Abnegação

Quando o conde entrou no quarto de Ernesto, acabava este de se vestir.

Pallido, com o parecer cadaverico, o semblante do{125} pintor tinha impressos os profundos vestigios da enfermidade que lhe minava o peito.

O conde admirou-se de o vêr levantado. Ernesto, sorrindo, veiu-lhe ao encontro.

—O medico já lhe deu auctorização para se levantar? perguntou Fernando.

—Os medicos são uns ignorantes. Se seguisse os seus conselhos, ficaria ainda um mez na cama, mas tenho esperanças de me restabelecer d'outra maneira sem auxilio da medicina.

—Senhor Ernesto, disse o conde com voz carinhosa, ignoro o que tenciona fazer para se curar, mas reprovo que abandonasse a cama.

—O meu plano de vida é muito simples, senhor conde, reduz-se a ir viver no monte, a respirar o ar puro e livre do campo, longe da balburdia da cidade, do bulicio dos homens; é o remedio mais efficaz para os doentes do peito. Em outros tempos fui um enthusiastico amador da caça. Quando o governo me fez seu pensionista, quando parti para Roma, offereci os meus cães e as minhas espingardas e abandonei a minha distracção favorita. Em poucos dias adquirirei todos os apetrechos e partirei para os montes de Toledo onde conheço um caçador de profissão, viverei com elle, caçando umas vezes, pintando outras, e quem sabe se a vida semi-selvagem que vou emprehender me restabelecerá a saude.

O pintor procurava dissimular o cansaço que a conversação lhe causava.

O conde, que o conhecia, disse com commoção:

—Ernesto, offender-se-ha commigo se lhe falar com a franqueza de irmão?

—Pelo contrario, senhor conde, julgar-me-hei muito honrado.

—Pois bem, o senhor crê que essa viagem, essa vida semi-selvagem, como acaba de dizer, lhe será tão proveitosa, como diz?

—Sem perceber de medicina, comprehendo que a vida do campo é muito proveitosa aos doentes do peito.{126}

—Comtudo a vida de caçador é agitada e precisa de corpos robustos e fortes.

—Quem sabe se o meu se fortalecerá?

—Duvido!

—É preciso dar-se tempo ao tempo.

—Mas ainda que assim seja o senhor não é rico e precisa trabalhar para viver.

—Tão pouco precisa um caçador de profissão! disse Ernesto sorrindo-se. Álêm d'isso pintarei quadros pequenos, que, vendendo-os baratos, sempre terei quem m'os compre; por exemplo, assumptos de caça, paisagens tiradas do natural. Oh! tenho esperanças que nada me faltará.

—Está então resolvido a emprehender essa nova vida e eu não me opponho, mas quero propor-lhe um negocio.

—Qual?

—O senhor precisa de quem lhe compre os quadros que pintar.

—Certamente.

—Pois bem, compro-lh'os eu. Como vê não tenho muitos quadros bons nas minhas paredes, e por isso espero que me permitta pagar-lhe o que está na Exposição das Bellas-Artes.

—Emquanto a esse creio que o senhor já leu a carta que enviei aos jornaes, e como digo que recebi em Roma antes de concluir...

—Mas isso não é verdade.

—Que importa? O quadro é seu, senhor conde, e não falemos mais de similhante assumpto. Emquanto á venda dos que pinte de futuro, isso é diverso e não vejo inconveniente em que o senhor m'os compre.

—Fixemos então desde já o preço, ficando assente que recebo todos quantos o senhor pintar.

—Isso é offerecer muito.

—Compro todos. Marque preço.

—Marcarei quando lh'os mandar, a não ser que o senhor me indique desde já os assumptos e os tamanhos.{127}

—Isso fica á sua escolha.

—Pois então fica desde hoje sendo o meu unico comprador.

—E o senhor o meu pintor. Mas repito que é uma loucura abandonar os recursos da capital quando a saude não esta sufficientemente restabelecida.

—Pelo contrario, senhor conde, é muito conveniente abreviar a minha partida.

Fernando encolheu os hombros conhecendo que Ernesto estava firmemente resolvido a sahir de Madrid.

—Não insisto mais, apezar de lamentar que nos deixe tão depressa, porque de amigos tão generosos, tão nobres como o senhor, é sempre custosa a separação.

—Senhor conde, antes de nos separarmos tomarei a liberdade de lhe falar com a rude franqueza de um homem que sempre foi dominado pelos impulsos do seu coração. Odiei-o de morte durante algum tempo. Então não conhecia o conde de Loreto mais do que de nome; hoje é diverso: tive occasião de tratar comsigo, de apreciar o que vale, e a minha alma, sempre generosa, arrepende-se de haver abrigado, ainda que por pouco tempo, sentimentos perversos. A carta que mandei aos jornaes não é outra cousa que o descargo da minha consciencia. Preciso, pois, partir e esquecer. O senhor sabe que amei Amparo, e tambem não ignora que ainda a amo. Tratou-me como a um bom amigo, e nada mais. Sei que são felizes, e que se amam muito. Uma imprudencia minha esteve a ponto de destruir toda essa felicidade, que não tem preço entre dois esposos. Reparei essa imprudencia e tranquillizou-se um tanto a minha consciencia. O passado será um sonho para mim, o presente, a soledade dos montes, até ao dia em que Deus queira apagar o meu nome do grande livro dos vivos.

Ernesto calou-se. O conde fixou n'elle um profundo olhar que demonstrava a admiração que sentia ouvindo expressar-se com tão nobre franqueza, julgando{128} inverosimil que na corrupta sociedade ainda se pudesse encontrar n'um homem um rival tão generoso.

—Vá, disse o conde, depois de uma pausa, parta, mas nunca esqueça que tem em todas as occasiões que precisar um irmão, em Fernando del Villar.

—Obrigado, senhor conde, não esquecerei o seu offerecimento. Peço-lhe me desculpe para com a senhora condessa, pois não me posso despedir d'ella, e que mande que uma das suas carruagens me leve a minha casa.

—Como! Partir sem apertar a mão a minha mulher, sem lhe dizer adeus? Não, senhor Ernesto. Julga porventura que sou um d'esses maridos zelosos e ridiculos que desconfiam da mulher a quem deram o nome? Julga-me capaz de lhe fazer a offensa de duvidar de si, o homem mais generoso que conheço, o melhor dos meus amigos? Não. Amparo virá despedir-se de si; peço-lhe que não deixe esta casa sem que assim succeda.

—Não insisto mais. Já que assim deseja despedir-me-hei da senhora condessa.

—Vou eu mesmo chamal-a.

O conde sahiu, murmurando em voz baixa:

—Este homem venceu-me á força de generosidade.



A condessa acabava de se pentear: estava vestida com uma simples bata branca.

Ao vêr entrar o marido exclamou:

—Tu, outra vez aqui!

—Sim, Amparo, venho annunciar-te a partida de Ernesto.

—Não é possivel, ainda está muito doente, segundo diz o medico.

—Isso mesmo lhe disse eu, mas insiste em se querer restabelecer no campo, e está resolvido a abandonar hoje mesmo a nossa casa. Pedi-lhe que se não fosse, sem primeiro se despedir de ti e de teu pae.{129} É preciso que meu sogro, que tem mais confiança com elle, o convença a que receba o valor do quadro que tão generosamente nos offerece.

—Será inutil; não receberá nada.

—Comtudo espero que teu pae insista pela ultima vez. Não pódes calcular o quanto me interessa esse pobre rapaz, pobre como Diogenes e generoso como Lucullo. Fala-lhe, fala-lhe sem perda de tempo; eu, entretanto vou á loja de Manuel Arenas fazer umas compras.

Fernando tocou uma campainha e disse ao creado:

—Avise o senhor Ernesto de que a senhora condessa deseja vêl-o.

E depois, abraçando Amparo, continuou:

—Adeus, minha amiga. Procura convencer esse tresloucado. Não me demoro. Vou comprar umas cousas para Ernesto. É preciso presenteal-o como a um principe que pensa em passar uma grande temporada no monte, dedicando-se a caça.

[CAPITULO XXI]