Pagar a hospitalidade

D. Ventura mandou pôr uma cama no quarto de Ernesto.

—Serei o seu enfermeiro, disse, Amparo, e o conde ajuda-me n'esta tarefa. Animo, pois, amigo Ernesto, e não pense n'outra cousa que não seja em restabelecer-se.{119}

Desde aquella occasião o pintor encontrou uma familia carinhosa, solicita, que lhe prodigalizou todo o bem estar. Nem elle mesmo podia explicar o que se passava em redor de si.

Muitas vezes era Amparo quem lhe dava os remedios, limpando-lhe o copioso suor que com frequencia lhe inundava a fronte, e isto fazia-o mesmo deante do marido e com a amorosa solicitude de uma irmã.

D. Ventura logo ao segundo dia começou a tratar o enfermo por tu com a ternura e o interesse de um pae.

Assim se passaram cinco dias. Ernesto falava pouco, não só porque o medico lh'o prohibira, como tambem porque pensava muito em todos estes acontecimentos.

O seu amor por Amparo era immenso. O conde indubitavelmente conhecia esse amor, e comtudo, dedicado e obsequioso, consentia que sua mulher passasse horas inteiras sentada a cabeceira da sua cama.

Em vão Ernesto perguntava a si mesmo porque era que aquella familia se mostrava tão attenciosa, tão obsequiadora para com elle, e o seu coração generoso repellia algum pensamento pouco favoravel para ella. O conde parecia-lhe um homem digno e honrado, Amparo uma irmã, D. Ventura um pae, e até o medico era para elle um amigo.

Desde que recuperára os sentidos, durante os dias em que se achava n'aquella casa, ninguem lhe tornára a falar do quadro. Ernesto sentindo-se mais alliviado, aproveitou um momento em que estava só, pois desejava demonstrar áquella familia o seu reconhecimento.

Levantou-se da cama, chegou com algum custo a uma mesa onde estavam os apetrechos de escripta, e poz-se a redigir um artigo.

Passada uma hora tinha acabado.

Então, voltou para a cama, tocou a campainha e disse ao creado que se apresentou:{120}

—Faça favor de dizer ao senhor D. Ventura que desejo falar-lhe.

O creado obedeceu e poucos momentos depois entrava o commerciante, sorrindo como sempre.

—Bravo, bravo, disse elle. Já te vejo esse parecer mais animado e gosto d'isso. Mas, saibamos o que quer o meu doente.

—Que leia isto, que mande tirar copias e que as remetta aos jornaes que quizer.

E Ernesto entregou uns linguados de papel em que pouco antes escrevera. D. Ventura leu para si. Quando acabou a leitura lançou-se nos braços de Ernesto, exclamando com voz commovida:

—Obrigado, Ernesto, obrigado. Estas linhas trarão a paz a um lar e o socego a um pae; és o homem mais generoso do mundo.

D. Ventura tinha os olhos cheios de lagrimas.

Ernesto estava impressionado ante a profunda satisfação do velho.

—Demais, disse o pintor, fingindo grande naturalidade, essa declaração que destruirá por completo a maledicencia, vale bem pouco, e não vejo motivo para que o senhor m'o agradeca. Em poucos dias estarei completamente restabelecido, e sahirei de Madrid, e nem o senhor conde, nem a senhora condessa me tornarão a vêr. Tenho um plano de vida que me será proveitoso. Emquanto ás nossas excursões artisticas por Florença, e Roma só me resta julgál-as um encantador sonho, filho d'uma imaginação viva e impressionavel, e como os sonhos se esquecem procurarei esquecêl-as tambem.

—Oh! Tu não dizes o que sentes, Ernesto, soffres e tentas occultal-o.

—E quem não soffre n'este valle de lagrimas? Existe porventura homem feliz n'este mundo? Creio que não. A vida não é outra cousa senão um castigo que Deus impõe á humanidade pelo peccado original; resignemo-nos, pois e paguemos esse tributo ao Creador.

—Mas isso não me tranquillizou por completo. Dizes{121} no teu artigo que o quadro é propriedade do conde de Loreto, que o comprou em Roma, com a condição de que Esther fosse o retrato de sua futura mulher, e isso não é verdade.

—Meu amigo, ás vezes a mentira, que tem alguma cousa de santa, é indispensavel.

—Comtudo o conde não te comprou o quadro.

—Mas se eu lh'o offereço.

—Isso não póde ser. Tu és pobre e nos não consentimos...

—Mau! O quadro, dado o caso de ser premiado pelo governo, poderá render-me quando muito cinco ou seis mil duros. Com essa quantia é rico um homem como eu.

—Mas nós podemos dar-te pelo quadro vinte mil duros.

—Isso seria roubar o dinheiro, e não creio que o senhor me faça a offensa de me julgar interesseiro.

—Demais sei eu que todos os homens de talento desprezam o dinheiro.

—Pois então consinta que a minha pobre Esther salvando os filhos de Israel fique em paga da carinhosa hospitalidade que me concederam, e não se fala mais no assumpto. Mas não percamos tempo; é preciso que ámanhã saia em alguns jornaes o meu communicado.

D. Ventura não poude convencer Ernesto a que acceitasse qualquer quantia pelo quadro.

—Para todos, disse o pintor, o quadro foi comprado pelo conde de Loreto pela importancia que lhe aprouver dizer, e eu não o desmentirei; para nós, o quadro será uma offerta que eu faço ao esposo de D. Amparo de Aguillar.

No dia seguinte, ao levantar-se, Amparo, viu varios jornaes sobre uma pequena mesa de pau rosa.

—Que é isto? perguntou. Cuidam que me vou dedicar á politica?

—Não sei, minha senhora, mas o papá disse-me que os puzesse ahi e que dissesse da sua parte á senhora{122} condessa, quando se levantasse, que lesse um communicado que trazem os jornaes.

Amparo suspeitou do que tratava o communicado, pegou no jornal e leu em voz baixa o que se segue:

«Senhor director do...

«Espero da sua amabilidade que publicará esta carta no seu acreditado jornal que tão dignamente dirige, pois importa ao senhor conde de Loreto e ao que subscreve a presente carta, desvanecer certas equivocas apreciações que uma parte do publico que visita a Exposição de pintura tem feito sobre o meu quadro de Esther.

«Ha alguns mezes estava em Roma pintando o quadro de Esther quando tive a honra de ser visitado por Fernando del Villar, conde de Loreto, com a então sua futura esposa, hoje condessa de Loreto.

«Verdadeiro enthusiasta pela pintura, o conde de Loreto, protector dos artistas, propôz-me comprar o quadro por uma quantia bastante elevada; attendendo ao pouco ou nenhum merecimento da minha tela, acceitei o negocio e ficou desde então o quadro de Esther sendo propriedade do conde de Loreto.

«A partir d'ahi o conde passou a visitar-me todas as manhãs, passando algumas horas no meu atelier vendo-me pintar.

«Um dia, ao ter quasi terminada a minha obra, occupava-me em retocar a figura de Esther, quando o conde me disse:

—«Meu amigo, tenho um capricho de homem rico que desejava satisfazer. Se o senhor não se escandalizasse e quizesse, a cabeça da rainha Esther poderia ser o retrato da senhora que em breve será minha mulher. Ha algum inconveniente n'isso?{123}

—«Nenhum, senhor conde, lhe respondi. Nem conheci a celebre judia da tribu de Benjamin, a bondosa sobrinha de Mardoques, nem vi mesmo algum retrato d'ella, mas desde já aposto qualquer cousa em como a mulher do rei Assuero não foi mais bella do que a joven que d'entre em pouco será a condessa de Loreto.

«Poucos dias depois, a cabeça de Esther era um retrato bastante parecido da senhora D. Amparo de Aguillar, condessa de Loreto.

«Assim fica explicada a similhança que com a esposa do senhor conde de Loreto tem a figura principal do meu quadro.

«Peço-lhe me desculpe o incommodo que lhe causo, mas a rectidão do meu caracter e o agradecimento a isso me obrigam, e antecipadamente agradece, o que é

De V. S.ª

Att.º V.or Cr.º e Obrg.º

Ernesto Alvarez.»

Quando Amparo acabou a leitura ouviu a voz do marido que lhe pedia auctorização para entrar. Entrou com o jornal na mão.

—Entra, Fernando. Não precisas auctorização para entrar no meu quarto, lhe respondeu.

O conde approximou-se da mulher e depois de lhe ter dado um carinhoso beijo na face e dirigir-lhe um sorriso amoroso, disse:

—Bom dia, querida Amparo, bom dia. Vejo que ambos lemos o communicado de Ernesto.

—Sim; meu pae mandou-me estes jornaes.

—Tambem m'os mandou a mim, e vinha perguntar-te se sabes o que se passou entre teu pae e Ernesto.{124}

—Não sei.

—Fosse o que fosse, a conducta d'esse rapaz não póde ser mais nobre. Bem vês que nos offerece o quadro, porque tu bem sabes que lh'o não comprei.

—Sim, é um rasgo de generosidade pouco vulgar n'um homem que não tem outro patrimonio senão os pinceis.

—Mas nós não podemos consentir em similhante offerta.

—Ou pelo menos compensal-o com outra.

—Dizes bem. N'este assumpto convém proceder com toda a delicadeza. Vinha lêr-te isto mas como já lêste, retiro-me e vou vêr Ernesto. Almoçamos juntos?

—Sim, meu Fernando, espero-te aqui para me contares tudo o que resolveres.

Fernando tornou a abraçar a mulher e sahiu.

Amparo ao vêr-se só, deixou-se cair n'uma cadeira e leu pela segunda vez o jornal.

—Ah! exclamou, exhalando um suspiro que brotava do mais fundo da sua alma. Ernesto vale cem vezes mais do que eu. Causei toda a sua desgraça. O coração tambem me diz que serei a causa da sua morte. Que Deus me perdôe o mal que fiz a esse homem.

E, cobrindo o rosto com as mãos, deu livre curso ás lagrimas.

[CAPITULO XX]