Como se pede
O piano é um grande recurso para aquelles que possuem e sentem na alma as doces e gratas impressões da musica, essa linguagem universal a que renderam tributo até os proprios deuses.
Amparo estava tocando. Tinha na estante a partitura da Estrangeira, mas os dedos percorriam machinalmente o teclado, e os olhos fixavam-se distrahidamente nas notas.
A musica para ella n'aquelle momento não era mais do que um grato ruido, adormecedor, como o sussurro cadencioso de uma fonte que convida á meditação.
Não pensava quasi nada no piano, muito pouco na partitura que tinha ante si, mas muito no conde de Loreto.
De Florença a Paris, isto é, trinta e seis horas de comboio, foram sufficientes para a formosa hespanhola se enamorar.
Antes d'esta viagem a casualidade collocára, ainda que momentaneamente, no palacio de Médicis, Fernando e Amparo; depois em Paris as corridas de cavallos e o duello reforçaram a ideia fixa que começava a dominál-a.
N'este momento Amparo estava só. D. Ventura sahira, depois de lhe contar tudo quanto sabia referente ao desafio do conde.
Tocava, pois, piano, pensando no seu companheiro de viagem, quando ouviu passos atraz de si; voltou a cabeça, e encontrou-se com Fernando que lhe dirigiu um cumprimento respeitoso e um sorriso cheio de tristeza.{78}
—Bôas noites, senhora D. Amparo. Talvez a venha incommodar, disse o conde.
—Incommodar-me? respondeu ella, parando de tocar. Pelo contrario. Bem vê que estou só... Meu pae é um valdevinos; abandona-me e então o piano é o meu recurso. Mas que tem? Está mais pallido que de costume, e noto-lhe uma expressão de tristeza na physionomia.
—Suppunha que não ignorava a desgraça que me succedeu hoje, e venho despedir-me.
—Como? abandona Paris?
—Ámanhã.
—Tão depressa.
—Pensava passar aqui alguns mezes, mas agora é-me impossivel; necessito vêr outro sol, respirar outro ar.
—E para onde vae?
—Para Hespanha.
—Então, sr. conde, não tardará muito que nos vejamos lá, porque, apezar de tudo, creio que o céu de Hespanha é o melhor de todos.
—Diz muito bem, e sobretudo quando no céu de Paris a imaginação preoccupada vê algumas manchas de sangue que perturbam o socego e roubam a paz de espirito.
—Verdadeiramente, é uma desgraça que as leis da honra imponham aos homens deveres tão desagradaveis. Meu pae contou-me tudo, e posso garantir-lhe que tão desgraçado acontecimento me penalizou bastante.
O conde sentou-se n'uma cadeira proximo do banco de Amparo.
—Não parece senão que me persegue algum genio fatal, disse elle, como se falasse comsigo. Quando o destino me colloca ante um homem com a arma homicida na mão, juro-o pela memoria de meu pae, sempre preferi morrer a matar, e expuz generosamente o peito ante o perigo, sem me preoccupar em evitál-o. Mas indubitavelmente uma força superior á minha vontade guia a minha mão, e sempre vejo{79} cahir sem vida o meu adversario. Só a primeira vez que me bati tive desejos de sahir vencedor; era uma creança, e a vaidade e o amor proprio cegavam-me. Então tive a desgraça de matar um amigo intimo, um antigo condiscipulo. Pobre Arthur! E sobretudo, pobre mãe aquella, em cujos olhos não mais se lhe sêccaram as lagrimas, até que a dôr a conduziu ao sepulchro!
O conde deteve-se. Bastava vêr-lhe o semblante, ouvir-lhe o timbre da voz para comprehender o estado do espirito. Amparo escutava-o interessada e sem se atrever a interrompêl-o.
O conde, mudando de tom, continuou.
—Com franqueza, não sou ridiculo? Vim despedir-me de V. Ex.ª, e estou-lhe contando historias que só a podem commover; mas ha dias em que se apodera de mim uma tristeza tão grande que não sei falar de outra coisa senão da minha vida passada, ou o que é o mesmo, dos meus remorsos, porque os sinto, senhora D. Amparo, e a minha sorte é duplamente desgraçada porque não tenho uma pessoa, que sendo depositaria das minhas amarguras, me console com os seus conselhos.
—Senhor Fernando, exclamou a joven verdadeiramente commovida, receando que só o desespero fosse o motivo da melancholia do conde; senhor Fernando, se julga que posso ser essa amiga, apezar da minha pouca experiencia do mundo, não me occulte nada e honre-me com a sua confiança.
—Senhora D. Amparo, ajuntou o conde com vehemencia, póde ser para mim o anjo salvador que me arranque do antro escuro em que me revolvo, conduzindo-me ao reino da luz e da felicidade; porque eu, qual judeu errante vagueando pelo mundo, necessito d'uma alma sensivel que me comprehenda, um coração bondoso que palpite com o meu e que se compadeça de mim. De que serve a mocidade e a riqueza? Preciso amar e ser amado. O bulicio do mundo não é sufficiente para distrahir a tenacidade do meu pensamento, a soledade da minha alma. Para{80} esquecer o passado necessito que comece para mim uma vida nova; é indispensavel regenerar o meu coração, porque não póde calcular a persistencia com que me persegue o infortunio. Um anno depois do meu desgraçado lance com Arthur a quem matei, estava na Italia, precisamente em Florença, no palacio de Médicis, defronte do grupo de Niobe onde a vi pela primeira vez...
O conde deteve-se, fez um brusco movimento com a cabeça, e exclamou:
—Só uma creança ou um louco seria capaz de entabolar similhante conversação; e talvez eu seja uma e outra coisa. Desculpe-me, minha senhora, e perdôe-me todas as loucuras commettidas esta noite; mas parto ámanhã, talvez que nos não tornemos a vêr mais, porque, já lhe disse, como o judeu errante percorro o mundo em busca de uma alma que me comprehenda, que se una á minha e que me dê parte da sua paz, da sua tranquillidade, da sua seiva. Ao vêl-a, disse: «É este o anjo que cubiço.» Mas creio-me indigno de merecêl-o; e já que o segredo do meu coração assomou aos labios, ainda que lh'o quizesse occultar, a senhora teria já comprehendido que a amo, e só me resta supplicar-lhe que não me guarde rancor por tanto atrevimento, e que me permitta antes de partir apertar-lhe a mão como amigo.
Se Amparo não tivesse verdadeira sympathia pelo conde, se não estivesse disposta a amal-o, necessariamente ter-lhe-hia parecido tão rara como incoherente a declaração que o conde lhe acabava de fazer.
Mas Amparo amava o conde, e não se enganava ao pensar que era amada por elle. Por isso, aturdida, trémula, com voz commovida e pouco firme, o olhar fixo no chão, extendeu a mão a Fernando e disse:
—Pois bem; se o senhor julga que depende de mim a sua felicidade, confie a meu pae, logo que elle volte, o seu segredo e partamos juntos para Hespanha.{81}
O conde soltou um grito, pegou na mão que Amparo lhe offerecia, e cobriu-a de beijos.
N'aquella noite o conde pediu a D. Ventura a mão da filha.
O honrado millionario mal poude dissimular a alegria que similhante pedido lhe causava. Era-lhe tão agradavel ouvir chamar á filha condessa!... Fraqueza por certo muito natural n'um homem nas condições de D. Ventura.
Mas, ainda assim, não se precipitou: ouviu com apparente serenidade o pedido, e concedeu o seu consentimento, depois de ouvida a opinião da filha.
Quando o conde sahiu, D. Ventura foi ao quarto de Amparo.
—Venho dar-te uma noticia surprehendente, inesperada, talvez agradavel.
—O que é papá?
—Que o conde parte para Hespanha.
—Já sabia.
—Já sabias?! E quem t'o disse?
—Elle proprio.
—Mas sabes que quer partir ámanhã, se isso lhe fôr possivel?
—Sim.
—E sabes tambem que me pediu a tua mão?
—Calculava tambem, meu pae, accrescentou Amparo, sorrindo-se.
—Por conseguinte atraiçoaram-me?
—O que perdoará, porque é muito generoso.
—Será possivel que todos os paes sejam malucos?
—Malucos só no preciso, isto é, d'alma e coração.
—Sim, sim. Mas, dize-me que lhe hei-de responder.
—Responda-lhe que sim, é o mais logico.
—E o casamento.
—Celebrar-se-ha em Madrid.
—Claro. Quem se casa em França residindo em Hespanha?
—Pois então já sabe; quando o conde lhe perguntar{82} pela resposta definitiva, diga que sim e é assumpto concluido.
—Mas olha, Amparo, agora que já se póde dizer que és a promettida esposa do conde de Loreto, vou contar-te uma cousa. Em Florença, suppuz que tu e Ernesto se amavam; mas assim é melhor; enganei-me, com o que muito folgo, porque, minha filha, n'estes tempos é mais acceitavel para marido um conde rico, do que um artista pobre. Ernesto pinta muito bem, mas não tem uma peseta.
Amparo ao recordar-se de Ernesto commoveu-se; mas a commoção foi passageira, como a ave que cruza sobre a nossa cabeça para não mais voltar.
Dois dias depois, um compartimento de primeira classe conduzia a Hespanha com a velocidade da locomotiva os nossos conhecidos. Era o dia 28 de junho.