Confiança

Quando o conde entrou na carruagem que o esperava á porta, deu ordem que o conduzissem para casa, e deixou-se cahir no assento rugindo de raiva.

—Ah! exclamou falando comsigo. Aquelle insensato julgou talvez que tive medo. E não conheceu o horrivel tormento que me causava o conter-me. Terei que matar outro homem? Não, não, mil vezes não. Consentirei antes que elle me esbofeteie, preferirei fazer saltar os miolos.

Quando o conde chegou a casa, situada na rua do Barquillo, entrou no quarto de vestir de Amparo, que o esperava inquieta e commovida.

—O tal senhor Ernesto, disse o conde, sentando-se n'um sofá, é menos generoso do que suppunhas. Nem quer vender-me o quadro, nem publicar uma communicação em que explique decentemente a natural curiosidade de todos que te conhecem.

—Mas elle não tinha nenhum direito para fazer o que fez, para me pintar n'um quadro com risco de me comprometter, exclamou Amparo tartamudeando.

O conde sorriu-se, e fazendo um movimento de hombros, disse:

—Não pódes calcular o quanto me fez soffrer esse homem. Durante a nossa entrevista, falei-lhe com doçura, com humildade, pedi-lhe que me vendesse o quadro, suppliquei-lhe, e julgando, sem duvida, que as minhas palavras eram dictadas pelo medo, que eu era um cobarde, teve o atrevimento de me{107} dizer que se não ficava satisfeito com a sua negativa, o assumpto liquidava-se d'outra maneira entre homens. Desgraçado! Necessitei de todo o valor, de toda a força do homem que se não póde bater, depois de ter morto cinco homens, para não o esbofetear na sua propria casa. Mas quem sabe se esse insensato me fará faltar ao meu juramento e terei de matal-o.

—Não, não, Fernando! Não quero que te batas! Não quero que te exponhas! A tua vida pertence-me!

—Mas se esse homem, depois de ter dado pasto a maledicencia com o seu importuno quadro, me insultar na rua, no theatro, n'um passeio, o que hei de fazer senão bater-me?

—Pensa que um duello não serviria senão para augmentar essa maledicencia que nos assusta, esse murmurio que receamos.

—Sim, concordo; mas não vejo outro caminho.

—Dize-me, Fernando, tens confiança em mim?

—Se a não tivesse, estaria como estou, aqui?

—Obrigada, meu amigo.

—Mas a que proposito veiu essa pergunta?

—Porque conheço o bello e nobre caracter de Ernesto.

—Vaes fazer-me algum elogio das suas qualidades moraes?

—Não; vou tranquilizar-te. Ouve. Uma casualidade fez com que eu conhecesse Ernesto em Roma. Depois acompanhou-nos a Florença. Bondoso e illustrado, levou-nos a toda a parte, e não demorou muito que não percebesse que eu lhe não era indifferente. Bem sabes, Fernando, que não tenho segredos para ti, porque o meu coração e a minha vida pertencem-te, porque te amo de toda a minha alma.

—Sim, sim, não tenho duvidas a esse respeito e comprehendo perfeitamente tudo quanto se póde passar entre uma menina e demais formosa como tu e um homem como Ernesto, que viajam juntos. Amou-te, fez-te uma declaração que não regeitaste, já por{108} coquettismo, já por compaixão. Isso é natural nas mulheres, não as censuro; mas ás vezes traz más consequencias. Agora, por exemplo: Ernesto ao voltar a Hespanha, encontra-te casada e julga-se com o direito de fazer a tua e a minha desgraça, e apezar d'isso não tenho a mais pequena duvida de que esse rapaz tem uma boa alma, um generoso coração.

—Dizes bem, é uma desgraça. Tomei aquelles passeios em Florença, por um passatempo, por uma distracção. Aborrecia-me. Ernesto, pelo contrario, julgou que eu o amava como Heloisa amou Abelardo... Lastimo tão funesto engano. E agora auctoriza-me para que meu pae compre o quadro, eu procurarei a maneira, sem faltar aos meus deveres de esposa, de liquidar este assumpto satisfatoriamente, porque nada me interessa tanto como a tua felicidade, meu Fernando.

—Repara, Amparo, que o que me propões é uma imprudencia. Ernesto para ceder aos teus pedidos, póde ser exigente.

—N'esse caso, dir-te-hei: «Fernando, sou tua; o teu amor é a minha vida. Mata esse homem, que me julgou capaz de faltar aos meus deveres.»

O conde soltou um grito, abraçou com enthusiasmo a mulher.

—Ah! disse Amparo, este abraço prova-me que te inspiro confiança, e que annues ao meu pedido.

—Faze o que quizeres; mas fica sabendo que se antes de vinte e quatro horas esse homem não explicar nos jornaes, de um modo satisfatorio para mim, a parecença da condessa de Loreto com a Esther do seu quadro, não me fica outro remedio senão matal-o.

E o conde cumprimentando a esposa, sahiu do quarto.

Amparo ficou por um momento como que oppressa sob o peso da ameaça que o marido acabava de proferir.

Pela primeira vez comprehendeu até onde podia{109} conduzil-a a imprudencia do seu coquettismo em Florença.

Rapidamente lhe passaram pela imaginação as recordações d'aquellas noites passadas com Ernesto no jardim do hotel do senhor Rosales.

—É preciso evitar a todo o transe que se batam. Um desafio entre meu marido e Ernesto produziria um escandalo, e a maledicencia, duvidando da minha honradez, poderia menoscabar na honra do conde. Se isto succedesse, toda a felicidade que agora disfructo desappareceria. Não, não, falarei com Ernesto e supplicar-lhe-hei se tanto fôr preciso.

Amparo deteve-se, como se tivesse commettido alguma imprudencia.

—Mas se lhe peço uma entrevista, continuou, ainda que esta seja com a nobre intenção de evitar uma desgraça, se se sabe que a mulher do conde de Loreto e o auctor do quadro de Esther se viram sem testemunhas, então...

Amparo escondeu o rosto entre as mãos, rompendo em amargo choro, porque comprehendia que por todos os lados sómente encontraria difficuldades.

N'aquelle momento entrou D. Ventura.

—Que é isso? Que tens? Porque choras? Acabo de encontrar o teu marido que me cumprimentou com uma frialdade um tanto importuna. Vou-me convencendo de que os aristocratas quando se casam com a filha d'um plebeu, embora este seja o mais honrado e o mais rico do mundo, sempre julgam que lhe fazem favor. E olha, como isto me desgosta, e caso continue assim, separo-me de vocês, ainda que o não te vêr me amargure a velhice e abbrevie os dias que me restam de vida.

D. Ventura falava rapidamente, dissimulando mal o desgosto que sentia e as lagrimas que lhe começavam a assomar aos olhos.

—Meu querido pae. Creio que nos ameaça uma grande desgraça.

Este grito sahido do peito de Amparo fez empallidecer o pae.{110}

—Uma desgraça! exclamou. E que desgraça é essa?

—Ernesto foi um imprudente ao tomar-me para modelo do seu quadro.

—E é só isso? perguntou D. Ventura que não via motivo para se sobresaltar d'aquelle modo. Se o motivo é o quadro, se não querem que elle continue exposto, comprem-lh'o, e é assumpto concluido.

—Mas elle não o quer vender.

—Ora! Porque não lh'o pagam bem.

—Não, meu pae, não. Ernesto não o vende ainda que lhe offereçam um milhão.

—Pateta! Nem tu nem Ernesto sabem o que é um milhão. Não ha quadro do mundo que valha essa quantia.

—O pae não conhece Ernesto.

—Mas entendamo-nos. Que é que tu queres? Que elle retire o quadro?

—Não é sómente que o tire da exposição, como tambem que publique nos jornaes um artigo, assignado por elle, dizendo que o quadro é do conde, o qual teve o capricho de que Esther fosse o retrato da esposa.

—Pois bem, falarei com Ernesto, e tudo se arranjará.

—Mas Ernesto recusa-se!

—Como! E porque recusa?

Amparo comprehendeu que era preciso revelar tudo ao pae, porque só elle podia valer-lhe n'aquelle apuro, e pegando-lhe carinhosamente nas mãos e olhando-o com doce expressão, disse-lhe:

—Porque Ernesto ama-me; porque tem ciumes, porque ao chegar a Hespanha e encontrando-me casada lhe fugiram todas as esperanças do seu generoso coração, e receio que commetta alguma loucura.

—Diabo! Diabo! Isso é muito differente! E teu marido sabe que Ernesto te ama?

—Suspeita-o, e jurou bater-se com elle, se antes de vinte e quatro horas não ficar completamente resolvida a questão do quadro.

D. Ventura deu um profundo suspiro.{111}

Começava a vêr a questão sob o seu verdadeiro ponto de vista, e receava que tivesse um desenlace fatal.

—Bem vê, meu pae que o meu sobresalto e o meu receio é fundado. Se Fernando e Ernesto se baterem, se algum d'elles morrer...

—Tudo, menos isso. É preciso liquidar esse negocio. Vou falar com Ernesto.

—Negar-se-ha; estou crente. Será mais conveniente que eu lhe fale, mas não na sua casa. É preciso que o papá o chame.

—Não vejo inconveniente. Mas onde? Amparo reflectiu um momento.

—Occupo o meu rez-do-chão d'esta casa; pois bem, escreva-lhe uma carta pedindo-lhe para vir aqui; não a casa do conde de Loreto, mas—á sua.

D. Ventura sentou-se a uma mesa, pegou na penna e disse:

—Dicta a carta.

Amparo pensou alguns instantes. Depois disse:

Senhor Ernesto Alvarez

«Meu bom amigo

«Peço-lhe para que tão depressa receba esta carta tenha a bondade de me vir procurar em minha casa pois desejo falar-lhe de um assumpto da maior importancia.

«Julgo inutil participar-lhe que moro no rez-do-chão, onde o espero, confiado em que se apressará em satisfazer o pedido de um amigo que tanto o estima.

Sempre seu amigo,

D. Ventura de Aguillar.»

Fechada a carta, enviou-a immediatamente por um creado.

Depois, D. Ventura e a filha desceram para o rez-do-chão.

—Agora, meu pae, disse Amparo, só lhe peço que{112} quando vier Ernesto me deixe a sós, com elle, mas é preciso que, detraz d'aquelle reposteiro, seja testemunha da nossa entrevista.

—Farei o que quizeres, porque estas questões apoquentam-me atrozmente.

—Preciso, para que se ámanhã tentarem debicar em mim, ao menos o meu pae saiba que não sou uma d'essas mulheres que faltam aos seus deveres com facilidade.

Uma hora depois Ernesto era introduzido no gabinete em que estava Amparo.

D. Ventura occultou-se precipitadamente no quarto contiguo.

[CAPITULO XVIII]