A rosa de brilhantes

Uma hora depois, a caleche de D. Ventura estava parada quasi ao fim da pista.

D'aquelle ponto tinha a vantagem de vêr perfeitamente o cavallo que chegasse em primeiro logar á meta e estar proximo do camarote imperial onde o vencedor devia ir receber o premio.

Amparo, de pé sobre as almofadas da carruagem, com a mão esquerda appoiada no hombro do pae, percorria com o binoculo o pittoresco panorama que a rodeava.

Parecia-lhe impossivel que se pudesse reunir tanto luxo, tanta riqueza n'uma cidade.

Dizem os francezes que Paris é a capital do mundo civilizado, e em verdade assim é.

Quando a imperatriz Eugenia entrou no camarote, fez um signal com o lenço para que começassem as corridas, e ouviu-se então o sonoro som dos clarins.

Amparo sentia palpitar o coração com violencia; deixou de olhar para o camarote e viu na pista, no ponto por onde deviam entrar os concorrentes, o conde de Loreto.

N'aquelle momento daria tudo quanto lhe exigissem para conceder a victoria ao seu companheiro de viagem.

Pouco depois, ouviu-se o tropel que vinha do lado para onde se fixaram todos os olhares, e o precipitado e forte galope de muitos cavallos chegou aos ouvidos de Amparo como surdo rumor da tempestade que avança com rapidez.{63}

Começaram por admirar os cavallos; de todos os lados se ouviam bravos e gritos de enthusiasmo, misturados com exclamações de raiva.

Quando um cavallo passava adeante de outro, ouvia-se um rugido de raiva que exhalava o peito do vencido.

Entretanto aquella quantidade de cavallos, deitando espuma pela bôcca, fogo pelas narinas, avançava com uma velocidade vertiginosa até ao sitio onde estava Amparo.

Aquillo era um furacão de carne, empenhado pelo amor-proprio; parecia que arrebatava tudo.

Amparo tremia; estremecia, mau grado seu, procurando avidamente o conde de Loreto entre aquelles bonets de variadas côres.

Subitamente soltou um grito e fez com que D. Ventura, que contemplava boquiaberto aquelle soberbo espectaculo, voltasse a cabeça.

—Que é? perguntou elle.

—Alli, alli! exclamou Amparo. Vem á frente e traz n'uma mão o bonet e na outra o stick.

—Oh! meu Deus! Que loucura! Póde cahir.

N'aquelle momento o conde de Loreto passou pela frente da caleche de Amparo com velocidade de um raio. Mas apesar d'isso, cumprimentou-a com o bonet.

Amparo levou a mão ao peito como para conter as palpitações do coração.

Fernando levava pelo menos quarenta metros de avanço a todos os outros concorrentes.

Quando chegou á ultima valla, Rabeca saltou com tanta facilidade como se aquelle fosse o primeiro obstaculo. Um applauso geral resoou dedicado ao cavalleiro e cavallo.

O conde de Loreto ganhára a rosa de brilhantes e os cincoenta mil francos, e não tardou que não estivesse rodeado de admiradores e curiosos.

Fernando del Villar apertava a mão de alguns desconhecidos e cumprimentava os espectadores.

O lord approximou-se montando um soberbo cavallo de pura raça arabe.{64}

—Ganhou, senhor conde, disse apertando-lhe a mão. Esta noite espero-o para cear na Maison Dorée, não só para lhe pagar o que lhe devo, como tambem para lhe propôr um negocio, ácêrca da sua preciosa egua.

N'essa occasião approximou-se um dignitario da côrte a dizer-lhe que a imperatriz Eugenia esperava o vencedor.

O conde não esperou segundo convite: dirigiu a egua para o camarote real. Grande quantidade de cavalleiros o acompanharam.

Ao chegar, Fernando desmontou-se e foi introduzido no camarote pelo fidalgo.

—Disseram-me que era hespanhol, disse Eugenia em castelhano.

—Nasci na Andaluzia, senhora, respondeu o conde inclinando-se respeitosamente.

—Ainda bem, somos compatriotas. Aqui tem o premio que ganhou.

A imperatriz entregou-lhe um estojo de velludo. O conde ajoelhou-se para o receber, beijou a mão e sahiu do camarote.

Amparo não perdera o conde de vista nem um só momento. Quando viu que se dirigia para a sua carruagem, sentiu uma commoção desconhecida, como nunca tinha experimentado.

Fernando foi até ella, sorrindo-se.

—Bravo! bravo! exclamou D. Ventura, enthusiasmadissimo. Fazia o senhor muito bem, caro conde, em ter toda a confiança na valente Rabeca.

—É invencivel, disse elle. Tinha inteira segurança, de que, a não me succeder uma desgraça, o triumpho era meu.

E extendendo o braço, apresentou o estojo a Amparo, dizendo-lhe:

—Senhora D. Amparo, como sei que pedia a Deus para que me concedesse a victoria, como sei o interesse que tomou, ouso pedir-lhe que acceite como uma recordação d'este dia o premio que me acaba de offerecer a imperatriz dos francezes.{65}

Amparo pegou com mão trémula no estojo, e antes de ter tempo para responder uma só palavra de agradecimento por aquella amabilidade, o conde partiu a galope em direcção a Paris.

D. Ventura estava louco de alegria.

Amparo commovida, pallida, seguiu o conde com a vista.

—É um cavalheiro, disse o commerciante.

—Sim, papá; não se póde ser mais delicado.

—Mas, vamos vêr isso que tens na mão. Parece que não estás em ti.

E D. Ventura, notando que a filha corava, sorriu-se maliciosamente.

Amparo abriu o estojo: tinha um broche de brilhantes. Não se podia exigir mais gosto n'uma joia d'aquella natureza.

—Em verdade, é um bonito premio, disse D. Ventura, fixando os olhos no broche.

Amparo guardou silencio.



Sigamos o conde de Loreto, que, entregando a egua ao creado, tomou um trem de praça que o conduziu ao hotel do Louvre.

—Pódes dar-me os parabens, meu leal Francisco, disse o conde, abraçando o velho mordomo.

—Quer dizer que ganhou o primeiro premio!

—Não só o primeiro premio como tambem a aposta que tinha feito com lord Rutheney.

—Que grande alegria me dá, senhor conde, disse Francisco sem perder um só momento a sua peculiar gravidade. Temos gasto tanto dinheiro durante a viagem!

—Ahi vens tu com os teus malditos numeros.

—Senhor, o interesse que tomo pela casa faz com que muitas vezes tenha certas liberdades...

—Vamos, Francisco, não comeces a attribuir a ti faltas que não commetteste. Quando o meu pae morreu disse-me: «Nunca deixes Francisco; viu-te nascer, estima-te com idolatria e é honrado e leal.»{66} Desde então ainda não tive de que pense que não é tão grande como devia ser, em relação ao que gasto; mas que queres... quando estiver arruinado, quando me vir como vulgarmente se diz com a corda na garganta, então seguirei o teu conselho e casarei. E a proposito: Que tal te parece a filha do nosso companheiro de viagem?

—É extremamente formosa!

—E nada mais? perguntou o conde, sorrindo-se.

—E que tem doze milhões de dote.

—O que te traz preoccupado. Emfim, até lá veremos. Quem sabe se terás razão, aconselhando-me a que case! Mas, dá-me algum dinheiro; vou cear com alguns amigos á Maison Dorée e talvez se jogue.

—Hontem dei ao senhor conde tres mil francos.

—Sim, e hoje não tenho nem um centimo,

Francisco exhalou um suspiro, abriu a gaveta e deu tres notas de mil francos ao amo, dizendo:

—O tal inglez não pagará esta noite?

—É natural; mas não devo acceitar um convite com sentido no que me devem.

Fernando calçou as luvas, pôz o chapéu, pegou n'uma delicada bengala de canna da India, e sahiu.

A Maison Dorée é um dos taes estabelecimentos que só se encontram em Paris. Ponto de reunião da elegante e louca mocidade, centro d'esses seres felizes, sempre occupados em não fazer nada; come-se, joga-se e murmura-se, gastando dinheiro ás mãos cheias.

Ahi tudo se sabe, tudo se commenta; e mais de uma vez têem ficado a honra das mulheres da moda, de mistura com o Champagne e o Rheno sobre aquellas elegantes mesas.

O conde de Loreto estava convidado para jantar com o lord que fizera a aposta, que o esperava com pontualidade britannica.

Depois de cumprimentar, lord Rutheney tirou a carteira e entregou friamente os cincoenta mil francos que perdera.

—Senhor conde, antes que comecemos a jantar, e{67} segundo o costume inglez, de não fazer nada depois de nos levantarmos da mesa, vou propôr-lhe um negocio. Quer vender-me Rabeca? Dou-lhe por ella egual quantia á que me fez perder.

—Mylord, desejo conservál-a.

—Então não falemos mais no assumpto.

E pediu que lhes servissem o jantar.

Durante este, lord Rutheney fez elogios á egua do conde.

—É um precioso animal, dizia. Se me pertencesse, nas proximas corridas annunciadas em Londres, jogaria duas ou tres mil libras esterlinas com certeza de ganhar. Pena será se soffrer algum desastre.

Depois de jantar lord Rutheney e o conde de Loreto entraram no café.

Depois passaram á sala do jogo e o conde sentou-se proximo ao banqueiro.

Fernando jogava forte, mas com pouca sorte.

Meia hora foi sufficiente para perder quanto trazia comsigo.

Então voltou-se para o inglez que estava a seu lado ganhando mais de mil francos e disse-lhe sorrindo-se:

—Mylord, fica fechado o negocio: Rabeca é sua.

Lord Rutheney inclinou a cabeça em signal de approvação, e entregou ao conde cincoenta notas de mil francos.

Depois, tirou tranquillamente a charuteira e d'ella um havano e dirigiu-se pachorrentamente para a sala de fumo.

Sentou-se n'um commodo divan, e começou a saborear o delicioso charuto.

Proximo do sitio em que se achava o conde, fumavam quatro rapazes, conversando em voz alta.

Nenhum d'elles reparára, em Fernando.

—Desengana-te, Heitor, dizia um d'elles, o teu cavallo está muito longe de ser o que é a egua do hespanhol, e o arabe de lord Rutheney.

—Pois apezar da tua opinião, respondeu com voz alterada Heitor, garanto-te que se o meu jockey não tivesse sido um parvo, ganhava o primeiro premio.{68}

—A ti succede o mesmo que a Marco Antonio quando os seus gallos iam combater com os de Octavio Augusto, que perdia e para consolação á sua pouca sorte arranjava sempre uma desculpa. O cavallo de lord Rutheney levava ao teu mais de vinte metros de avanço. Emquanto ao do hespanhol não se fala, esse não era um animal, era um raio: nem mesmo o vento corria mais do que elle.

—Os hespanhoes, respondeu Heitor, em tom desdenhoso, têem nas veias um sangue mixto de godo e arabe, e não é para estranhar que saibam dar vantagens aos cavallos nas corridas. O conde de Loreto parecia um cigano correndo d'aquella maneira.

Fernando ao ouvir estas palavras, pôz-se de pé e pallido, com o olhar turvo e ameaçador, dirigiu-se para o grupo que falava de si e encarando o que acabava de falar, disse-lhe:

—O conde de Loreto sabe correr como um cigano e bater-se como um cavalheiro.

E dizendo isto, atirou uma luva ao rosto de Heitor, que se lançou sobre o seu antagonista.

Fernando extendeu o braço e deteve-o com incrivel facilidade.

Todos o rodearam.

Da parte do conde foi um creado chamar lord Rutheney.

—Que foi? perguntou elle.

—Quer ser meu padrinho?

—Como? Tem alguma pendencia?

—Sim, senhor. Este cavalheiro acaba de me insultar e tenho de me bater.

—Tem a escolha das armas.

—Cedo-a ao meu adversario: espero-o no café.

Pouco depois lord Rutheney reunia-se ao conde de Loreto.

—Já está tudo combinado, disse o inglez. Batem-se ao florete, ámanhã, ás oito horas da manhã, no bosque de Bolonha.

—Perfeitamente. Espero-o ás seis no hotel do Louvre.{69}

—É sufficientemente forte ao florete para se pôr na frente de um adversario que o escolhe para se bater?

—Manejo-o regularmente, e tenho pouco amor á vida; com estes dois requisitos não me devo arrecear d'um lance. Mas se me permitte, retiro-me. São dez horas: esta noite canta a Patti, e desejo ouvil-a, porque ámanhã mata-me o meu adversario.

Lord Rutheney conduziu-o na sua carruagem á Opera.

Quem visse Fernando na sua cadeira applaudindo com enthusiasmo a celebre Patti, não supporia que elle se ia bater no dia seguinte.

Á meia noite entrou no seu quarto do hotel do Louvre, sentou-se, accendeu um charuto, e dirigindo um olhar tranquillo a Francisco, disse-lhe:

—Ámanhã bato-me ás oito horas da manhã.

O mordomo recuou dois passos, e exclamou assombrado:

—Outra vez?!

—Sim, é a quinta. Quem sabe se será a ultima? Não é vontade minha; quando menos se pensa, um insolente ou um enfatuado atravessa-se-nos no caminho, insulta-nos, e a honra exige que nos batamos. Cinco vezes me tem succedido isso. Prepara, pois, os meus floretes, e deita-te. Ah! Esquecia-me. Ámanhã cedo, mandarás por um creado Rabeca a lord Rutheney; vendi-lh'a; e, verdade verdade, que isso me desgosta mais do que o duello.

Francisco fez um gesto como se fosse para falar.

—Não te inquietes, não te inquietes com reflexões inuteis; o duello é inevitavel. Quero dormir para estar fresco. Bôa noite. Acorda-me ás cinco e tres quartos.

E o conde principiou a deitar-se.

Francisco sahiu triste e preoccupado.

Alguns minutos depois o conde de Loreto dormia profundamente.

O honrado mordomo não se deitou: ser-lhe-ia impossivel dormir, e preferiu estar levantado.{70}

Ás cinco horas e meia entrou no quarto do amo.

O velho esteve-o contemplando por alguns momentos. Notava-se-lhe na triste expressão do rosto o estado do seu espirito. Receava pela vida do amo.

Por fim disse em voz alta:

—Senhor, são horas.

O conde abriu os olhos, bocejou, e, fixando um olhar somnolento no mordomo, disse:

—Nunca perdoarei ao meu adversario este delicioso sonho que me rouba. Que mau costume baterem-se de manhã!

Fernando vestiu-se com esmero, como se fosse fazer uma visita de cerimonia, com a differença de que em vez do frack ridiculo e incommodativo, vestiu uma sobrecasaca preta.

—Querido Francisco, disse o conde, dando o ultimo toque na gravata em frente ao espelho, se o meu adversario me matar, o que é provavel, mas não impossivel, tu te arranjarás como puderes, com os meus crédores; e visto o remanescente da minha fortuna ser para a avarenta da minha tia, a marqueza del Ramo, aconselho-te que fiques com tudo quando te seja possivel, porque não é justo que ao cabo de tantos annos de bons serviços, tenhas que procurar um novo amo, que indubitavelmente te não trataria como mereces. Agora faze o favor de dizer ao creado que me sirva o chá. Mylord não se póde demorar; são já seis horas, e é pontual até ao exaggero.

Effectivamente lord Rutheney, acompanhado de outro amigo, entrou no quarto.

—Creio, senhores, que temos tempo de tomar uma chavena de chá, disse o conde.

Rutheney olhou para o relogio.

—Os meus cavallos conduzir-nos-hão em menos de uma hora: temos tempo, isto é, podemos dispor de sessenta minutos.

—Creio que este cavalheiro, ajuntou o conde, indicando o companheiro do lord, será o meu segundo padrinho.

—É mister Carlos Bobbe, meu medico e meu{71} amigo; servirá, pois, de medico e de testemunha.

—Tanto melhor. Mas vamos ao chá.

O creado entrou trazendo uma bandeja com chavenas e pratos, que deixou sobre uma meza.

Mister Bobbe bebeu cinco chavenas de chá; lord Rutheney tres e o conde uma.

—Quando quizerem, meus senhores, disse Fernando, vendo que os padrinhos collocavam as chavenas na bandeja, como prova de que não queriam beber mais.

Fernando abraçou o mordomo, cujo rosto circumspecto e os olhos arroxeados o fizeram sorrir.

—Não receies, lhe disse; sahir-me-hei bem como das outras vezes. E partiu.

[CAPITULO XI]