Abandonando Madrid
Amparo, depois do conde sahir, ficou immovel, preoccupada. Ia despedir-se de Ernesto, talvez para não mais o vêr; ia ter uma entrevista sem testemunhas com o homem a quem tão desgraçado fizera, e esta entrevista era proporcionada, pedida pelo marido.
Por um momento Amparo receou que aquillo fosse um laço, mas rapidamente affastou similhante pensamento, conhecendo a nobreza com que procederam Ernesto e o conde de Loreto.
—Não, não; Fernando não póde ter ciumes; tem{130} confianca absoluta, sabe que o amo com toda a minha alma, disse Amparo, falando comsigo. Comtudo quer que me despeça de Ernesto a quem tão desgraçado fez uma leviandade, filha do coquettismo. Devo obedecer-lhe, ainda que me seja dolorosa esta entrevista.
E como n'aquelle momento entrasse o creado para annunciar que o senhor Ernesto esperava a condessa, Amparo encaminhou-se para o quarto do pintor.
Ernesto, ao vêr entrar Amparo, pôz-se de pé, mas foi-lhe preciso encostar-se ao espaldar d'uma cadeira.
A condessa não se commoveu menos, vendo a extrema pallidez do seu antigo apaixonado.
—É verdade, senhor Ernesto, o que o meu marido acaba de me dizer? Pensa em deixar-nos?
—Senhora condessa, respondeu o pintor com uma tranquillidade que assombrou Amparo, sinto-me muito melhor, e resolvi restabelecer-me no campo. Dentro em pouco as brisas do outomno annunciarão o inverno, e creio que me é conveniente fortalecer-me primeiro.
—Se a sua resolução é inabalavel, não nos devemos oppôr, nem meu marido nem eu, mas creia, senhor Ernesto, que ambos sentimos do coração que o senhor deixe tão depressa esta casa, que podia considerar como sua.
Ernesto sorriu-se amargamente, fez um movimento de indifferença com os hombros, e ajuntou:
—Ha creaturas, minha senhora, para quem o mundo é um deserto, um campo de tristes saudades. Sósinhos na terra, vivem, sem uma affeição que os console, sem um peito carinhoso onde possam reclinar a fronte nas horas d'amargura. Para estes seres, a sociedade dos homens é demais, porque desconhecendo o embuste e a falsidade, são sempre enganados; eu talvez pertença a essa desgraçada familia de orphãos das grandes cidades. Por isso estou resolvido a nunca mais pisar as suas ruas, por isso me vou encerrar como um selvagem nos montes de Toledo esperando no meio d'aquelles agrestes barrancos o{131} ultimo momento da minha vida, que felizmente não se fará esperar muito.
Amparo inclinou tristemente a cabeça sobre o peito. As palavras eram uma terrivel accusação, um castigo ao seu coquettismo.
—Porque me não odeia, senhor Ernesto? tartamudeou Amparo. Porque me não despreza?
—Senhora, a minha alma não póde nem odiar, nem desprezar, nem esquecer. As noites de Florença e de Roma imprimiram n'ella uma impressão demasiadamente profunda.
A condessa comprehendeu que a conversa ia seguindo um rumo perigoso.
—Pois bem, senhor Ernesto, disse, peço-lhe em nome da amizade que apague da memoria essas noites.
—Impossivel; é uma recordação que faz parte da minha vida; e por assim dizer a minha segunda natureza. Quando der o ultimo suspiro, quando deixar de existir, então, sim, então é que se extinguirá do meu peito.
—Mas sente-se assim tão doente? perguntou Amparo, que, aturdida ante as sentidas recriminações do pintor, não sabia que dizer.
—Quem sabe se serei um d'esses ridiculos apprehensivos que á força de pensarem na morte sempre d'ella vão escapando!
E sorrindo com um ar triste, continuou:
—O ar saudavel das montanhas talvez me restabeleca.
E puxando o cordão da campainha, disse a um creado:
—Diga ao senhor D. Ventura que me vou embora immediatamente e que o espero para me despedir.
Amparo, ante aquella resolução inesperada, que punha fim á entrevista de uma maneira brusca, levou as mãos á cara para occultar as lagrimas que lhe fôra impossivel suster.
—Póde-me odear, se assim lh'o apraz, disse a condessa; mereço-o, porque não ha palavra com que possa desculpar o meu procedimento.{132}
E sahiu precipitadamente do quarto.
—Ah! exclamou Ernesto, vendo-a sahir. Não posso esquecer esta mulher!...
Deixou-se cair n'uma cadeira, como se o abandonassem as forças para suster-se de pé.
Em vão D. Ventura procurou persuadir Ernesto de que a vida de caçador montez, quando se carece de saude, é uma temeridade. O pintor estava resolvido, e sahiu de casa do conde.
Quando chegou a sua casa da rua do Prado, quando os seus amigos André e Marcial o viram entrar pallido como um cadaver e fraco como um convalescente, depois de oito dias de ausencia, não puderam conter um grito de assombro.
Ernesto explicou-lhes a ausencia e participou-lhes o plano que concebêra para se curar.
N'aquella mesma noite escreveu uma carta a Mauricio, caçador de profissão, que vivia nos montes de Toledo.
Tres dias depois, Mauricio respondeu a Ernesto, offerecendo-lhe a sua casa, participando-lhe que se casára, e que, por conseguinte, podia estar com alguma commodidade.
Ernesto fôra caçador n'outros tempos, antes de partir como pensionista para Roma. Era d'aquella epocha que conhecia Mauricio, com quem entrára em algumas caçadas.
Resolvido a emprehender a viagem, principiou a dispôr tudo, isto é, pôz n'um caixote alguns quadros, o cavallete, a caixa das tintas e os pinceis; n'outra metteu alguns livros de estudo e de recreio.
Só lhe faltavam os apetrechos de caça, quando uma manhã em que se dispunha a sahir para comprar todos esses artigos, viu entrar o mordomo do conde de Loreto, seguido de dois creados que traziam duas caixas e dois bellos cães inglezes, um Setter e outro Pointer.
O mordomo avançou com o seu costumado ar grave, e, entregando uma carta a Ernesto, disse-lhe:
—Meu amo, o senhor conde de Loreto, manda-me{133} entregar esta carta, estas caixas e estes cães, ao senhor, encarregando-me de lhe pedir o desculpe de não vir pessoalmente, mas é-lhe inteiramente impossivel.
A um signal do mordomo, os creados arriaram no chão as duas caixas e amarraram os cães ao pé de uma mesa.
—Creio que o senhor não deseja mais nada, ajuntou o mordomo, vendo que Ernesto guardava silencio.
—Diga ao senhor conde que lhe agradeço reconhecidissimo a offerta que se digna fazer-me, e que lhe falarei ou escreverei antes de partir.
O mordomo cumprimentou e sahiu seguido dos creados.
Então Ernesto fez uma caricia aos cães, que se acercaram, meneando a cauda, e exclamou:
—Aqui estão os meus novos amigos. Oh! Estes sim, que não me venderão!
E sentando-se n'uma cadeira, abriu a carta do conde e leu:
«Meu bom amigo
«Deixou-me com o quadro de Esther uma recordação que conservarei emquanto viver; permitta-me que lhe remetta tambem como uma lembrança, os meus melhores cães e algumas armas e objectos que podem ser de muita utilidade no campo.
«Carlos I de Inglaterra offereceu a Rubens, em pleno parlamento, a espada que levava cingida á cinta, um diamante que trazia no dedo e uma banda de diamantes que lhe cruzava o peito. Tudo isto foi a paga do magnifico retrato d'aquelle monarcha que mais tarde tão maus boccados fez passar a Luiz XVI. Permitta, pois, que eu, sem ser rei, tome a liberdade de offerecer alguns apetrechos de{134} caça, de pouco valor, e não esqueça que espero com anciedade noticias da sua saude e algum quadro dos que me prometteu.
«Minha mulher e meu sogro cumprimentam-n'o e desejam vêl-o brevemente em Madrid restabelecido da sua doença
Seu amigo
Fernando del Villar.»
Ernesto leu duas vezes a carta, e, soltando um suspiro, murmurou em voz baixa:
—Eis-me amigo do conde de Loreto, de um homem com quem estive a ponto de me bater.
Ernesto abriu as caixas, encontrando n'ellas tudo quanto póde necessitar no campo um caçador de dinheiro.
Só a mão de uma pessoa intelligente teria sido capaz de reunir todos aquelles objectos.
Ernesto encontrou duas espingardas, uma de Scotte de dois canos, do systema Lefaucheux, outra de Greener para tiro de bala, uma excellente botica de viagem, uma barraca de campo, uma mala de couro da Russia com quinhentos cartuchos carregados com chumbo, e outra com duzentos carregados com bala; um fato completo de camurça, botas de cautchouc, facas de matto, um rewolver Flaubert de doze tiros, com ornamentações de ouro, um estojo com todas as peças em prata, duas mantas inglezas e varios artigos todos diversos e uteis.
Indubitavelmente o conde de Loreto gastára mais de cinco mil duros com o presente.
Ernesto contemplou tudo com profunda melancholia.
—É preciso acceitar, disse. Ia para Toledo com um equipamento mais modesto. Emfim, tanto melhor para o pobre Mauricio, que se se portar bem, será o meu herdeiro no dia em que eu morrer.{135}
Como se vê, Ernesto, não deixava nem um só momento a ideia da morte.
N'aquella noite Ernesto escreveu a seguinte carta:
«Senhor conde
«A opportunidade produz sempre bom resultado no animo impressionavel das creaturas. Dispunha-me a sahir de casa com tenção de comprar alguns apetrechos de caça, quando vi entrar o seu creado com o que me enviou.
«Sem ter nada de Pedro Paulo Rubens, não agradecerei menos os presentes que me fez, do que agradeceu o pintor flammengo os donativos de Carlos I.
«Obrigado, pois, senhor conde, pela sua delicada offerta. Ámanhã parto e talvez nos não tornemos a vêr, apezar dos bons desejos que têem pelo meu restabelecimento. Ha doenças que cada hora qua passa nos leva uma parte da existencia, são as incuraveis; e a minha é d'essas que se chamam de morte.
«Não é o medo nem a apprehensão que me fazem dizer isto; sei bem qual é o mal que me consome, e só terei illusões, quando tiver sido tocado pelos dedos gelados da morte. Deus quer que os doentes do peito sonhem com a vida nos ultimos momentos.
«Adeus, senhor conde. Em breve lhe enviarei por pessoa da minha confiança o primeiro quadro que pintar, e assim o irei fazendo successivamente, mas não receio, que a collecção seja muito grande.
«Cumprimentos á senhora condessa e ao senhor D. Ventura, e não esqueça este desterrado voluntariamente, que prefere a solidão do campo ao ruido e bulicio dos homens.
«Sempre seu amigo
Ernesto Alvarez.»{136}
No dia seguinte, Ernesto, depois de fazer varias compras, entre as quaes se contava um vestido para a mulher de Mauricio, despediu-se dos amigos e entrou n'uma carruagem de primeira para Toledo.
Ernesto possuia por uma unica fortuna, ao partir de Madrid, dez mil reales que lhe produziram os objectos e quadros que vendeu.
Álêm dos quinhentos duros e dos presentes do conde de Loreto, levou uma grande caixa com garrafas de champagne, rhum, cognac, aguardente e bom café.
—Esta caixa será a minha alegria, disse Ernesto, sorrindo-se para os amigos. O rhum concilia o somno e o champagne alegra os pensamentos.
Mauricio esperava-o em Toledo.
Carregou-se toda a bagagem em varios animaes e partiram para os montes, onde o caçador morava.