Curiosidade não satisfeita

Emquanto Ernesto dormia, os seus amigos collocaram convenientemente a tela que o pintor trouxera de Roma.

—Magnifico! exclamou Marcial ao vêl-a. Estou crente que na Exposição não apparecerá nada melhor.

—É uma grande obra, ajuntou André, contemplando o quadro com olhos de entendedor. Ernesto obtem o primeiro premio.

—Mas espera. Já vi esta cabeça de mulher em alguma parte, disse o poeta fixando uma das figuras do primeiro plano, que representava a rainha Esther.

—Eu tambem, ajuntou o pintor.

—Recordemo-nos onde.

Mas de repente deu uma palmada na testa, e exclamou:

—Espera, já sei! Esta cabeça não é outra senão a de uma menina que conheço e que mora em Madrid. É a filha do milionario D. Ventura d'Aguillar.

—Ah! Sim! Aquelle sujeito que vem muito ao Suisso e que é tão amigo dos artistas.

—Esse mesmo.

—E que faz esse senhor?

—Não o vejo desde o inverno passado. Deve andar viajando.

—Preoccupações dos ricos durante o verão.

—Sabes que examinando este magnifico retrato me assalta uma suspeita?

—Qual é?{89}

—Que seja a linda Amparo o amor de Ernesto.

—Tambem me parece que tens razão em o suspeitares, visto que não ha muito ainda nos disse que ella era rica.

—Decididamente está decifrado o enigma.

—Sendo assim, sou de opinião que Ernesto deve dar, o mais breve possivel, o nó gordio.

—Nunca! Um artista de merecimento, um homem de talento deve ser solteiro toda a vida; o matrimonio é um obstaculo para a sua gloria.

—Seja como fôr, o quadro é admiravel.

—E devemos confessar que Ernesto será uma gloria nacional.

—O quadro produzirá um effeito grandioso; tambem eu não esperava menos.

—Se Ernesto encontrasse um Cosme de Médicis, tinha a fortuna feita.

—Desgraçadamente para os pintores aquelles tempos passaram.

—Sim, dizes bem.

Ás onze horas chegaram tres amigos de Ernesto, pintores tambem, que estavam convidados para almoçar com Marcial e André.

Ernesto continuava dormindo, somno que se respeitou durante meia hora que passaram entretidos a contemplar o quadro.

Por fim decidiram-se a despertar o hospede, e Ernesto deixou a cama entre applausos, felicitações e abraços dos amigos.

Tudo sorria em volta de Ernesto, e elle pensava de si para si:

—Hoje estou com os meus amigos; ámanhã... oh! ámanhã irei vêl-a ao seu palacio de Caramanchel.

Ernesto ignorava que Amparo tivesse morrido para elle.

Os seis amigos foram para o restaurant do Arminho, onde estava encommendado o almoço.

Os poetas e os pintores são tão pobres de dinheiro como ricos de imaginação. Quando a venda de um{90} quadro ou a estreia de uma peça lhes rende algum dinheiro, gastam-no alegremente com o mesmo desprendimento de principes. Ao acabar-se o ultimo centimo puxa-se pela intelligencia e cria-se outra obra. Assim passam a vida esses sonhadores, esses filhos do genio que vivem acariciados pelo sopro da gloria e pela interminavel melodia das suas illusões.

O restaurant do Arminho hoje já não existe; ha ainda pouco tempo que fechou as suas portas, convertendo-se no de Madrid. Mas seja como fôr, occupemo-nos do primeiro.

O Arminho no seu pequeno, mas elegante recinto, não era frequentado por pobres ou economicos. O serviço era á lista, e os pratos caros, mas bons.

Os frequentadores sabiam que um simples almoço lhes custava um par de duros, mas sabiam tambem que era preciso pagar, não só os manjares que depositavam no estomago, como as gravatas brancas dos creados e o serviço de prata em que eram servidos.

N'uma grande cidade como Madrid ha o costume de se atirar o ouro por um lado, emquanto que do outro alguns desgraçados morrem de fome.

Marcial encarregára-se do almoço. N'aquelle dia os estomagos dos amigos estavam á sua disposição. Escreveu n'um papel os quatro pratos fortes de que devia compôr-se, deixando ao gosto do cosinheiro do restaurant as sobremezas e os vinhos.

Os seis jovens, alegres e cheios de illusões, tinham bom apetite; comeram como quem não sente remorsos na consciencia, falaram de pinturas, de theatros, de mulheres.

Ernesto ouvia com certa satisfação os seus amigos; fallava menos do que elles sem duvida, porque tinha a imaginação mais preoccupada.

Quando chegou o Champagne, o vinho da alegria, do amor, quando começaram os brindes e os epigrammas picantes. Marcial levantou-se com um copo na mão, e disse:

—Brindo pelo original que serviu de modelo ao{91} nosso amigo para pintar a formosa figura de Esther no quadro que será a admiração de Madrid.

Todos esvasiaram os copos.

—E se essa figura que tanto celebras fosse uma creação minha? disse Ernesto, sorrindo-se.

—Então, respondeu Marcial maliciosamente, brindo pellas bellas creações do teu genio, e se alguma vez tiver a triste ideia de me casar, pedir-te-hei primeiro que pintes uma mulher a teu gosto, e juro-te que não consumarei o sagrado laço do matrimonio sem que encontre uma de carne que seja egual á do teu retrato. Mas, que queres, parece-me que já vi a tua Esther com trajes á moderna.

—Estás enganado, respondeu Ernesto com embaraço.

—Senhores, disse André, levantando-se, eu, em nome da fraternal amizade que nos une, peço que respeitem o silencio do nosso amigo.

—Pois eu, pelo contrario, peço que nos conte todos os seus segredos, exclamou um dos convidados. Entre amigos como nós, tudo é commum, até os segredos.

—Tem razão. Ernesto não deve ser avarento dos seus segredos, já que nunca o foi da sua bolsa.

—Fala!

—Conta-nos o que fizeste em Roma desde o dia em que pisaste a cidade eterna, até ao momento em que partiste para nos trazeres o melhor quadro que verão os contemporaneos.

—Sim, conta-nos a historia dos teus amores.

—Basta, senhores! exclamou Ernesto, estendendo os braços para restabelecer a ordem. Quem diabo lhes disse que estou enamorado?

—Foi Marcial.

—É uma calumnia.

—Podemos provar-te o contrario.

—De que maneira?

—Apresentando-te o original da tua Esther.

Ernesto estremeceu.

—N'esse caso, só se poderia attribuir a uma casualidade, disse inquieto.{92}

—A amizade não deve ser exigente, disse André desejoso de livrar o seu amigo d'aquelles apuros. Visto que Ernesto não conta, respeitemos o seu silencio, e tomemos café.

—Sim, sim; tomemos café, ajuntou Marcial, e com pouco assucar, para que allivie um pouco a cabeça, dissipando os vapores do vinho!

—Isso é um insulto; chamas-nos piteireiros.

—Póde ser que tenhas razão, disse outro. Apesar de tudo, o piteireiro é um ser feliz.

—Que seria dos homens se não existisse o vinho?

—Uma sociedade de paes graves.

—Um vasto cemiterio.

—Viva o vinho!

—E os homens despreoccupados, que se não importam de se embriagarem!

—Viva a Inglaterra, onde a embriaguez é respeitada.

—E está na ordem do dia.

—Ah! Nós, os hespanhoes, somos uns hypocritas; criticamos os piteireiros, mas bebemos vinho.

Desde aquelle momento a conversa dos seis rapazes foi tão animada, tão alegre, que nos seria difficil reproduzil-a.

Contos, anecdotas, escandalos da capital, tudo serviu de assumpto, em redor d'aquella mesa, onde fumegava a digestiva moka e o estomacal cognac.

Ás seis da tarde abandonaram o restaurant, e dirigiram-se para Castelhano. Necessitavam respirar o ar fresco do campo.{93}

[CAPITULO XV]