Vida de recordações
A mulher de Mauricio não conhecia Ernesto; mas vendo-o chegar com o marido e toda aquella bagagem, disse:
—É um principe que entra para nossa casa.
E effectivamente, o pintor foi para aquelle honrado casal tanto como um principe, a julgar pela generosidade com que pagava os serviços que recebia.
Petra ficou louca de contentamento, vendo sobre uma cadeira o presente que Ernesto lhe trouxera, e que constava de um vestido de lã, um lenço de seda e uns brincos de ouro e coral.
Mauricio examinava tambem com satisfação uma{137} espingarda de dois canos, de fabrico belga, e uma forte e boa faca de matto.
—Mauricio, disse Ernesto, depois de entregar os presentes; estou muito doente e venho passar algum tempo comtigo. Sei que vives da caça. Nomeio-te meu caçador, e dou-te um duro por dia. Aqui tens adeantadamente dois mezes.
Ernesto pôz na mesa sessenta duros.
Mauricio e Petra olharam para o dinheiro, sem comprehenderem uma palavra de tudo aquillo.
—A caça que matarmos, exceptuando algumas peças que Petra cosinhará, é tua e pódes vendêl-a e guardar o dinheiro. Eu comerei com vocês. Nada de cerimonias, o modesto cosido e uma vez por outra uma perdiz com molho de villão ou um coelho á caçadora, de que muito gósto, e por isso para prato darei doze reales diarios. O café e o vinho ficam por minha conta. Por agora aqui têem esse caixote, onde estão varias garrafas. Preciso que me cedam a sala, porque tenciono pintar alguns boccados. Tambem virei a precisar que de vez em quando vás a Madrid levar os quadros que pintar e comprar varias cousas que me tornem mais ameno este deserto. Emfim, meu caro Mauricio, sei que vou dar-te muitos incommodos, que vaes ter muitos carinhos para commigo, mas eu procurarei recompensar-te o melhor que puder.
—Offerece-me muito, disse o caçador, visto poder vender uma parte da caça que matarmos, e então com o senhor que atira tão bem ou melhor do que eu!...
—Mas estou doente, e já não tenho as infatigaveis pernas d'outros tempos; e muitos dias deixaremos de matar por causa d'ellas.
Durante aquelle dia, Ernesto, Mauricio e Petra occuparam-se em arrumações, transformando a sala em atelier para o pintor.
—Agora, meus amigos, só me falta advertil-os d'uma cousa, disse Ernesto. Estou doente, e como todos os doentes tenho as minhas rabugices. Quando{138} estiver no meu quarto, depois de me chamarem duas vezes para comer e eu não vier, comam sem esperarem por mim.
Mauricio e Petra notaram que Ernesto estava muito pallido e com mau parecer, que tinha uma tosse tão sêcca e importuna que não prophetisavam nada de agradavel para o seu hospede.
Quando Mauricio e sua mulher recolheram ao quarto, ella disse:
—Uhn! Parece-me que o senhor Ernesto não viverá por muito tempo.
—O mesmo penso eu.
—Sabes, Mauricio, que me parece que deve haver algum mysterio em tudo isto?
—Anh! As mulheres não pensam n'outra cousa. Aqui não ha outro mysterio senão que o senhor Ernesto está doente e que se vem restabelecer.
—Seja como fôr, que seja bem vindo, porque com elle veiu a fortuna.
Mauricio não respondeu. Como a mulher, suspeitára que algum desgosto atormentava o seu hospede, mas mais prudente que Petra, disse de si para comsigo:
—Dêmos tempo ao tempo que saberemos a verdade. Emfim, seja como fôr, Ernesto é bom rapaz e sinto-me satisfeito por vêl-o em minha casa.
Ernesto estava fechado no quarto. Seriam onze horas da noite. O luar entrava pela janella que se conservava aberta. A brisa nocturna levava até elle, de envolta com as suas invisiveis pregas, o perfume das silvestres plantas do monte.
Aos pés da cama, sobre duas pelles de carneiro, dormiam os dois cães que Ernesto baptisára com os nomes de Roma e Florença.
O pintor, sentado junto de uma mesa, tinha na sua frente uma garrafa de cognac e um copo.
Não illuminava o quarto outra luz senão a do astro da noite.{139}
De vez em quando Ernesto bebia um gole de cognac e levava a mão ao peito, respirando com difficuldade.
—Ah! Sim, sim, dizia, falando comsigo. A solidão dos montes, é o que me convêm, porque longe da importuna charlatanice dos homens poderei dedicar a ella todos os momentos da minha vida. Quizera apagar da minha alma a recordação d'aquellas noites de Florença e arrancar dos meus labios o beijo de fogo que me queima o coração. Mas é impossivel! Cada vez a amo mais. Que seja feliz já que eu o não posso ser!
Ernesto bebeu de um só trago o conteúdo que ainda tinha no copo e encheu-o novamente.
—A embriaguez sempre me repugnou, continuou, mas é o meu unico recurso para esquecer. Que feliz é o homem que esquece!
E Ernesto esvasiou o segundo copo, fazendo um gesto de repugnancia; mas dominando-se a si mesmo encheu-o pela terceira vez, despejando-o rapidamente.
—Abraza-se-me a garganta, murmurou, mas é preciso que durma e que esqueça.
E, levantando-se tirou uma garrafa de champagne do armario onde as arrumára, fez-lhe saltar a rolha, e bebeu com avidez, dizendo:
—Este é que é o grande vinho! Vinde, sonhos côr de rosa! Vinde, ainda que seja uma mentira, uma illusão, fumo que desappareça ao sopro terrivel da realidade!
E depois de exgotar a garrafa, deixou-se cahir na cama, onde não tardou muito que adormecesse, porque estava completamente embriagado.
Mauricio e Petra levantaram-se com o sol, e viram, com grande assombro, ao passarem pelo quarto de Ernesto, que as janellas estavam abertas.
—Sahiria tão cedo? disse Mauricio.
E entrou no quarto.
Ernesto dormia. Mauricio fechou a janella e sahiu{140} nos bicos dos pés para o não despertar, mas toda a precaução foi inutil, porque Ernesto abriu os olhos e viu-o.
—Ah! És tu? disse elle. Bons dias, Mauricio. Que bem que dormi.
Mauricio reparou então que o seu hospede não se despira, e que sobre a mesa estavam duas garrafas despejadas.
—Sabes, Mauricio, que estou com vontade de experimentar os meus cães?
—Podemos dar uma volta, se quizer.
—Mas é preciso ter alguma contemplação.
—Andaremos só o que quizer.
—Então vamos.
E Ernesto poz a cartucheira, pegou na espingarda e chamou os cães.
A uns quinhentos passos de casa, Roma e Florença levantaram os focinhos e moveram a cauda com mais viveza do que a usual.
—Parece que os cães se sentem satisfeitos, disse Ernesto.
—Têem bom faro. Já sabem que este terreno é muito abundante de caça; e estou crente que algum dia vou encontrar as perdizes dentro de minha casa.
Os cães deram signal: Roma todo curvado com o focinho junto ao matto, Florença extendido. Roma encontrára uma peça de surpreza e Florença o rasto verdadeiro.
Um bando de perdizes levantou-se então com estrepito do meio do matto á investida dos cães.
Mauricio disparou, matando com o segundo tiro um perdigoto. Ernesto ia tão distrahido que não teve tempo de fazer fogo.
Desde o rei ao batedor, desde o caçador ao armador, todos quantos abandonam as commodidades da sua casa e se dedicam aos prazeres da caça, são inimigos irreconciliaveis da perdiz; por isso a natureza a dotou com uma vista melhor que a do lynce, de um ouvido superior ao da lebre, e de um instincto de conservação tão grande que não ha animal que lhe ganhe.{141}
Se a perdiz fosse tão dorminhôca como o arganaz e tão indolente como a codorniz, teria desapparecido do reino animal antes de se inventar a polvora.
O arganaz tem, comtudo, tanto engenho como somno; diga o ardil maravilhosamente inventado por elle para apanhar o incauto passarinho que vae pôr sobre elle, satisfeito por ter encontrado um ninho onde guardar os ovos.
Mas deixemos esta digressão. Se algum dia as minhas occupações permittirem, escreverei um livro para os caçadores que contenha a parte agradavel e ridicula da caça, consignada na pratica de muitos annos de experiencia passados na agreste e grata solidão dos montes.
Voaram as perdizes, surprehendidas no seu doce bem-estar, á sombra de um sobreiro, e como o violento e rapido vôo da perdiz excita e põe nervoso o caçador aficcionado, Mauricio exclamou:
—Vamos a ellas, senhor Ernesto.
—Sim, sim, vamos, já que não disparei.
Mauricio esqueceu n'aquelle momento que levava por companheiro um doente fraco, e foi depressa, ou melhor dizendo, a correr pela encosta de um barranco.
Ernesto fez esforços para o seguir mas a meio caminho largou a espingarda, extendeu os braços e cahiu desamparado. Tinha desmaiado.
Mauricio deteve-se assustado, pegou no seu hospede ao collo e deitou a correr até casa, que não era longe. Petra ao vêl-o entrar, trazendo Ernesto nos braços, não poude conter um grito.
Mauricio continuou o seu caminho e deitou Ernesto na sua cama, o qual, pouco depois, abriu os olhos, enviando um sorriso de agradecimento ao caçador.
—Diabo! Que susto que me pregou, senhor Ernesto! Julguei que se despenhava pelo barranco.
—Bem vês, Mauricio, que não presto para nada, nem mesmo para caçar. Já estou melhor. Mas em quanto não estiver em estado de te acompanhar, dedicar-me-hei{142} a caça de espera. Agora tranquilliza-te, hoje em vez de caçar, pintarei. É preciso matar o tempo.
Uma hora depois, Ernesto mais alliviado, tomava algum alimento e punha uma tela n'um cavallete.
Pensou alguns minutos qual o assumpto de que trataria primeiro, e acabou por decidir-se, esboçando a scena que pouco antes succedêra no barranco.