarto de hora estaremos commodamente sentados nos nossos postos.
Mauricio seguiu por uma vereda aberta entre a matta. Ernesto caminhava atraz.
De vez em quando o caçador voltava a cabeça para vêr se o seu companheiro o seguia.
Quando chegaram aos charcos ainda restavam alguns instantes de dia. As magestosas sombras da noite avançavam com rapidez, mas a lua ia rapidamente tornal-as menos escuras, pois o seu disco despontava já no horisonte.
—Parece-me conveniente que fiquemos juntos, porque assim quando estiver cançado voltaremos para casa, disse Mauricio.
—Mas mataremos menos caça.
—Quem sabe! Podem entrar juntas e então cada qual escolhe a sua.
Mauricio conhecia varios esconderijos em torno do charco e escolheu, pelas recentes pégadas dos javalis, o que lhe pareceu melhor; dobrou o capote, e estendeu-o no chão para que Ernesto estivesse mais commodamente e esperaram calados.
A noite é mais magestosa, mais imponente, mais bella no meio do Oceano ou n'uma montanha, do que nas ruas de Madrid. Nas grandes cidades vê-se por toda a parte a mão do homem, mas no mar ou na montanha vê-se a de Deus.
Ernesto e Mauricio esperavam no mais profundo silencio. O pintor entretinha-se contemplando o magnifico astro da noite que subia magestosamente pelo céu enchendo o espaço de poetica e melancholica luz,{148} que cahindo como chuva de perolas sobre as armadas das arvores e sobre as silenciosas aguas do charco, dava um tom encantador á paisagem.
Ernesto, como pintor, pensava em fazer um estudo d'aquelle logar e pintar depois um quadro; mas ao mesmo tempo pensava na mulher do homem que se compromettera a comprar-lhe tudo quanto pintasse durante a sua estada nos montes de Toledo.
A presença da lua, o imperceptivel movimento das ramadas dos azinheiros, o silencio da noite que o rodeava, fizeram-lhe recordar Florença. Fechou os olhos para sonhar acordado, e os seus labios entreabriram-se em doce extasis, como se fôsse a dar e receber um apaixonado beijo de amor.
N'aquelle momento para elle não existia mais do que o presente. A sua vida era uma recordação; a sua alma apaixonada apresentava-lhe com todas as côres da verdade as scenas apaixonadas e perdidas para sempre, causa da sua desgraça, origem da sua morte.
Se tivesse entrado no charco um bando de cincoenta rezes, Ernesto não ouviria; mas, felizmente tinha ao seu lado Mauricio, caçador de profissão, que sem ter a imaginação preoccupada com outra cousa que não fosse o fim para que fôra até alli, estava com o olhar fixo, o ouvido attento e a espingarda prompta a despedir a morte e como o verdadeiro caçador que quando faz uma espera tem o ouvido e a vista tão perspicaz como a da perdiz, e por isso sem duvida Ernesto sentiu que o seu companheiro lhe tocava no braço.
Ernesto abriu os olhos.
—Acorde, que já as ouço.
—Não estou a dormir, respondeu o pintor, mas não ouço nada.
—Pois já se approximam, tenha a certeza, ainda estão longe, e são femeas; conhecem-se pelo barulho que fazem. Os machos veem sempre mais silenciosos.
Ernesto applicou o ouvido, e, depois de um segundo{149} de immobilidade, meneou a cabeça dizendo:
—Pois eu não ouço nada.
—Sim? Pois tenha paciencia que não tardará muito que tenha de tapar os ouvidos, porque a musica d'ellas, quando andam em manadas, não é por certo das mais agradaveis. Veem a entrar por aquella clareira que está na nossa frente. Antes de se metterem n'agua, de que tanto gostam, param para conhecerem o terreno. Então deve fazer fogo, apontar á maior que ficar a sua esquerda; eu entreter-me-hei com a direita a vêr se, disparando ao mesmo tempo, matamos duas.
E Mauricio, collocando o bico do pé esquerdo sobre o de Ernesto, disse:
—Quando carregar com o meu pé, faça o gosto ao dedo e faça fogo. E agora silencio que já estão perto.
Dois minutos depois, Ernesto ouvia a algazarra que Mauricio lhe annunciára.
Esperaram, pois, pelo momento opportuno que se não devia fazer esperar muito.
No sitio que Mauricio indicára appareceu de repente uma femea muito grande seguida de seis javalis pequeninos cujas desegualdades de tamanho indicavam ser de duas ninhadas differentes.
Ernesto pudéra ter feito fogo á femea; estava uns cinco passos afastada dos filhos, levantando a cabeça em direcção aos charcos.
O pintor olhou para o seu companheiro como que a interrogál-o, mas o caçador indicou com um movimento de olhos que esperasse. E effectivamente a uns vinte metros de distancia do logar em que estava a femea, abriu-se uma clareira e appareceu um javali quasi do dobro do tamanho da femea.
A lua estava tão clara que os caçadores viram perfeitamente os animaes.
Ernesto sentiu o pé de Mauricio comprimir o seu, e como tinha a espingarda apontada, disparou.
As duas detonações produziram no espaço um só echo.{150}
A bala de Mauricio foi tão bem apontada que o javali deu um salto, caindo sem vida depois de soltar um grunhido de raiva. A femea, a que Ernesto apontára foi ferida na cabeça; deu duas voltas, quiz fugir, mas foi cair junto ao charco; depois fez um esforço supremo, levantou-se novamente, entrou na agua para tornar a cair revolvendo-se nas ancias da morte, soltando grunhidos desesperados que pouco a pouco foram enfraquecendo.
Os demais tinham desapparecido como por encanto.
Mauricio ouvia as palpitações do coração de Ernesto cujo ruido e precipitação o assustaram.
—Está peor? lhe perguntou.
—Não, não; é o prazer que experimento n'este momento. Se tornasse a renascer em mim a paixão da caça, talvez esquecesse uma historia que me assassina, que será a causa da minha morte.
O pintor revelára a Mauricio n'um arranco de enthusiasmo, a causa da sua melancholia, a origem da sua doença.
—E que fazemos agora? perguntou Ernesto.
—Primeiro que tudo castrar o macho para que sangre e a carne perca o gosto a bravo.
Mauricio levantou-se, tirou a faca de matto da bainha, e sahiu do esconderijo, dirigindo-se para o sitio onde estava o javali.
Ernesto segui-o, examinando com o mais particular interesse todas as operações que Mauricio fazia ás duas peças mortas.
O caçador depois de lhe abrir todo o ventre e de lhe tirar os intestinos, pendurou-os pelos pés para que sangrassem e ficassem limpos. Depois lavou as mãos na agua do charco, e disse:
—Agora diga-me se quer dar por terminada a caçada ou quer fazer nova espera, apezar de me parecer melhor, o primeiro caso, pois é preciso esperar pelo menos duas horas até que volte outro javali.
—Vamos para casa. E as rezes?{151}
—Ficam ahi. Venho logo buscal-as com o meu cavallo.
—Então dá-me um gole de rhum, e a caminho. Passei um bom boccado.
Ernesto bebeu e deu o frasco a Mauricio. Depois dirigiram-se para casa onde o pintor chegou bastante fatigado.