Mais um
Quando Francisco ficou só, não poude conter as lagrimas; deixou-se cahir n'uma cadeira e chorou.
A dôr do mordomo era tão profunda, tão verdadeira que ao entrar o creado para o serviço, nem sequer deu pela sua presença.
O creado que servia seis quartos do corredor do segundo andar era um rapaz tão diligente como desembaraçado, e ao vêr o profundo pesar do velho creado do conde e que este sahira tão cedo, acompanhado de dois amigos, suspeitou tudo, mas em vez de dirigir a palavra a Francisco, julgou que era mais conveniente confiar as suas supposições ao hespanhol que occupava o quarto n.º 14, intimo do conde de Loreto. Assim, dirigiu-se para o quarto de D. Ventura e chamou-o.
D. Ventura ainda não perdera o costume de madrugar;{72} estava levantado e disposto a barbear-se. Abriu a porta, julgando que fosse o conde a propor-lhe algum passeio para aquelle dia, e encontrou-se com o creado e o seu eterno sorriso.
—Que ha? perguntou D. Ventura.
O creado falava, ainda que mal, o hespanhol, mas o sufficiente para se fazer comprehender pelos hospedes.
—Cavalheiro, disse elle, sei que sou um tanto indiscreto e importuno batendo tão cedo á porta de um hospede...
—Bem, bem. Que é? perguntou D. Ventura.
—Mas sei tambem, continuou o creado, que o senhor é o amigo intimo do senhor conde de Loreto.
—Sim, homem, sim, acaba.
—Pois bem, o senhor conde deve correr algum perigo, porque o vi sahir acompanhado de dois inglezes; e o mordomo do conde assim que elle sahiu, pôz-se a chorar amargamente. Não quero equivocar-me, mas julgo que o senhor conde vae bater-se.
—Diabo! Bater-se? Isso é grave!
—É muito, cavalheiro.
—Mas não sabes porquê?
—Só vi metter no trem os floretes.
D. Ventura sahiu precipitadamente do quarto, e entrou no do conde.
Francisco continuava prostrado na cadeira e com o rosto occulto entre as mãos.
—Que novidades temos? perguntou em voz alta D. Ventura.
O mordomo levantou a cabeça. Aquelle rosto veneravel estava decomposto pelas lagrimas e pela dôr: tinha uma expressão de profunda tristeza.
—É certo o que me acabam de dizer? É certo que Fernando foi bater-se?
—Desgraçadamente é certo, senhor D. Ventura.
—Diabo! Não sei para que se expõe a vida assim com tanta facilidade. Eu tive pelo menos, cincoenta mil questões, e nunca tive necessidade de me bater com pessoa alguma. Para que temos os tribunaes, se{73} fazemos justiça por nossas mãos? E demais, o que deu origem ao duello, valeria a pena?
—Não sei detalhes; só me disse que se ia bater; mas ia apostar em como o meu amo o não provocou, pois que o conde é incapaz de offender alguem. Oh! se o seu adversario o matasse era uma desgraça.
—Era, era! Mas tenho esperança em que não será assim. Ora o diabo do rapaz!...
E como o mordomo continuasse gemendo e suspirando, D. Ventura pôz-se a passear pelo quarto.
Assim se passou meia hora. Nenhum dos dois falava. D. Ventura pensou, por fim, que seria mais conveniente esperar o resultado no seu quarto do que junto do mordomo, cuja dôr o affligia duplamente.
—E a que horas saberemos o resultado? perguntou D. Ventura.
—Creio que ás nove, pouco mais ou menos.
—E são só oito! Mas, não se poderia dar parte ás auctoridades para evitar o duello?
—Se tal fizessemos, o senhor conde nunca nos perdoaria.
—Diz bem; não ha outro remedio senão esperar e conformarmo-nos com a sorte. Ora o diabo do rapaz! Vou vêr se a minha filha já se levantou, e peço-lhe que tão depressa saiba alguma cousa me avise.
O quarto de Amparo era separado do de seu pae por uma debil parede communicando por uma porta.
Amparo ouvira entre sonhos parte do que o creado dissera a D. Ventura.
Quando este entrou já estava levantada.
—Não me occulte nada, disse, quero saber tudo quanto se passa.
—Pois, filha, o que se passa é pouco agradavel. Fernando a esta hora bate-se em duello.
Amparo empallideceu e como se lhe faltassem as forças, sentou-se n'uma cadeira.
—Que é isso? Estás doente? Era só o que faltava.
—Não se assuste; não tenho nada.
—Nada! nada! Não me capacitas de que é sem{74} motivos que perdes as côres, commoveste-te, e isso é natural, muito natural, sim, senhora; porque demais, o conde é um joven que se faz estimar; e se tivessemos a desgraça de o perder, se o seu inimigo o matasse...
—Cale-se, papá, cale-se! exclamou Amparo estremecendo. Não diga isso nem a brincar.
—Sim, bôa brincadeira, não haja duvida! Ora o diabo do rapaz!
D. Ventura, depois de barbeado, assomava á porta a cada momento.
Nunca o tempo lhe parecera tão comprido.
Quando o relogio do quarto deu as nove horas, disse:
—Já se não póde demorar.
Como se estas palavras fossem como um amuleto magico, ouviram-se os passos de varias pessoas no corredor.
D. Ventura chegou á porta e não poude conter um grito.
—É elle? perguntou Amparo.
—É.
—E como vem? perguntou a medo.
—Perfeitamente, andando pelo seu pé. Ah! Louvado seja Deus!
E dizendo isto, sahiu precipitadamente do quarto, entrando no do conde.
—Venha um abraço, venha um abraço, exclamou.
O conde deixou-se abraçar.
—Com que então, foi feliz? perguntou D. Ventura com infantil alegria. Muito folgo, muito folgo.
Fernando dirigiu um olhar de censura ao mordomo, e deixando assomar aos labios um amargo sorriso, disse:
—Sabe então que me bati. Pois, visto isso, só me resta dizer-lhe que o lance foi desgraçado; teve graves consequencias.
—Como? Está ferido? exclamou D. Ventura.
—Não, infelizmente.{75}
—Não o comprehendo.
—Senhor D. Ventura, quando por uma d'essas nescias exigencias de decoro se batem dois homens e um d'elles morre no que chamamos campo da honra, o que sobrevive, o que torna para casa vencedor, traz uma espinha cravada na alma que permanece ahi toda a vida. Indubitavelmente alguma maldição está suspensa sobre a minha cabeça. Tenho má mão para desafios.
E o conde deixou-se cair n'uma cadeira, dando mostras do mais profundo abatimento.
—Conheço, senhor conde, que se deve ter um remorso muito grande em matar um homem, disse D. Ventura, mas, que remedio? Quando se tem em frente um inimigo armado que cubiça a nossa vida temos o dever de disputál-a.
Lord Rutheney pronunciou algumas palavras para tranquillisar o conde que parecia vivamente incommodado.
—Agradeço o interesse que lhes inspirei, disse Fernando; mas ao mesmo tempo, desejava que fizessem o favor de me deixarem só, pois estou fatigado e preciso descançar.
Era evidente que uma grande fadiga do espirito se apoderára do conde e os seus amigos retiraram-se.
D. Ventura entrou no quarto da filha a quem contou tudo quanto se passára, que com esse natural egoismo da mulher se alegrou profundamente ao saber que o conde se tinha sahido bem do lance de honra, visto ella não conhecer o infeliz Heitor morto no desafio, e unirem-na a Fernando relações de amizade que iam tomando o caracter de uma paixão verdadeira.
Entretanto, o conde de Loreto fechava-se no quarto, permanecendo o resto do dia sentado n'uma cadeira. Nem elle mesmo poderia dizer se o somno se assenhoreou d'elle algum momento.
Quando a obscuridade da noite se espalhou por todo o quarto, levantou a cabeça e disse:
—É uma desgraça que já não tem remedio; tenho{76} uma mão fatal. Esta é a quinta vez que causo a morte ao proximo e uma profunda dôr a um pae.
E passando a mão pela fronte, como se quizesse livrar-se dos tristes pensamentos que o preoccupavam, levantou-se e tocou a campainha.
Francisco, o mordomo, tão pallido, tão commovido como o amo, entrou com uma luz na mão.
—Bôas noites, senhor conde, disse deixando a vella sobre uma mesa.
—Bôas noites, Francisco. Já sabes; matei um homem.
—E todavia o senhor tinha-me dito que não mais se bateria ainda que o insultassem.
—É verdade; jurei não me bater, mas para que ninguem duvidasse de que sei defender o meu decoro, não me pude conter, e agora arrependo-me. Ah! se fosse em Hespanha não me tinha batido.
—O remedio que ha, disse Francisco, é esquecer o passado.
—Isso é mais difficil do que parece. Na memoria, como n'uma chapa d'aço, grava o buril do tempo todos os acontecimentos da vida. Só a morte tem o privilegio de os apagar. Mas tu disseste: já não tem remedio. Prepara tudo, que ámanhã sahiremos de Paris. Necessito, pelo menos, afastar-me d'esta terra.
—E para onde vamos, senhor?
—Para Hespanha.
—Está bem.
Fernando del Villar exhalou um suspiro e sahiu do quarto dirigindo-se ao de Amparo.{77}