Os tres amigos
Dois mezes depois dos ultimos acontecimentos que acabamos de narrar, isto é, no dia 1 de setembro ás seis horas da manhã, dois rapazes passeavam na gare da estação do sul, esperando o comboio correio de Alicante.
—Garanto-te, dizia um d'elles, que Ernesto traz um grande quadro.
—E eu concedo-lhe o primeiro premio, ainda antes de o vêr.
—Tem muito talento.
—Sim, mas segundo pude perceber nas suas ultimas cartas, está enamorado.
—O amor abre muitas vezes o caminho.{83}
—Quando nos não conduz a precipicios horriveis.
—Isso tudo depende da mulher que o inspira.
—Dizes bem; ella faz do homem ou um heroe ou um parvo, mas quasi sempre o segundo caso.
—Não te concedo voto no assumpto.
—Como! Collocas-me fóra das leis do sentimento humano?
—Sim, porque és um exaggerado e odeias o sexo fraco.
—Tenho motivos para isso. Procurei estudar a mulher e estou convencido de que para ellas o mais importante é a exterioridade. Uma gravata bem posta, brilhante e bem feita bota de polimento; n'uma palavra um dandy adamado e escravo da moda, e que tenha o cabello sempre bem apartado, tem muitas probabilidades de ser amado; emquanto que um homem de verdadeiro merito, que cuide mais da sua intelligencia do que do seu traje, fica sempre derrotado em questões de amor. A historia apresenta-nos milhares de exemplos: todos os homens que honraram a sua patria não tiveram a quinta parte das aventuras amorosas de Lovelace, cuja arte se reduzia em fazer olhares ternos e trazer magnificas fivellas de prata nos sapatos.
—Ovidio foi amado por uma princeza.
—Quase esqueceu d'elle ao vêl-o n'uma masmorra.
—Tasso foi amado por uma fidalga.
—Que lhe não mandou nem um simples coto de vela quando por sua causa estava no calabouço escrevendo, Jerusalem libertada. Mas tu só me dás dois exemplos. Olha, André, Cesar foi o primeiro da sua epocha, a grande figura de Roma, e comtudo, a sua mulher, Pompeya, preferiu-lhe um imberbe creançola, Publio Clodio, que se vestia de mulher para pôr ao conquistador do mundo, uma corôa que não era por certo de louro. Pobre Cesar! Como era calvo, a sua cabeça estava sempre ameaçada.
Os que assim matavam o tempo esperando o comboio, era um poeta a quem conheceremos pelo nome de Marcial e um pintor que se chamava André, ambos{81} amigos intimos de Ernesto e a quem este remettêra de Alicante um telegramma avisando-os da sua chegada.
Marcial e André viviam juntos n'uma mansarda da rua do Prado, tinham um creado para ambos e comiam no café Suisso.
O unico patrimonio de Marcial era a penna; a fortuna de André, os pinceis. Os dois amigos tinham passado a fatal epocha de bohemios e tanto Marcial com os seus dramas; como André com os seus quadros, ganhavam o sufficiente para viver bem e serem muitas vezes a Providencia de alguns companheiros.
Mas continuemos na gare, que não tardará que visitemos a mansarda da rua do Prado.
O agudo silvo da locomotiva annunciou aos dois amigos que o comboio entrava nas agulhas; deixaram, pois, a discussão e dispuzeram-se a abraçar Ernesto.
Effectivamente chegou o comboio, e n'elle Ernesto, que se lançou nos braços dos seus amigos.
—Agora que já te abracei, digo que te acho muito abatido, disse Marcial.
—Effectivamente, estavas melhor quando partiste de Madrid, ajuntou André. Roma continúa a ser uma cidade doentia.
—Pois estou bom, completamente bom, e com um appetite devorador, respondeu Ernesto; mas, quando se vôa de Roma a Civita-Vecchia, de Civita-Vecchia a Marselha, de Marselha a Alicante, de Alicante a Madrid sem descançar nem uma noite, e quando de mais temos a infelicidade de enjoar no mar, creio que se não póde exigir a um corpo como o meu, magro e doente, que se apresente ante os seus amigos com as bochechas e a barriga de Sancho.
—Mas porque não vieste por Paris?
—Tinha pressa de chegar a Madrid, e receei demorar-me na capital do visinho imperio mais do que podia. E bem sabes que breve se fecha o praso para a apresentação dos quadros; chego, pois, a tempo. Arranjaram-me casa?{85}
—Tens a nossa. Nós temos casa.
—Tenho quarto?
—Viverás como um principe desthronado, não te apoquentes.
—Conduzam-me, então, para onde quizerem.
—E a tua bagagem?
—Reduz-se a uma mala, dois caixotes com quadros, e a tela que venho expôr, que vem enrolada em um cylindro de madeira. Aqui está a guia.
—Dá-m'a. Pepe encarrega-se de tudo. É um rapaz muito esperto.
Os tres amigos sahiram da estação, entregaram a guia ao creado que se chamava Pepe, e subiram para um trem.
Para chegar á mansarda dos artistas era necessario subir noventa e seis degraus.
Uma vez vencida a difficuldade dos noventa e seis degraus, a mansarda occupada pelo pintor e pelo poeta era alegre como uma manhã de maio.
Alli respirava-se o ar puro; d'alli o céu parecia mais azul e a vista espairecia contemplando as arvores do Retiro e do Prado.
André fizera da sala o seu atelier, onde tudo se encontrava n'uma desordem encantadora e propria do genio.
Marcial reservara a saleta para escriptorio. Ficava ainda a casa de jantar bastante grande, outra sala, dois quartos e a cosinha.
A segunda sala estava adornada com moveis alugados para receber Ernesto.
Devemos advertir que era uma d'essas mansardas decentes, que têem fogão em todas as casas, e que rendem ao senhorio oito mil reales por anno.
Quando os tres amigos se installaram na sala que servia de atelier a André, este disse:
—Aqui tens o nosso palacio, que de hoje em deante será tambem teu, se é que desejas viver comnosco.
—Está claro! Acceito uma parte da casa, porque{86} vejo que têem um grande atelier e admiraveis luzes para trabalhar.
—O que quer dizer que vens disposto a continuar com os pinceis.
—Bem sabes que são elles o meu unico patrimonio.
—Ai! Ernesto, por desgraça, em Hespanha a pintura pouco rende.
—Bem sei; mas trabalhando muito, espero não morrer de fome.
—Morrer de fome, estando comnosco!? exclamou Marcial. Isso não é facil; aqui os bens são communs e d'esse modo nunca nos falta nada. Demais o teu quadro será premiado, tu ficas rico, garanto-t'o eu.
—Não confio em promessas de poetas.
—O tempo te convencerá de que laboras n'um erro. Mas tratemos de outra coisa. Que tal te déste em Roma?
—Bem como sempre. Roma é a minha patria.
—Sim, é a patria dos artistas. Mas agora dize-me com franqueza, tu tiveste o mau gosto de te enamorares?
—Meu caro Marcial o amor não é outra cousa do que uma contribuição que todos pagamos, mais tarde ou mais cedo.
—Em boa hora o fosse. Eu procurarei pagál-o o mais tarde possivel. Mas com o direito que me concede a boa amizade, permitte-me que te continue a interrogar.
—Pergunta o que quizeres.
—Amas?
—Creio que sim.
—Vamos vêr. Quantos graus attinge o teu amor?
—Muitos, respondeu Ernesto, sorrindo-se.
—E quem é ella?
—Se me permittem, guardarei segredo.
—Não ha inconveniente; mas sem dar nome ao santo, creio que nos pódes dar alguns pormenores.
—Isso é diverso.
—É nova?{87}
—Vinte annos.
—Formosa?
—Como o mais bello sonho d'um pintor.
—Bem, bem, a arte deve ser irmã da belleza. É rica?
—Sim, por meu mal.
—Diabo! Isso não se explica.
—Digo por meu mal, porque se fosse pobre como eu, já seria minha mulher.
—Tão enamorado estás?
—Para que negál-o? Não tenho segredos para vocês, que são os meus unicos amigos: amo-a com toda a minha alma.
—De fórma que, quando terminar a exposição, regressas a Roma.
—Não, porque ella vive em Madrid.
—Anh! Isso é diverso; do mal o menos. Esperamos que nol-a apresentarás quando já não fôr segredo o teu amor.
—Prometto-o, tão depressa alcance o consentimento do pae. Por agora só lhes peço uma cama onde me deite algumas horas, porque estou muito moido.
—Tens razão, vem. Nós mesmo te vamos acompanhar ao quarto que te reservámos, mas não consentimos que durmas até muito tarde, porque convidámos uns amigos para almoçar.
—Acordem-me quando quizerem.
Um quarto de hora depois dormia docemente emballado pela gloria e pelo amor.
Pobre Ernesto! Como estava longe de imaginar a volubilidade da creatura a quem entregára toda a sua alma n'um só beijo!{88}