Propostas
Ernesto chegou a casa e deixou-se cahir desesperadamente na cama; sentia-se fatigado, um desejo irresistivel de chorar, um calor immenso nas fontes e um frio glacial no coração.
Deitou a cabeça nas almofadas e chorou.
Ás cinco horas da tarde, Marcial e André foram buscal-o para irem jantar, e ao verem-n'o pallido, com o parecer decomposto e os olhos avermelhados, perguntaram sobresaltados:
—Estás doente? Que tens?
—Nada, meus amigos, nada; quero estar só. Deixem-me; esta tarde não tenho appetite.
—Mais uma prova de que estas doente, e por isso não te abandonaremos.
—Por Deus, não me obriguem a levantar. Um boccado de socego far-me-ha bem. Repito-lhes que não tenho nada. Vão tranquillos que lhes peço eu.
Depois de meia hora de inuteis perguntas, Marcial e André sahiram afflictos do quarto de Ernesto.
—Indubitavelmente ha alguma cousa, disse o poeta.
—Que diabo succederia? ajuntou André.
—Parece-me que anda n'este mysterio o original da formosa Esther do quadro.
—Tambem o creio.
—Não te disse elle esta manhã, que ia a Carabanchel?
—Sim.
—Em Carabanchel tem D. Ventura uma casa de campo.{102}
—Que lhe succederia?
—Quem sabe! Talvez algum desengano.
—Seja o que fôr, procuremos indagar. É uma desgraça ter um coração impressionavel como o de Ernesto; vae dar-lhe muitos desgostos.
Marcial e André recolheram n'aquella noite mais cedo que de costume.
Ernesto continuava deitado; no quarto não tinha luz. Marcial approximou-se da cama com um phosphoro acceso para vêr se o seu amigo ainda dormia.
O pintor tinha os olhos abertos.
O poeta accendeu a vela que estava na mesa de cabeceira, puxou uma cadeira e sentou-se proximo da cama do amigo.
—Olha, Ernesto, a dissimulação só tem logar entre pessoas que se não estimam. É em vão que procuras occultar-me o que te succedeu. Soffres, tens uma d'essas dôres immensas que opprimem o coração. Basta olhar-te para a cara para te adivinhar. Comprehendes que, estimando-te como a um irmão, não me posso retirar tranquillo, só porque me dizes: «Não tenho nada». Confia, pois, na minha amizade, deposita em mim as tuas maguas. Quem sabe se poderei servir-te de consolação?
Ernesto apertou carinhosamente a mão do amigo e disse:
—Sei quanto me estimas; sei de quanto é capaz o teu generoso coração. Somos amigos ha muito tempo, e nunca tive o mais leve motivo para duvidar da tua amizade. Em nome, pois, d'essa amizade, peço-te que respeites o meu silencio e que me deixes só.
—Está bem, obedeço; mas não esqueças nem um só momento de que me encontro disposto a fazer o sacrificio da minha vida, se com ella posso evitar-te algum desgosto.
Marcial sahiu do quarto de Ernesto na occasião em que ia a entrar André.
—Onde vaes? lhe disse.
—Vêr Ernesto.{103}
—Deixa-o, está dormindo; o que precisa é de socego.
No dia seguinte Ernesto levantou-se de melhor parecer, e os tres amigos tomaram juntos uma chavena de chá e alguns biscoitos inglezes.
Nem André, nem Marcial tornaram a perguntar a causa da sua tristeza, mas elles tambem estavam tristes e desgostosos.
N'aquelle mesmo dia ficou o quadro de Ernesto na exposição. Á noite reuniu-se com os amigos no café. Todos respeitaram a taciturnidade do pintor, porque todos o estimavam e se compadeciam da sua incomprehensivel tristeza.
Assim se passaram quinze dias. A exposição de pintura abriu as portas ao publico, e o quadro de Ernesto arrancou um grito de admiração aos espectadores.
A figura de Esther era uma obra tão perfeita como a Virgem de Murillo. O quadro tinha sempre um grupo de admiradores, que o contemplavam com verdadeiro extasi.
Uma manhã Ernesto acabava de se levantar quando José, o creado, entrou participando-lhe que um cavalheiro lhe desejava falar.
Esse cavalheiro não era outro senão Fernando del Villar, Conde de Loreto.
Ernesto procurando simular uma serenidade que não sentia, offereceu-lhe uma cadeira, e perguntou tranquillamente o que desejava.
—Vi e admirei o precioso quadro que tem na exposição de pintura, disse o conde. É na verdade uma obra-prima. Tenho a absoluta certeza de que alcança o primeiro premio, e venho vêr se o senhor m'o quer vender.
—Senhor, disse Ernesto, creia que concede ao meu trabalho mais merecimentos do que os que realmente tem. Mas de modo nenhum desejo desfazer-me d'elle emquanto o jury não resolver.
—Entretanto póde confiar, disse o conde, que o jury lhe concede o primeiro premio, e eu compro-lhe o quadro{104} como uma obra-prima. Póde pedir-me quanto quizer sem receio de que me pareça exaggerado o preço. Felizmente sou rico, e sei avaliar o valor das obras como a tela de Esther.
—Tenho tambem que advertir-lhe, senhor conde, de que um correspondente da casa de Rotschild já me fez proposta sobre o quadro.
—Rotschild é mais rico do que eu, disse o conde, sorrindo-se, mas tenho mais direitos do que elle ao quadro a que nos referimos.
—O senhor tem mais direito?! exclamou Ernesto, comprehendendo o ponto para onde o conde desejava levar a conversa.
—Sim, porque o senhor não ignora que a cabeça de Esther tem uma grande parecença, parecença de retrato perfeito, com uma mulher que tenho em muita conta, e cujo bom nome me importa mais do que e vida.
—Não serei eu que o contradiga na sua opinião, senhor conde, mas se é retrato, é por pura casualidade, pois foi pintado de imaginação.
—Creio, senhor, ajuntou o conde manifestando a sua importancia, que n'estas coisas o melhor é falar com a maxima franqueza.
—Nada ha de que eu mais goste.
—Assim, pois, começarei por lhe dizer o que o senhor não ignora, e é que a cabeça de Esther não é outra cousa senão o retrato de minha mulher, a quem o senhor conheceu em Roma e em Florença.
—Pois bem, senhor conde, ainda que assim seja, ainda que visse e tratasse em Roma e Florença com a senhora que hoje é sua esposa, ainda que a minha memoria tivesse sido tão feliz que retivesse as suas feições e as transportasse á tela, tudo isso não é mais do que uma liberdade que tomei, e se o offende essa liberdade, a questão, entre pessoas de bem, tem uma solução que o senhor não ignora.
Ernesto pronunciára estas palavras com a altivez de quem provoca. O conde ouviu-o tranquillamente e sem demonstrar a mais leve agitação.{105}
Quando o pintor concluiu, o conde fez um movimento de olhos e de rosto, manifestando o desgosto que lhe causava similhante provocação.
—Senhor, disse pausadamente, primeiro que tudo, previno-o de que não vim aqui ao som de guerra e julgo por tanto fóra de proposito a solução que acaba de me propôr. Que conseguiriamos batendo-nos? Justamente o contrario do que desejo e do que o senhor desejará ámanhã. Poderia provar-lhe, sem que lhe ficasse duvida alguma, que não sou um cobarde, e que me tenho batido mais de uma vez.
Ernesto sorriu-se.
—Perdôo-lhe essa nova provocação, ajuntou o conde, e torno a pedir-lhe não só que me venda o quadro, como tambem que espalhe a noticia de que eu lh'o encommendei em Roma, pedindo-lhe que este fosse o retrato de Amparo.
—Nunca!
O conde estremeceu, augmentou de uma maneira terrivel a sua pallidez, os seus olhos brilharam momentaneamente de uma fórma sinistra, e fazendo um esforço violento para dominar-se, continuou sem levantar a voz, com humilde entoação.
—Creia, meu amigo, que está em completo erro se julga que vim aqui com exigencias; longe do meu espirito toda a ideia de ameaça; só supplico. Se o senhor se nega a vender-me o quadro, mas se deseja evitar a minha mulher graves desgostos, creio que por fim cederá a publicar um artigo nos jornaes em que explique satisfatoria e convincentemente para todos, a similhança que tem a figura de Esther com Amparo.
E o conde, levantando-se ajuntou:
—Pense, e pense tambem nas graves consequencias que a todos podem trazer a sua negativa. Espero até ámanhã a sua resposta em minha casa. Este cartão indica-lhe a minha residencia em Madrid.
E deixando sobre uma mesa um bilhete de visita, cumprimentou-o e sahiu.
Ernesto permanecia sentado com o olhar provocador,{106} sem se dignar corresponder ao cumprimento que o conde lhe dirigira ao sahir.