De Florença a Paris

Fernando del Villar, conde de Loreto, depois de cumprimentar respeitosamente com um movimento de cabeça os seus companheiros de viagem, accomodou-se do melhor modo possivel no canto, e pôz-se a lêr. Em frente d'elle, grave e immovel como El banquero de Cera, de Paulo Féval, estava o velho mordomo. D. Ventura pensou que com uns companheiros tão graves se iria aborrecer extraordinariamente, mas restando-lhe a consolação de lêr até que se apresentasse melhor occasião, tirou o Guia que lhe offerecêra Ernesto.

Amparo, alguma cousa preoccupada com a recente despedida do homem a quem julgava amar, fechou languidamente os olhos e entregou-se a essa doce vida das recordações em que o passado é o presente da imaginação.

Durante a primeira hora tudo se passou da fórma por que acabamos de descrever. Depois, como se prolongasse o silencio, Amparo, olhava dissimuladamente o joven aristocrata que tão embebido estava na leitura.

O conde de Loreto era um d'esses homens a quem as mulheres não podem olhar impunemente, porque o seu rosto pallido e formoso, a triste expressão do seu semblante, convida o bello sexo a fazer esses terriveis commentarios que lhe são tão peculiares.

Porque seria que sendo o conde de Loreto immensamente rico, estava tão triste? Isto pensou Amparo. E vendo atravéz aquella melancholia impropria da juventude, uma historia interessante, teve empenho em conhecel-a.{56}

Desde aquelle momento a felicidade de Ernesto estava ameaçada da morte.

D. Ventura, que tinha passado a maior parte da sua juventude atraz de um balcão, com os olhos alegres, o sorriso nos labios, a lingua disposta a entabolar conversação com os freguezes, aborrecia-se extraordinariamente no meio d'aquelle silencio enfadonho e do ruido da trepidação que a machina transmitte aos vagons.

Não podendo supportar aquella situação por mais tempo, deixou o livro e dispôz-se a falar com a filha, pensando que talvez assim conseguisse interessar o conde na conversa.

—Olha, Amparo, que delicioso panorama apresenta essa povoação collocada assim na falda d'esse monte, exclamou Ventura. Oh! decididamente a Italia é um paiz encantador.

—Que povo é este? perguntou Amparo.

—Diabo! É difficil de t'o dizer porque me esqueci de comprar o Guia dos Caminhos de Ferro.

O conde levantou a cabeça e assomando-a á portinhola, disse com voz harmoniosa e clara.

—Este povoado, chama-se, se me não engano, Santa Maria della Spina.

Amparo cumprimentou com a cabeça, como dando os agradecimentos ao conde pela sua deferencia.

—Obrigado, senhor conde, disse D. Ventura, no tom mais amavel que lhe foi possivel.

O conde tirou um livro da sua mala de mão, e dando-o a D. Ventura, continuou:

—Possuo por casualidade dois Guias Geraes dos Caminhos de Ferro de Italia e França. Se o senhor quer acceitar um...

—Bem vês, Amparo; isto é o que se chama viajar com sorte. Em Roma encontrámos o bom Ernesto, que foi para nós o melhor dos cicerones; aqui o senhor conde de Loreto offerece-nos um Guia que tirará pelo caminho todas as duvidas.

Fernando sorriu-se, e respondeu:

—O favor é tão insignificante, que não merece a{57} pena falar n'elle; sobretudo, entre compatriotas e visinhos, pois creio que somos visinhos ha um mez.

—Sim, senhor, em casa de Rosales.

—Tive o prazer de ouvir esta senhora tocar piano algumas noites; toca admiravelmente.

—E o senhor conde, segundo me disse minha filha, toca muito bem orgão.

Amparo se pudesse teria tapado a bôcca a seu pae. Mas já dissémos que D. Ventura tinha muita vontade de falar, e sobretudo fazer-se amigo do conde.

—Ah! incommodei com o meu orgão algumas noites esta senhora?

—Pelo contrario, pelo contrario, senhor conde; ouvimol-o com muito prazer. Abriamos as janellas para o ouvir melhor, ajuntou D. Ventura.

—O orgão, disse Amparo, tomando parte na conversa, receando sem duvida que seu pae commettesse alguma imprudencia, é um dos instrumentos que, quando bem tocado, expressa melhor o sentimento da musica.

—Sim, minha senhora, quando seja bem tocado, accrescentou o conde, deixando assomar aos labios um sorriso imperceptivel: mas, desgraçadamente, não succede isso commigo; toco por curiosidade, e nada mais. Apaixonado pela musica até ao exaggero dedico-lhe alguns momentos d'ocio. Admiro os grandes mestres, mas em mim a musica, como em tantos outros, não é mais do que um adorno, uma parte da educação. Toco, é verdade, mas toco muito mal, o que é o peior.

D. Ventura estava encantado com a singeleza e naturalidade com que se expressava o conde.

—Quizera, comtudo, disse o pae de Amparo, saber tanto como o senhor.

—Saberia muito pouco, meu amigo; sobretudo, na Italia que estamos atravessando, onde todos são musicos.

—O senhor conde chamar-me-hia indiscreto se lhe fizesse uma pergunta? disse D. Ventura.

—Entre compatriotas que viajam juntos na mesma{58} carruagem deve reinar a maior franqueza. Póde perguntar o que quizer.

—Vae directamente para Paris, ou pensa detêr-se em alguma cidade de Italia?

—Vou para Paris; já percorri tres vezes toda a Italia.

—Então faremos a viagem juntos.

—Pelo que me considero extremamente feliz.

—Paris é o povo mais alegre da Europa.

—E tem a vantagem de que os estrangeiros em Paris encontram-se quasi tão bem como na sua patria.

—O caracter parisiense é a reunião da alegria e da amabilidade; gostam de ser amaveis, e esforçam-se para o conseguir.

—Sempre que d'isso lhes resulte alguma vantagem, continuou o conde, mas seja como fôr, passa-se admiravelmente uma temporada n'aquelles modernos boulevards, onde o luxo reuniu todas as encantadoras loucuras. Oh! Só para cear uma noite no café Tortoni, almoçar na Maison Dorée e passear uma tarde no boulevard dos Italianos vale a pena fazer-se uma viagem a Paris.

—E vae estar muito tempo na capital de França? perguntou D. Ventura.

—Tenho muito que fazer, disse Fernando, sorrindo-se; primeiro ouvir a Patti na Somnambula, depois correr uma egua arabe nas proximas corridas de cavallos. Quero ganhar o premio que offerece a Imperatriz, que é uma rosa de brilhantes.

Amparo, que ouvia com prazer a conversa, ainda que não tomasse parte n'ella, ás ultimas palavras do conde, pensou que não seria pelo valor da rosa de brilhantes que elle desejava ganhar o premio, mas para fazer com elle uma offerta a alguma pessoa querida.

Desde aquelle momento Fernando del Villar, conde de Loreto, era para ella um homem que começava a espicaçar-lhe a curiosidade.

—Ah! disse D. Ventura. Tem em Paris a egua que vae correr?{59}

—Tenho em Madrid os meus cavallos, mas mandei vir para Paris a minha invencivel Rabeca. Creio que assistirão ás corridas.

—Teremos muito gôsto desde que se effectuem dentro d'um mez, e ao mesmo tempo uma grande alegria em que seja vencedor.

Quando se começa uma viagem, durante os primeiros momentos, mais ou menos prolongados, segundo o caracter dos viajantes, só reina o maior silencio; cada um pensa quem será o companheiro da frente ou lado, mas uma vez entabolada a conversa estabelece-se uma certa intimidade agradavel que dura toda a viagem e ás vezes toda a vida.

Durante a viagem dos nossos conhecidos, reinou a maior harmonia. Amparo e o conde falavam de musica; o mordomo e D. Ventura, de numeros. O honrado millionario estava satisfeito por ter encontrado tão bons companheiros.

Uma vez em Paris, como D. Ventura era um homem rico que viajava por prazer e não tinha casa na moderna Babylonia, deixou ao conde de Loreto a escolha do hotel onde deviam hospedar-se.

Fernando optou pelo Hotel do Louvre, e installaram-se em dois quartos contiguos no segundo andar com toda a commodidade que offerece aos passageiros o citado estabelecimento.

O conde quiz que se collocasse um orgão no quarto de Amparo, offerecendo-se para lhe dar algumas lições.

—Sou muito pouco habilidosa, disse Amparo, agradecendo-lhe com um olhar aquella deferencia.

—Ora, respondeu o conde. Para uma mestra de piano como Vossa Excellencia nada mais facil que aprender orgão. Creia que em quinze dias póde tocar perfeitamente.

—O que me vae custar uns oito ou dez mil reales, disse D. Ventura, porque terei de comprar um.

—E nunca em melhor occasião do que agora que estamos em Paris, onde os constructores mais afamados têem os seus armazens. Ámanhã visitaremos{60} alguns, com tres mil francos na carteira.

—Vejo, que tanto o senhor conde como Amparo, conspiram contra a minha bolsa.

No dia seguinte compraram um orgão, precioso instrumento de doze registos, incrustado em madreperola; uma verdadeira obra de arte que custou a D. Ventura seis mil francos, e que foi escolhido pelo conde, e o ex-commerciante não quiz deixar mal o joven aristocrata.

Pagou D. Ventura, encarregando o fabricante de lh'o remetter para Hespanha, e não se tornou mais a falar no assumpto.

Todas as tardes Fernando dava lição de orgão a Amparo. Ao principio estas lições foram curtas, depois prolongaram-se a duas horas.

Quando cantava a Patti iam juntos ao theatro; sómente o conde ia para as cadeiras e D. Ventura para um camarote, mas durante os intervallos o conde visitava o millionario.

Assim se passaram vinte dias. Amparo começava a pensar muito no conde e pouco em Ernesto.

Quando a mulher faz comparações, a derrota de um dos comparados é infallivel. Vejamos como o conde de Loreto cahiu a fundo sobre o pintor.

Tudo estava preparado para as corridas.

A Imperatriz Eugenia, com toda a sua côrte, devia assistir.

D. Ventura tinha conseguido a peso d'ouro, alugar uma luxuosa caleche. Amparo mandára fazer uma elegantissima toilette. A festa promettia ser das mais brilhantes. Toda a aristocracia de sangue e de dinheiro se reunia n'aquellas corridas. Amparo desejava vivamente que Fernando ganhasse o premio. D. Ventura, pela sua parte, dizia:

—É uma questão de honra nacional.

Ao meio dia appareceu Fernando: estava pallido, nervoso; no rosto tinha marcados signaes de desgosto.

—Succedeu uma grande desgraça, exclamou.

—Morreu Rabeca? perguntou D. Ventura.{61}

—Não, respondeu, esforçando-se por se rir.

—Mas o que é? disse Amparo.

—O meu jockey que está doente e que não póde correr.

—É verdade que é um contratempo. Mas não se encontrará outro?

—Outro? exclamou o conde assombrado. E quem me responde pela sua habilidade, pelos seus dotes, pela boa fé de um jockey alugado? Todos os leões de Paris, todos os afficionados de equitação, que não são poucos, que frequentam á noite a Maison Dorée e á tarde o boulevard dos Italianos conhecem Rabeca e têem grande interesse em que fique vencida; e seriam capazes de comprar o jockey que n'ella corrresse, para que a sopeasse e perdesse. Demais isso é sériamente grave para mim. Se não corre a minha Rabeca perco cinco ou seis mil francos que apostei a noite passada com um lord que traz tambem um dos seus cavallos para a corrida de hoje. A aposta está feita com as seguintes condições: «Se por qualquer casualidade um dos cavallos não puder correr dá-se por perdida a aposta.» É preciso portanto que Rabeca corra, e por isso venho dizer-lhes que não os posso acompanhar, pois que sou eu quem a vae correr.

—O senhor? disseram ao mesmo tempo pae e filha.

—Sim, eu. Sei que é uma desvantagem para mim. O jockey do meu adversario pesa escassamente tres arrobas: é um liliputiano, um homem em miniatura, é o rei dos jockeys, emquanto eu péso muito mais. Mas não quer dizer nada: a minha egua fará um esforço e vencerá.

—Permitta-me que lhe diga, disse D. Ventura, que se expõe...

—Isso é o menos. Quando chegar á terceira volta, saltarei já affoitamente. Tenho confiança na egua.

E o conde, depois de algumas respostas dadas aos argumentos que lhe apresentavam os seus amigos, sahiu, despedindo-se d'elles.

Como se póde calcular o interesse de Amparo cresceu uns setenta e cinco por cento.{62}

[CAPITULO X]