Carta interrompida

Penetremos na encantadora quinta que D. Ventura possuia em Carabanchel de Arriba; mas não nas elegantes e luxuosas habitações, pois que Amparo que é quem procuramos, está n'um caramanchão situado no extremo de uma recta e larga rua formada por altos e copados castanheiros da India.

Para que o leitor se inteire de tudo o que succedeu desde que perdeu de vista a formosa herdeira de D. Ventura, bastará dar-se ao incommodo de lêr a carta que Amparo escreve a uma amiga intima e antiga condiscipula.

Leiamos, pois:

«Minha querida Luiza

«Desde o dia do meu casamento com o conde de Loreto, isto é, ha um mez, nem tu sabes o que tem sido de mim nem eu sei nada de ti. Agora que meu marido me deixou, pois alguns negocios o prendem todo o dia em Madrid, vou dar-te parte da minha vida.

«Escrevo-te, ouvindo o canto das aves sobre a minha cabeça, e aspirando o perfume do jasmim e da madresilva. A minha alma necessita da doce quietação que me rodeia, para poder expressar-te toda a immensa felicidade que sinto.

«Ah! Luiza, já sei que amas um homem, e que és egualmente amada por elle. Porque{94} se não casam? E porque não veem para o campo?

«Ignorava que no coração d'uma creatura o amor infundisse uma felicidade tão ineffavel como a que experimento. É bem verdade que Fernando, meu marido, é o melhor dos homens.

«Se visses a maneira amavel e obsequiosa que tem sempre para commigo! Eu sou, por assim dizer, a rainha absoluta d'este pequeno paraizo. Meu pae ri-se do que chama caprichos de menina amimada, e Fernando approva immediatamente, tendo por logico e natural até o mais estranho e excentrico.

«Muitas vezes pergunto a mim propria se esta felicidade poderá durar muito. Mas porque não ha de durar? Quando o amor é verdadeiro, dura tanto como a vida. Que digo? Mais do que a vida, pois acompanha a alma até á eternidade.

«Mas vou-te falar de Fernando a quem só conheces superficialmente. Imagina, querida Luiza, um rapaz bonito, com um coração de anjo, a quem os genios da musica e da pintura bafejaram em creança, pois que Fernando é musico e pintor.

«Toca orgão de uma maneira admiravel, e desenha quasi tão bem como Gustavo Doré, cujos bellos trabalhos conheces.

«Junta a isto uma bondade sempre disposta a comprazer e poderás imaginar quem é o homem que me coube por sorte para companheiro de toda a minha vida.

«Demais, Fernando tem uma conversação que fascina.

«Quando de noite passeamos pelo jardim de braço dado, deleita-me ouvir-lhe os planos que formulou para que a minha felicidade seja mais duradoura.

«Se soubesses as viagens encantadoras que projecta para a proxima primavera!...»{95}

Estava a carta n'este ponto, quando Amparo ouviu pronunciar o seu nome; levantou a cabeça e não poude conter um grito.

Tinha na sua frente, seu pae e Ernesto.

D. Ventura, alegre e risonho como sempre; o pintor pallido como um cadaver.

Amparo ao vêl-o, deixou cair a penna da mão, exclamando:

—Ah! é o sr. Ernesto!

—Elle proprio, respondeu D. Ventura, collocando familiarmente uma mão no hombro do pintor. Surprehendeste-te, não é verdade? Pois olha que a mim tambem me succedeu o mesmo, apezar de o esperar mais dia, menos dia, visto a exposição abrir em meados do mez.

Durante este curto dialogo, Ernesto guardou silencio. Os olhos tinha-os fixos em Amparo e os labios entre-abertos deixavam assomar um sorriso tão amargo como doloroso.

Amparo por sua parte, parecia perturbada. A presença inesperada de Ernesto produzira-lhe um effeito desagradavel. Nos olhos d'aquelle homem estava o ameaçador olhar do amante offendido.

Aquelle homem era para ella um terrivel presagio, um vivo remorso. Desejava estar a cem leguas d'alli.

—Sem duvida, que viemos importunar esta senhora, disse Ernesto procurando dominar-se.

—Não, senhor Ernesto; escrevia a uma amiga, e tenho tempo. Só á noite é que parte o correio.

—Demais, disse D. Ventura, o senhor não é uma visita importuna para nós, mas um bom amigo a quem tratamos com o maior prazer e recebemos sempre com satisfação. Se assim não fosse commetteriamos uma ingratidão. De fórma nenhuma se esquecem facilmente as nossas excursões por Florença e Roma.

Innocentemente D. Ventura feriu no mais recondito o coração da fllha.

—Creio, senhor Ernesto, que concluiu o seu quadro que vimos começado em Roma, disse Amparo.

—Sim, minha senhora, concluio-o, e espero depois{96} de ámanhã, requerer um logar para a proxima exposição.

—Onde iremos admiral-o e orgulharmo-nos, porque somos amigos do pintor, ajuntou D. Ventura.

—Quem o duvida?

—Mas dize-me: onde está o teu marido. Desejava apresentar-lhe Ernesto.

—Fernando foi esta manhã a Madrid e não volta senão á tarde.

—É pena; mas tudo se póde remediar, ficando Ernesto e almoçando comnosco.

Decididamente D. Ventura parecia disposto a atormentar a filha.

Ernesto comprehendeu que Amparo desejava vêr-se livre da sua presença, mas a noticia inesperada do seu casamento, causára-lhe tão terrivel effeito, que acceitou o almoço que lhe offerecia D. Ventura, só pelo prazer de atormentar aquella coquette que brincára com o seu coração para depois o despedaçar.

O almoço ia ser egualmente terrivel para os dois, mas Ernesto devorado pelo ciume, pela raiva, pelo desespero, estava resolvido a soffrer tudo.

Acceite o convite, D. Ventura, que não sabia estar quieto em parte alguma, teve ainda outro ensejo mais lamentavel para atormentar a filha do que os anteriores.

—Ernesto é como da familia e como fica para almoçar, vou dar as ordens necessarias e escrever duas cartas; passeiem pelo jardim, que eu venho buscal-os depois.

E dizendo isto dirigiu-se precipitadamente, para casa.

N'aquella occasião Ernesto daria a D. Ventura, a vida, e até a gloria; tinha necessidade de falar com Amparo sem testemunhas, de ouvir uma explicação da sua conducta; e demais, continuar o fingimento, a dissimulação, seria impossivel.

Quando n'um peito cheio de juventude e apaixonado se levanta essa terrivel tempestade do ciume, é difficil{97} dominál-a, chega o momento em que, esquecendo-se dos deveres sociaes, estala e produz um conflicto.

Ernesto, ao vêr-se só, suspirou com força.

Amparo comprehendeu a sua situação e conhecendo o generoso coração de Ernesto, juntou as mãos, deixou assomar aos olhos duas claras e transparentes lagrimas e com voz commovida, disse:

—Pela memoria de sua mãe, pela recordação d'aquellas noites imprudentes de Florença, rogo-lhe, Ernesto, que se esqueça de tudo e me perdôe.

O pintor fixou um olhar intenso, sinistro, n'aquella mulher que nunca lhe parecêra tão bella, e dominando-se, mas estremecendo ao mesmo tempo, como se o fosse a acommetter um ataque nervoso, disse:

—Perdoar, é facil; basta ter um coração grande e generoso; esquecer é impossivel, senhora, quando se tem uma alma como a minha, quando se sente na bôcca o fogo de um beijo que ha de causar a minha desgraça e a minha morte.

E levando a mão á cabeça, em tom desesperado, exclamou:

—Tudo isto é um sonho! É impossivel que isto seja realidade! Que mal fiz a esta mulher, para que depois de mostrar-me o céu, me lance no abysmo do desespero?

—Ernesto, senhor Ernesto, por piedade. Conheço que fui uma imprudente, que sou culpada, mas que quer...

—Senhora, exclamou Ernesto com dignidade, ha procedimentos, que nem Cicero com toda a sua eloquencia, poderia explicar satisfatoriamente, e o seu, é um d'elles; e, se eu, vendo-me enganado, me quizesse vingar, se eu n'este momento em que a vida me é indifferente, commettesse um d'esses crimes que lança o desespero nos homens, seria mais desculpavel ainda ante os homens do que a senhora ante a sua consciencia.

—É verdade, é verdade! murmurou Amparo, escondendo{98} o rosto nas mãos. Póde-me matar se lhe apraz.

—Não tenha medo; tenho bastante coragem para receber a morte sem me defender. Até ainda ha pouco a esperança, essa bella flôr da vida que tudo embelleza, esse grato perfume da alma, acariciou o meu coração, porque a luz d'uns olhos que outr'ora se fixaram nos meus cheios de ternura, illuminava todo o meu sêr; mas, agora, encontro-me subitamente mergulhado na mais profunda escuridão. Foi tudo um sonho, tudo uma mentira; a senhora nunca me amou; as noites de Florença foram momentos passageiros de delirio, entretenimento de mulher coquette, esmola concedida por uns labios lisongeiros, falso ouropel que tive a veleidade de receber por ouro puro; e emquanto recebia um beijo falso, dava a minha alma inteira. Ah! Que louco fui! Se ao menos tivesse tido compaixão de mim, se se tivesse dignado escrever-me uma carta, dizendo-me: «Ernesto, esqueça tudo quanto se passou entre nós; vou casar-me com o conde de Loreto, meu pae exige-o, é um compromisso que não posso evitar...» uma desculpa qualquer, uma mentira ao menos, porque ha mentiras desculpaveis porque nos fazem bem... Mas não; a senhora, pelo contrario, guardou silencio, e eu continuava alimentando as minhas illusões. Hoje chego a esta casa com a alma repleta de amor e de esperança e o seu pae diz-me com a mesma frieza e indifferença como se me falasse de um dos seus negocios: «Amparo casou com o conde de Loreto.» Comprehende, senhora, o effeito que em mim produziu esta noticia? As palavras não matam porque eu ainda vivo.

Amparo chorava. Só então comprehendeu a gravidade da sua imprudencia. O conde de Loreto fascinara-a: desde o dia das corridas em Paris amava-o de toda a sua alma, mas se antes de casar ouvisse as justas recriminações que lhe dirigia Ernesto, não teria pronunciado o sim de esposa junto ao altar.

Mas o coquettismo, essa arma terrivel da mulher, quando esgrimida contra um coração enamorado e{99} sensivel, dera os seus terriveis fructos e jé era tarde para retroceder.

Por isso Amparo não encontrava palavras com que se defendesse, com que se justificasse.

N'estes casos, a mulher tem dois caminhos; ou rir-se do amante enganado, ou confiar na sua generosidade e pedir-lhe perdão.

Amparo nem por sonhos pensou no primeiro caso; conhecia bem o amor de Ernesto e a bondade do seu coração; por isso appellou para o segundo recurso, e, levantando a cabeça, apresentou ante os olhos do pintor o seu rosto interessante, formoso e pallido, e, derramando lagrimas, disse:

—Pois bem, sim, Ernesto; fui uma coquette, uma imprudente, uma leviana. O meu procedimento não tem desculpa; mas amo o meu marido e preferiria cem vezes a morte a faltar ao que a minha honra e os meus deveres de esposa me impõem. Se não é bastante generoso para perdoar, mate-me, antes que Fernando conceba a menor suspeita, e antes que a mais pequena nuvem empanne a sua felicidade, prefiro morrer. Mas o senhor é bom e terá dó de mim.

Ernesto começava a sentir-se enternecido. Amava tanto aquella mulher que não se sentia com coragem para lhe negar fosse o que fosse. Amparo aproveitava-se das vantagens que ia conquistando.

—Sejamos, pois, amigos, como nos primeiros dias em que nos conhecemos; irmão, se quizer, mas perdôe-me e esqueça-me... não será tão cruel que m'o negue.

—Amparo, a senhora não póde imaginar o sacrificio que me pede; mas faz bem em confiar em mim. Como poderei ser a causa da desgraça da mulher que amo de toda a minha alma? Perdôo-lhe todo o mal que me fez, mas esquecer... é impossivel. Para amar não é preciso ser correspondido. Mas para que prolongar por mais tempo uma scena que me despedaça o coração? Adeus, minha senhora, seja feliz, viva socegada, porque entre os dois abriu-se, desde hoje, um abysmo, no fundo do qual estão sepultadas{100} todas as minhas illusões, toda a minha felicidade.

E Ernesto sahiu do caramanchão como o demente que arrebatado pela vertigem do seu doente cerebro não sabe para onde caminha.

O primeiro movimento de Amparo foi detêl-o; porém conteve-se, calculando que ia commetter uma segunda imprudencia, e de mais graves consequencias do que a primeira.

Uma vez só procurou serenar-se.

—Pobre Ernesto! disse ella, enxugando as lagrimas. Nunca imaginei que fosse tão grande o seu amor. Ah! Tem muita razão para me odiar. Foi uma imprudencia.

E, recordando-se de que uma só palavra de Ernesto poderia perturbar a sua felicidade, exclamou:

—Meu Deus! Permitti que esse homem não seja assaltado pela terrivel paixão da vingança.

Amparo fixou o olhar na carta que escrevia tão alegre, poucos momentos antes, á sua amiga, e não tendo paciencia nem socego n'aquelle momento para concluil-a, guardou-a na carteira do seu estojo de viagem.

Quando o pae voltou, Amparo estava quasi socegada, ou pelo menos fingia, para que se não suspeitasse nada da scena que acabára de dar-se n'aquelle logar.

—Aonde está Ernesto? perguntou D. Ventura.

Rapidamente imaginou uma desculpa que motivasse a precipitada fuga do pintor.

—Ernesto, disse, acaba de sahir.

—Mas, volta para almoçar?

—Não; disse-me para lhe pedir desculpa de se retirar, mas havia-se esquecido de que tinha uma entrevista importante em Madrid ás duas horas da tarde.

—Todos os artistas têem a cabeça á razão de juros. Mas emfim que remedio! Almoçaremos sósinhos.

E offerecendo o braço á filha, dirigiram-se para casa.{101}

[CAPITULO XVI]